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Daniel Vorcaro tentou criar império de mídia antes de prisão

A Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação que envolve as operações de blindagem do banqueiro preso Daniel Vorcaro, 42 anos, dono do Banco Master.  Documentos apontam que Vorcaro, pouco antes da prisão, tentava construir um conglomerado de mídia para manipular a opinião pública a favor da imagem dele e da instituição.O plano consistia em investimentos milionários em veículos jornalísticos e digitais de grande alcance.

O caso veio à tona a partir do testemunho e de documentos entregues pelo publicitário Thiago Miranda, dono da Agência Mithi e sócio do portal Léo Dias, à coluna da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicados nesta segunda-feira (18). Miranda, que intermediou parte das negociações e prestou depoimento formal à Polícia Federal sobre o chamado “Projeto DV”(iniciais de Daniel Vorcaro), apresentou um contrato de compra e venda e capturas de tela com mensagens que comprovam as transações financeiras e a articulação de bastidores.

De acordo com o material apresentado, em 19 de julho de 2024, Miranda vendeu 17% do portal Léo Dias por R$ 10 milhões à empresa Foone Empreendimentos, representada formalmente pelo empresário mineiro Flávio Jacques Carneiro. O jornalista Leo Dias também alienou parte de suas ações na mesma operação. Dias antes da assinatura, uma reunião foi realizada na cobertura de Vorcaro no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, com a presença dos envolvidos. Em mensagens subsequentes, Miranda celebrou o acordo afirmando estarem otimistas com o negócio, ao que Vorcaro respondeu que fariam algo grande.

O relato do publicitário aponta que o controle real das operações cabia a Vorcaro, utilizando Flávio Carneiro como preposto. O plano de expansão do banqueiro já englobava participações diretas ou indiretas na revista IstoÉ, na IstoÉ Dinheiro, no site de economia Brazil Journal e no portal PlatôBR, este último também alvo de aportes da Foone Empreendimentos. A estrutura formal da Foone envolve Flávio Carneiro e o fundo de investimentos Duke, gerido pela Reag Gestora — comandada por João Carlos Mansur, parceiro de negócios de Vorcaro — e controlado por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro.

Flávio Carneiro confirmou ao jornal O Globo a sociedade nos portais, mas negou que Vorcaro atuasse como sócio oculto, sustentando que o Banco Master figurava apenas como anunciante nas plataformas. Miranda, por sua vez, reiterou à Polícia Federal que sempre ficou explícito que Vorcaro era o verdadeiro comprador e tomador de decisões. Após o fechamento do negócio, o publicitário passou a atuar na gestão de crises para o banqueiro, o que incluiu a interlocução com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para o financiamento do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, projeto no qual Vorcaro aportou R$ 62 milhões antes de ter os repasses suspensos devido à crise bancária. O publicitário também revelou a coordenação de uma campanha de marketing digital direcionada contra o Banco Central, com custo estimado em R$ 3,5 milhões mensais.

As ações visavam blindagem política e institucional diante do crescimento vertiginoso do Banco Master, antigo Banco Máxima, que passou de um patrimônio de R$ 219 milhões para R$ 5 bilhões após a assunção de controle por Vorcaro em 2019. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em novembro de 2025, motivado por fraudes bilionárias no sistema financeiro e rombos contábeis. Posteriormente, a Operação Compliance Zero resultou na prisão preventiva de Daniel Vorcaro, de seu pai, Henrique Vorcaro, e de outros operadores, sob a relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. A denúncia apura crimes financeiros e a organização de milícias digitais para intimidação de autoridades.

O preposto apontado no esquema de mídia, Flávio Jacques Carneiro, possui histórico em investigações federais. Ex-sócio do Grupo Bel e da Ediminas, gestora do jornal Hoje em Dia, Carneiro foi citado na delação premiada do empresário Joesley Batista, da J&F, em 2017, no âmbito da Operação Lava Jato. À época, Joesley apontou Carneiro como operador de repasses financeiros e facilitador de propinas destinadas ao então senador Aécio Neves (PSDB-MG), utilizando a venda simulada de um imóvel do jornal para acessar as transações de valores que variaram entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões. O Ministério Público Federal mantém investigações sobre o uso de verbas públicas na aquisição do referido jornal mineiro.

Até o momento, as investigações da Polícia Federal e do Banco Central processam os dados colhidos nos depoimentos e nos contratos apreendidos. Não há condenações definitivas decretadas contra os citados nos inquéritos em andamento.

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