Resumo
Este artigo propõe um diálogo comparativo entre quatro leituras do capitalismo, a de Maurice Dobb sobre a transição do feudalismo, a de Karl Marx sobre a gênese estrutural do modo de produção capitalista, a de Nancy Fraser sobre a fronteira entre exploração e expropriação, e a de Fernando Haddad sobre a intensificação industrial contemporânea e a fragmentação das classes trabalhadoras. Argumenta-se que cada autor responde a uma pergunta distinta, respectivamente, como o capitalismo emergiu, como ele estrutura a extração de valor, onde estão seus limites constitutivos e como ele se transforma sem se superar e que a leitura conjunta revela tanto complementaridades produtivas quanto tensões genuínas, sobretudo entre explicações endógenas e explicações centradas na extração externa (colonial, periférica, reprodutiva). O artigo não busca harmonizar os quatro autores, mas situar precisamente onde concordam, onde se completam e onde divergem.
Introdução
O capitalismo tem sido interrogado, ao longo de quase um século de teoria crítica, a partir de perguntas distintas que raramente são colocadas lado a lado. Maurice Dobb pergunta como e por que o capitalismo emergiu das relações feudais. Karl Marx pergunta como o capitalismo, uma vez constituído, estrutura a extração de valor a partir do trabalho. Nancy Fraser pergunta onde estão os limites do próprio conceito de capitalismo o que ele inclui e o que exclui de sua contabilidade oficial. Fernando Haddad pergunta como o capitalismo se transforma sem deixar de ser, em sua lógica mais profunda, industrial. São perguntas complementares, mas não equivalentes, e a tentação de tratá-las como um único argumento contínuo, da gênese à atualidade, obscurece tensões teóricas que merecem ser explicitadas.
Este artigo segue essa ordem: uma seção para cada autor, seguida de uma síntese comparativa que organiza as convergências e, sobretudo, as divergências entre eles. O fio condutor é o conceito de acumulação primitiva, que aparece, sob diferentes nomes e com diferentes extensões, em todos os quatro, de Dobb, que o relativiza, a Fraser e Haddad, que o generalizam em direções distintas.
Dobb e o debate da transição: ruptura como diferenciação interna
Em A Evolução do Capitalismo, Maurice Dobb se opõe àquilo que ficou conhecido como a “tese comercializante” da transição do feudalismo ao capitalismo, a ideia de que a expansão do comércio de longa distância e a monetização das trocas, por si sós, teriam dissolvido as relações feudais e dado origem ao capitalismo. Para Dobb, o comércio é sintoma, não causa. A ruptura decisiva está na diferenciação social interna do campesinato e do artesanato em decomposição: uma fração de pequenos produtores acumula terra, ferramentas e capital, tornando-se capitalista; outra fração, expropriada ou incapaz de competir, torna-se assalariada. O capitalismo nasceria, portanto, de um processo endógeno de diferenciação de classe dentro da própria estrutura produtiva feudal, e não de um estímulo externo vindo do comércio.
Essa posição gerou a célebre polêmica com Paul Sweezy, que defendia justamente a centralidade do comércio e das cidades mercantis no rompimento do feudalismo, debate que seria retomado décadas depois por Robert Brenner e, mais recentemente, pela historiografia do sistema-mundo. O ponto relevante para este artigo é que Dobb constrói uma narrativa fundamentalmente endógena e centrada na Inglaterra: o capitalismo emerge de dentro, por diferenciação, não de fora, por extração colonial ou mercantil. Como se verá adiante, essa é precisamente a premissa que Fraser e Haddad, cada um a seu modo, colocam sob pressão.
Marx e a gênese estrutural do capitalismo
Marx, tanto em Para a Crítica da Economia Política quanto no Livro I de O Capital, também trata da gênese do capitalismo, mas desloca o centro de gravidade da diferenciação social gradual para a expropriação violenta e historicamente datável: os cercamentos (enclosures), a expulsão do camponês inglês da terra comunal, a criação jurídica e política de uma massa de trabalhadores “duplamente livres”, livres da servidão, mas também livres de qualquer meio de produção próprio. É esse duplo movimento, separação do produtor direto dos meios de produção e concentração desses meios nas mãos de uma classe capitalista que Marx chama de acumulação primitiva.
Vale notar que, embora Dobb e Marx sejam frequentemente lidos como aliados na crítica à tese comercializante, há uma tensão interna entre eles que não deve ser apagada: a diferenciação social gradual de Dobb e a expropriação violenta e historicamente concentrada de Marx não são exatamente o mesmo processo, ainda que possam ser complementares. Essa tensão é, aliás, um dos eixos do próprio debate Dobb-Sweezy-Brenner, e retorna, sob outra forma, na leitura de Fraser sobre a expropriação como condição permanente e não apenas fundacional do capitalismo.
Uma vez constituída essa separação estrutural, Marx concentra sua análise no funcionamento do capitalismo já formado: a força de trabalho torna-se mercadoria, o capitalista extrai mais-valia a partir da diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago, e o proletariado, os que vendem sua força de trabalho por não possuírem meios de produção, torna-se a categoria central de exploração. É essa categoria relativamente unificada de proletariado que, um século e meio depois, Nancy Fraser considerará insuficiente para dar conta da totalidade do capitalismo.
Fraser e a ampliação da fronteira do capitalismo: exploração e expropriação
Em Capitalismo Canibal, Nancy Fraser retoma diretamente a acumulação primitiva marxiana, mas a generaliza de um modo que altera seu estatuto teórico: em vez de um momento fundacional, historicamente superado, ela passa a ser uma condição estrutural permanente do capitalismo. Fraser distingue dois registros de extração de valor: a exploração, que ocorre na “economia oficial” através da relação salarial e é o objeto clássico de Marx, e a expropriação, que ocorre nas margens não reconhecidas do sistema, o trabalho reprodutivo e de cuidado não remunerado, a apropriação racializada e colonial, a natureza tratada como recurso gratuito.
Sua tese central é que a exploração da “front-story” depende estruturalmente da expropriação da “back-story”: o capitalismo só consegue pagar salários e extrair mais-valia porque, ao mesmo tempo, se apropria gratuitamente de trabalho reprodutivo, de recursos naturais e de populações racializadas fora do contrato salarial. Fraser também argumenta que o capitalismo depende institucionalmente de separações que ele próprio produz e naturaliza, entre economia e política, entre produção e reprodução, entre humano e natureza — e que essas fronteiras são histórica e politicamente variáveis, não dadas.
O efeito teórico dessa mudança é duplo. Primeiro, Fraser devolve centralidade à questão colonial, racial e de gênero, que tanto Dobb quanto o Marx “clássico”, centrados na Inglaterra e na relação capital-trabalho assalariado, deixam relativamente periférica. Segundo, ao tornar a expropriação permanente em vez de fundacional, Fraser se aproxima, por outra via, precisamente daquilo que Dobb rejeitava: uma explicação do capitalismo que depende de extração externa (colonial, de gênero, de natureza), e não apenas de diferenciação social interna.
Haddad e a intensificação industrial: acumulação primitiva periférica e fragmentação de classe
Capitalismo Superindustrial: Caminhos Diversos, Destino Comum reúne estudos que Fernando Haddad realizou entre o final dos anos 1980 e a segunda metade dos anos 1990 sobre economia política e a natureza do sistema soviético, agora revisados e acrescidos de uma parte inédita sobre a acumulação primitiva de capital na periferia do capitalismo. O eixo do livro é comparativo: a experiência soviética, a segunda servidão no Leste Europeu, a industrialização chinesa e os processos de acumulação primitiva na periferia latino-americana são lidos como “caminhos diversos” que convergem para um “destino comum”, a mundialização do capitalismo, inclusive por vias que se autodenominavam anticapitalistas.
Dois elementos do livro dialogam diretamente com os autores anteriores. O primeiro é justamente o uso do conceito de acumulação primitiva não como evento único e original, mas como processo que se repete em diferentes periferias do sistema capitalista, um movimento de generalização paralelo ao de Fraser, mas organizado pela geografia da dependência centro-periferia, não pela divisão racial ou reprodutiva do trabalho. O segundo é a tese, já esboçada por Haddad desde os anos 1990, de que as classes trabalhadoras se fragmentaram em três frações, cognitariado, proletariado e precariado, antecipando em termos teóricos parte do vocabulário que se popularizaria depois sob o nome de precariado.
O conceito que dá título ao livro, contudo, é mais específico do que uma simples constatação da diversidade das formas de trabalho: Haddad argumenta que o capitalismo contemporâneo não superou a lógica industrial, como sugerem as teses pós-industriais, mas a intensificou e espraiou para esferas antes não-industriais, a cultura organizada como indústria, os serviços disciplinados pela lógica da linha de montagem, até estruturas religiosas racionalizadas administrativamente como empresas. O “super”, nesse sentido, indica intensificação, não superação.
Síntese comparativa: complementaridades e tensões
A leitura conjunta dos quatro autores permite identificar, em primeiro lugar, uma complementaridade clara: o conceito marxiano de acumulação primitiva é generalizado por Fraser e por Haddad em duas direções distintas e não excludentes, a primeira pela linha racial, de gênero e reprodutiva; a segunda pela linha geográfica de centro e periferia. Trata-se de duas ampliações legítimas do mesmo conceito original, que poderiam, em tese, ser combinadas numa cartografia mais completa dos mecanismos de expropriação contemporâneos.
Em segundo lugar, e de modo menos harmonioso, há uma tensão real entre a explicação endógena de Dobb, o capitalismo nasce de diferenciação social interna e a ênfase de Fraser e Haddad na extração a partir de fora: seja da periferia colonial e das populações racializadas (Fraser), seja da periferia geográfica do sistema mundial (Haddad). Essa tensão não é nova; é, em essência, o próprio debate Dobb-Sweezy-Brenner reencenado em vocabulário contemporâneo, e um artigo que reúna esses quatro autores tem a oportunidade de reabri-lo explicitamente, em vez de simplesmente pressupor que todos concordam sobre onde começa o capitalismo.
Em terceiro lugar, a tese “superindustrial” de Haddad introduz uma complicação interessante para o argumento de Fraser sobre a diferenciação institucional do capitalismo. Se Fraser sustenta que o capitalismo depende de manter fronteiras, entre economia e política, entre produção e reprodução para funcionar, e se Haddad mostra que a lógica industrial invade justamente esferas não-econômicas como a cultura e a religião, cabe perguntar se essa invasão corrói as fronteiras que Fraser considera constitutivas, ou se apenas as reconfigura sob nova forma. Essa é uma pergunta em aberto que o artigo pode explorar como contribuição original, e não apenas como constatação de que os quatro autores “se completam”.
Uberização, MEI e o horizonte meritocrático: uma ilustração brasileira
O Brasil contemporâneo oferece um caso empírico que permite testar, e em certa medida tensionar, o instrumental teórico reunido nas seções anteriores: a expansão simultânea do trabalho mediado por aplicativos e da figura jurídica do Microempreendedor Individual (MEI). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 2 milhões de pessoas trabalham hoje para empresas de aplicativo no país, remuneradas como “trabalhadores autônomos” sem vínculo empregatício. Paralelamente, o Brasil chegou a 2025 com mais de 13 milhões de MEIs ativos, um crescimento de 318,9% em relação a 2011, ano inicial da série histórica, e o tema segue no centro do debate público: o Supremo Tribunal Federal retomou, em 24 de junho de 2026, o julgamento sobre a existência de vínculo de emprego entre motoristas e entregadores e as plataformas digitais.
Esse contingente não se encaixa com precisão em nenhuma das categorias discutidas nas seções anteriores. Não é o proletariado clássico de Marx: não há contrato salarial, e o trabalhador é juridicamente proprietário de seus meios de produção, o carro, a moto, o smartphone. Também não é a expropriação no sentido estrito de Fraser, já que há remuneração por tarefa, ainda que baixa. Trata-se de uma terceira figura, em que os custos de capital (combustível, manutenção, depreciação, risco, proteção previdenciária) são transferidos do capital para o próprio trabalhador, uma espécie de inversão parcial da separação marxiana entre produtor e meios de produção, ao mesmo tempo em que a rotina de trabalho permanece rigidamente subordinada ao comando algorítmico da plataforma: metas, roteiros, avaliações, bloqueios. É precisamente esse ponto em que a tese “superindustrial” de Haddad rende mais do que a formulação de Fraser: a lógica industrial, padronização, disciplina, controle de desempenho, não desaparece nem se restringe à fábrica; ela se espraia para dentro de uma atividade que se apresenta, jurídica e subjetivamente, como autônoma.
Um estudo da economista Bruna Alvarez Mirelli, publicado pela Fundação Getúlio Vargas, dá densidade empírica a essa hipótese: 53% dos CNPJs de MEI no Brasil funcionariam, na prática, como trabalho terceirizado disfarçado de empreendedorismo, a chamada pejotização, e não como negócio autônomo em sentido pleno. O dado é relevante porque desloca o argumento do plano puramente jurídico para o plano da subjetivação política: a categoria MEI não é apenas um regime tributário simplificado, é também um vocabulário. Ela oferece ao trabalhador estruturalmente precarizado e, em boa parte dos casos, estruturalmente subordinado, um repertório de autoidentificação como “dono do próprio negócio”, e não como explorado ou expropriado.
É nesse ponto que se pode formular a hipótese que conecta este artigo à análise da virada eleitoral à direita na América Latina: se parcela expressiva da população trabalhadora brasileira se compreende hoje, subjetivamente, como empreendedora, mesmo quando objetivamente subordinada ao controle algorítmico e privada da proteção trabalhista que caberia a um vínculo de emprego, essa autopercepção tende a ser mais permeável ao vocabulário da meritocracia (esforço individual, autonomia, desconfiança do Estado regulador e da ação sindical) do que ao vocabulário de classe da esquerda tradicional, ainda que este último corresponda mais de perto à sua posição material objetiva. Trata-se de uma hipótese a ser testada, não de uma conclusão fechada: sua verificação exige cruzar dados de autoidentificação ideológica, como os do Datafolha já trabalhados alhures, com o perfil ocupacional de quem responde à pesquisa, algo que uma versão futura deste artigo pode desenvolver com mais rigor. O que se pode afirmar desde já é que Fraser e Haddad, por serem os autores mais contemporâneos deste conjunto, são também os que melhor equipam a teoria crítica para reconhecer essa nova heterogeneidade da força de trabalho e, com ela, o descompasso entre posição material e identificação política que está no centro do problema do eleitor que vota contra o próprio interesse.
Considerações finais
Este artigo procurou mostrar que Dobb, Marx, Fraser e Haddad não formam uma sequência linear e cumulativa de leituras do capitalismo, mas um conjunto de respostas a perguntas distintas, sobre a gênese, o funcionamento, os limites e a mutação do sistema que se complementam em alguns pontos e entram em tensão genuína em outros. A tensão entre explicação endógena (Dobb) e explicação centrada na extração externa (Fraser, Haddad) permanece em aberto, tanto quanto a pergunta sobre se a intensificação industrial descrita por Haddad corrói ou apenas reconfigura as fronteiras institucionais que Fraser considera constitutivas do capitalismo. O caso brasileiro da uberização e do MEI sugere que essas não são apenas questões de exegese teórica: elas têm consequência direta sobre como uma parcela crescente da força de trabalho brasileira se compreende politicamente, e, por extensão, sobre como se explica o comportamento eleitoral que este projeto de pesquisa busca investigar.
Referências
Dobb, M. (2015). A evolução do capitalismo (9ª ed.). Rio de Janeiro: LTC.
Fraser, N. (2024). Capitalismo canibal: como o sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. São Paulo: Autonomia Literária.
Haddad, F. (2026). Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum (1ª ed.). Rio de Janeiro: Zahar.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativa de trabalhadores de aplicativo no Brasil. [https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/10/numero-de-trabalhadores-de-app-cresce-25-no-brasil-em-dois-anos-carga-horaria-maior-eleva-renda.shtml]
Marx, K. (2024). Para a crítica da economia política (1ª ed.). São Paulo: Boitempo.
Marx, K. (2025). O capital: crítica da economia política, livro 1 – o processo de produção do capital. São Paulo: Ubu Editora.
Mirelli, B. A. (2025). Estudo sobre a taxa de pejotização entre microempreendedores individuais no Brasil. Fundação Getulio Vargas. [https://www.fea.usp.br/fea/noticias/53-dos-meis-atuam-como-trabalhadores-no-pais-diz-estudo/]
Supremo Tribunal Federal (2026). Julgamento sobre vínculo empregatício entre trabalhadores de aplicativo e plataformas digitais, retomado em 24 de junho de 2026. [https://www.conjur.com.br/2026-jun-24/stf-retoma-nesta-quarta-24-julgamento-sobre-vinculo-empregaticio-entre-motoristas-e-aplicativos]
Marcos Freitas Pereira – Economista (PUC-SP), mestre pela Universidade de Alcalá, doutorando na UNINI México.