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Da glória à tragédia: o Brasil se despede de Santos Dumont

Há 94 anos, em 23 de julho de 1932, o Brasil se chocava com a notícia da morte precoce de um de seus filhos mais ilustres. Alberto Santos Dumont, o pai da aviação, havia tirado sua própria vida em um quarto de hotel no Guarujá. Ele tinha 59 anos.

Há décadas, Santos Dumont enfrentava problemas de saúde física e mental. Após receber o diagnóstico de esclerose múltipla e desenvolver um quadro de depressão severa (e possivelmente transtorno bipolar), o inventor fechou sua oficina, abandonou projetos e se afastou do convívio social.

O uso de aeronaves para fins bélicos incomodava o aeronauta brasileiro. Santos Dumont defendia que o avião deveria ser um instrumento voltado a impulsionar o progresso e aproximar os povos — e não a ampliar o potencial destrutivo das guerras. A devastação causada pelos bombardeios aéreos durante a Revolução Constitucionalista de 1932 encheu o inventor de angústia e, possivelmente, serviu de gatilho para o seu suicídio.

O Pai da Aviação

Durante muito tempo, Santos Dumont figurou entre as personalidades mais célebres do mundo. A fama era perfeitamente justificada pela grandeza de suas façanhas. Entre o fim do século 19 e o começo do século 20, o brasileiro revolucionou a navegação aérea, projetando e construindo os primeiros dirigíveis práticos impulsionados por motores a gasolina.

Santos Dumont desenvolveu aeróstatos equipados com lemes direcionais eficientes e dotados de equilíbrio mecânico e dirigibilidade. Em 1901, a bordo do Dirigível Nº 6, ele impressionou a todos ao circunavegar a Torre Eiffel, vencendo o Prêmio Deutsch de la Meurthe.

Em 1906, Santos Dumont voltou a figurar nas manchetes do mundo inteiro, protagonizando um marco fundamental da história da aviação. No Campo de Bagatelle, em Paris, ele fez a primeira demonstração pública de um avião capaz de decolar e voar por conta própria. O voo do 14-Bis foi o primeiro de uma aeronave mais pesada do que o ar a ser certificado pelo Aeroclube da França e pela Federação Aeronáutica Internacional.

No ano seguinte, Santos Dumont reafirmou mais uma vez o seu pioneirismo e a legitimidade do epíteto de “pai da aviação”. Ele construiu o Demoiselle, o primeiro ultraleve da história. Dotada de uma estrutura de aço, bambu e madeira, a aeronave podia atingir a impressionante velocidade de 90 quilômetros por hora.

Por suas características, o Demoiselle é frequentemente apontado como o precursor dos aviões leves modernos. Sua combinação de peso baixo, eficiência e simplicidade influenciou gerações de projetistas e marcou a transição da aviação do status de “curiosidade científica” para um meio de transporte com amplo potencial de uso.

A importância do Demoiselle também reside em sua contribuição para a difusão do conhecimento aeronáutico. Em vez de patentear o projeto e restringir sua utilização, Santos Dumont disponibilizou gratuitamente os planos da aeronave, permitindo que construtores de diversos países reproduzissem e aperfeiçoassem o modelo.

Desencanto e problemas de saúde

As contribuições de Santos Dumont revolucionaram a aviação, mas o inventor se desencantou com a aeronáutica após compreender o potencial do uso bélico dos aviões. Apenas um ano após o voo com o 14-Bis, os irmãos Wilbur e Orville Wright, donos da patente da aeronave Flyer I, assinaram contratos com as Forças Armadas dos Estados Unidos para produzir aviões para uso militar.

O inventor ficou muito contrariado após testemunhar o uso de aviões em combates e bombardeios aéreos durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1915, um ano depois do início do conflito, Santos Dumont fez um discurso durante o Segundo Congresso Científico Pan-Americano exortando o uso da aviação para fins pacíficos e integração entre os povos.

Na Primeira Conferência Pan-Americana de Aeronáutica, Santos Dumont voltou a defender o uso pacífico dos aviões. E em 1926, o aeronauta brasileiro fez um apelo à Liga das Nações em favor do banimento do uso de aviões como armas de guerra. Na ocasião, ele chegou a ofereceu dez mil francos a quem escrevesse a melhor redação argumentando contra a utilização de aviões em combates.

Além da frustração com o uso bélico dos aviões, Santos Dumont passou a enfrentar graves problemas de saúde. Em 1910, o inventor chegou a receber o diagnóstico de esclerose múltipla. A precisão da hipótese diagnóstica é contestada por alguns autores contemporâneos, mas Santos Dumont realmente desenvolveu uma série de sintomas que interferiam na sua qualidade de vida.

O aeronauta passou a sofrer com tonturas, tremores constantes nas mãos, dificuldades motoras, episódios de fadiga intensa e crises nervosas. Ao longo dos anos, surgiram novos sintomas como insônia, ansiedade e alterações de humor.

A condição progressivamente incapacitante forçou Santos Dumont a abdicar de seu trabalho no desenvolvimento de aviões e agravou seu sofrimento psíquico. O inventor mergulhou em uma depressão profunda, abrindo mão de seus experimentos e interesses e isolando-se socialmente de familiares e amigos. Alguns autores cogitam a hipótese de que Santos Dumont sofria de transtorno bipolar ou de síndrome maníaca.

O aviador sofreu um duro golpe em dezembro de 1928, durante uma comemoração organizada justamente para celebrar seu retorno ao Brasil. Um hidroavião batizado com o seu nome caiu na Baía de Guanabara, deixando 14 pessoas mortas. Santos Dumont se culpou pelo acidente: “Eu sempre pedi a vocês que não voassem na minha chegada. (…) Quantas vidas sacrificadas por minha modesta pessoa”, disse aos organizadores do evento.

Uma multidão acompanha o cortejo fúnebre de Alberto Santos Dumont pelas ruas do Rio de Janeiro.
Fundação Casa de Cabangu

Os anos finais

A depressão de Santos Dumont piorou muito no início da década de 1930. Ele chegou a interromper sua alimentação e cortou quase todos os vínculos sociais. Internado em uma casa de saúde no sul da França, Santos Dumont tentou se suicidar com overdose de medicamentos. Uma nova tentativa de suicídio ocorreu em 3 de junho de 1931, mas foi frustrada pela pronta intervenção de seu sobrinho, Jorge Dumont Vilares.

Temendo uma piora em seu estado e saúde, Santos Dumont voltou para o Brasil e recorreu a centros terapêuticos de Araxá, Rio de Janeiro e São Paulo, buscando alívio para o seu sofrimento. Em maio de 1932, ele se hospedou no Grand Hôtel La Plage, no Guarujá, à época uma cidade conhecida pelas praias tranquilas e pelo clima ameno.

Durante sua estadia no Guarujá, Santos Dumont viu emergir a Revolução Constitucionalista de 1932, o movimento que opôs o governo de Getúlio Vargas às oligarquias de São Paulo. O inventor tentou impedir a eclosão da insurreição armada, enviando uma carta aos sublevados afirmando que “os problemas de ordem política e econômica que ora se debatem, somente dentro da lei e num quadro de plena concórdia poderão ser resolvidos”.

Após a eclosão da guerra civil, Santos Dumont acompanhou com aflição pela imprensa as notícias sobre os bombardeios aéreos que castigavam a capital paulista. Uma testemunha afirmou ter visto o inventor aos prantos após observar o cruzador “Bahia” sendo bombardeado por aviões na Ilha da Moela.

Em uma telefonema para o amigo José Orlandi, Santos Dumont confidenciou seu pesar: “Meu Deus! Meu Deus! Não haverá meio de evitar esse derramamento de sangue entre irmãos? Por que eu fiz esta invenção que, em vez de concorrer para o amor entre os homens, se transforma numa arma maldita de guerra? Horrorizam-me estes aeroplanos que estão constantemente pairando sobre Santos”.

A continuidade dos ataques aéreos certamente contribuiu para agravar o seu estado de espírito. Em 23 de julho 1932, tomado por uma profunda angústia, o inventor se suicidou em seu quarto no Grand Hôtel La Plage.

As camareiras que encontraram o corpo informaram que Santos Dumont havia se enforcado com uma gravata. O governo paulista, no entanto, ocultou esse fato, atribuindo a morte do aeronauta a um “colapso cardíaco”. A verdadeira causa da morte foi mantida em sigilo até 1944, quando foi revelada publicamente pelo jornalista Edgar Morel.

O corpo de Santos Dumont levado para São Paulo em um carro funerário para ser embalsamado e velado na Catedral da Sé, no centro da cidade. Em 25 de julho, o governo de Getúlio Vargas decretou luto oficial de três dias. “O brasileiro Alberto Santos Dumont, inventor da direção dos balões e do voo mecânico, dotando a humanidade de novos engenhos para o seu desenvolvimento, estreitou os laços entre as nações e cooperou para a paz e a solidariedade entre os povos, tornando-se, assim, merecedor da gratidão do Brasil, cujo nome honrou e glorificou” dizia o decreto.

Os combates aéreos da Revolução Constitucionalista foram suspensos por um dia. O general Góes Monteiro, que liderava as tropas federais, determinou: “Em homenagem à memória do imortal pioneiro da aviação, as unidades aéreas do destacamento do Exército Leste deixarão de bombardear hoje as posições militares inimigas”.

O sepultamento somente ocorreu após o término da sublevação paulista, meses mais tarde. O caixão foi transportado de trem até o Rio de Janeiro e carregado por uma multidão até o Cemitério São João Batista, em 21 de dezembro de 1932, enquanto esquadrilhas da aviação naval e militar homenageavam seu patrono com manobras no céu.

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