
Boletim Outras Palavras
Receba por email, diariamente, todas as publicações do site
Agradecemos!
Você já está inscrito e começará a receber os boletins em breve. Boa leitura!
A família Bolsonaro é uma desgraça que assolou o Brasil, isso não quer dizer, aliás só reafirma, que ela não representa as profundas raízes culturais de boa parte de nosso povo. Flávio Bolsonaro é um candidato miserável, isso não quer dizer, que ele deixe de representar uma grande parcela de pessoas que vicejam nessa miséria, que se reproduzem no misto de ressentimento, autoritarismo e negação da política.
A revelação dos vínculos entre o Banco Master, a operação Dark Horse e os circuitos financeiros que irrigam o campo bolsonarista deveria, na teoria, produzir o que os analistas mais otimistas chamam de colapso de credibilidade. Vorcaro não é uma figura lateral: é o ponto de encontro entre o dinheiro dos cotistas do FGC, a arquitetura de um projeto de poder e a demonstração de que o bolsonarismo nunca foi apenas um fenômeno de rua. A base, diante de tudo isso, não se move.
Isso desconcerta a esquerda e o centro porque ambos operam, com graus distintos de ingenuidade, dentro de uma pedagogia do escândalo: a crença de que a exposição da podridão corrói o apoio. Essa crença pressupõe que o apoio se funda na confiança na probidade dos líderes. Não, não se funda. Quem apoia Flávio Bolsonaro não o apoia porque acredita que ele é honesto. Apoia porque ele encarna, com fidelidade suficiente, um conjunto de disposições culturais que antecedem o bolsonarismo e que o bolsonarismo apenas nomeou, organizou e amplificou: a desconfiança radical nas instituições, o ódio ao que se percebe como elite progressista, o autoritarismo como resposta ao medo social, e a recusa da política como espaço legítimo de mediação.
O escândalo do Dark Horse, nesse quadro, era o pangaré que faltava. A narrativa bolsonarista sai dele confirmada, por um mecanismo perverso de imunização discursiva. Se todos roubam, se o sistema todo é podre, se a mídia que denuncia também tem dono, então a denúncia é mais uma prova de que o campo adversário não quer o bem do povo, quer apenas trocar quem manda. O raciocínio é fechado por uma racionalidade cultivada durante décadas de descrença justificada, depois capturada e deformada pelo populismo de direita.
O eleitorado bolsonarista aprendeu, em parte corretamente, que as instituições brasileiras são seletivamente punitivas, que o escândalo tem endereço preferencial, que a indignação moral é um recurso distribuído de forma desigual. Quando essa percepção real é sequestrada por um discurso que a redireciona para o ódio ao PT, às minorias, à “ideologia de gênero”, ela se torna impermeável à evidência porque já incorporou a evidência como categoria de guerra, não de conhecimento.
Daí que Flávio Bolsonaro possa ser, ao mesmo tempo, um candidato sem substância e um candidato com futuro. Sua base não exige a substância que lhe falta. Mais importante é a presença, o reconhecimento, a sensação de que alguém, mesmo que miserável, fala por ela e contra os que ela identifica como seus adversários históricos.
Há, porém, uma vulnerabilidade de outra natureza. A base bolsonarista aguenta escândalo. O candidato pode não aguentar a acumulação de pequeneza. Flávio não tem o que Bolsonaro pai tinha, que era uma performance. Uma performance grotesca e autoritária, mas com energia própria, com a capacidade de ocupar o espaço emocional do eleitor. Flávio é o herdeiro sem o talento da herança. Se não entrega nem a adrenalina do confronto, nem a sensação de representação visceral que o pai entregava, o voto pode migrar para quem ofereça isso com mais eficiência. A extrema direita sobrevive a Flávio Bolsonaro. A questão é se Flávio Bolsonaro sobrevive a Flávio Bolsonaro.
A semana que o transformou no candidato que gagueja foi construída por gestos menores e acumulados que produziram uma imagem política de difícil reversão: a de um homem que nega o que está documentado, é apanhado e recomeça. O ciclo inteiro completou-se em menos de quarenta e oito horas. Na manhã de 13 de maio, questionado por jornalistas do G1, ele respondeu já querendo encerrar o assunto: “É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus.” À tarde, o Intercept publicou as mensagens e o áudio em que o próprio Flávio aparece cobrando pagamentos de Vorcaro. A negação foi o erro, e a exposição veio selá-la.
A qualidade do erro é reveladora. O pai mentia e não recuava; Flávio negou o que era documentado e recuou quando apanhado. A diferença é dramatúrgica, e na política de massas a dramaturgia tem peso de substância. O eleitorado bolsonarista suporta a denúncia criminal com certa desenvoltura, tendo incorporado faz tempo a ideia de que todos roubam e de que a acusação é arma partidária. O embaraço tem custo diferente: corrói a imagem de força que é o único capital eleitoral que o sobrenome transferiu. A gagueira política derruba onde o escândalo pouco alcança.
A eleição de 2026 será decidida pela capacidade de cada campo de mobilizar as energias que já estão lá, sedimentadas, esperando forma. O risco da esquerda e do centro democrático é continuar apostando que o escândalo faz o trabalho que a política deveria fazer. Dark Horse e Vorcaro são importantes como documentação do que o bolsonarismo é, de onde vem o seu dinheiro, de como opera sua infraestrutura. Para o eleitor que já decidiu que a denúncia é parte do problema, a tarefa é outra: a disputa, lenta, custosa e sem atalhos, das raízes culturais que o tornaram disponível para esse projeto.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras
The post Dark Horse e a pedagogia do escândalo appeared first on Outras Palavras.