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Datafolha antecipa cenário mais favorável a Lula após caso BolsoMaster

Como pão dormido, a nova pesquisa Datafolha, divulgada no sábado (16), já perdeu frescor e crocância. A coleta foi feita nos dias 12 e 13 de maio, em sua maior parte antes que o Intercept Brasil revelasse o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Ainda que sofra de envelhecimento precoce, o levantamento antecipa um cenário melhor à candidatura do presidente Lula (PT). Mesmo sem captar os efeitos do caso BolsoMaster – que empurrou a campanha de Flávio para uma zona de turbulência –, o Datafolha aponta tendências ligeiramente mais favoráveis à reeleição do atual presidente.

As intenções de voto pouco oscilaram. No primeiro turno, Lula aparece com 38% contra 35% de Flávio Bolsonaro. A diferença está dentro da margem de erro, o que tecnicamente caracteriza empate técnico. Os demais candidatos ficam muito distantes: Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) registram 3% cada.

No segundo turno, o empate é numérico: 45% a 45%. A disputa segue polarizada, mas o presidente conseguiu interromper, ao menos temporariamente, a deterioração observada em meses anteriores. Contra Zema e Caiado, Lula abre vantagem: 46% a 40% e 46% a 39%, respectivamente.

A batalha da percepção

Em estatísticas eleitorais, a direção importa tanto quanto o patamar. Nesse sentido, um dos avanços para Lula foi que o gap entre desaprovação e aprovação de seu governo encolheu de 11 para 9 pontos percentuais. A aprovação pessoal de Lula se sustenta em 45%.

O problema mais sério para Lula está em outro indicador: 59% dos eleitores dizem que ele fez menos do que esperavam. Esse é o dado que resume o principal nó da campanha – a distância entre o que o governo realizou e o que o eleitor consegue sentir no bolso.

Lula chega a este estágio da campanha com ativos reais, como o novo Desenrola, a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e o recuo na “taxa das blusinhas”. Essas medidas fortalecem a narrativa para a “economia do dia a dia” que o Planalto passou a encampar com mais ênfase, sobretudo para as periferias urbanas e entre eleitores de renda média baixa.

Nesse caso, a estratégia é aproximar os avanços macroeconômicos da percepção concreta de quem faz compras e paga contas. Crescimento do PIB, queda do desemprego e melhora fiscal terão pouco impacto se o eleitor continuar percebendo alimentos caros, crédito difícil e renda apertada. O desafio do Planalto é traduzir indicadores abstratos em melhora material perceptível.

Se os trunfos do governo são reais, o cenário ainda depende do que acontece do outro lado da disputa. Lula tem um adversário em dificuldades sérias. A candidatura de Flávio Bolsonaro, antes vista como consolidada, está pela primeira vez numa posição defensiva. Embora o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tenha garantido que bancará a candidatura do filho 01 até o fim, novas denúncias e, sobretudo, uma eventual delação de Vorcaro podem aumentar a instabilidade na extrema direita.

Os eleitores em disputa

A campanha de Lula se animou com os números do Datafolha, mas tem uma tarefa dupla. Primeiro: precisa reconquistar eleitores. Os 59% que dizem que Lula fez menos do que esperavam não são, em sua maioria, adversários ideológicos – mas eleitores que votaram nele e se sentiram decepcionados. O governo enfrenta dificuldades para lhes comunicar programas, obras e resultados.

Por tradição, a campanha eleitoral é o momento em que o incumbente tem o microfone para apresentar um inventário de realizações que faça sentido para os eleitores. Se quiser converter essas realizações em percepção e reduzir a rejeição a seu nome, Lula precisa ampliar a narrativa para além da base fiel – falar com quem votou no 13 em 2022, mas hoje hesita.

A segunda tarefa é buscar o voto indefinido ideologicamente. Num país dividido entre antipetistas e antibolsonaristas, cresce o peso dos chamados swing voters, os eleitores voláteis, que flutuam entre os dois polos. Nas contas do cientista político Carlos Melo, do Insper, eles representam cerca de 20% do eleitorado.

É exatamente sobre esses independentes que o escândalo BolsoMaster pode ter efeito, pois denúncias de corrupção têm mais potencial para furar bolhas. Lula precisa dialogar com esse eleitor mais pragmático e fortemente influenciado pela percepção de estabilidade econômica e integridade política. Além de olhar para trás e falar de legado, é necessário comparar propostas e demonstrar o risco do retorno do bolsonarismo.

Nova pesquisa

A 139 dias da eleição, o ambiente político parece menos hostil a Lula, que entra na semana com um horizonte mais limpo do que o esperado. Parte importante do eleitorado ainda está em processo de julgamento, e não necessariamente cristalizada contra o governo. A pesquisa sugere interrupção da tendência de deterioração e espaço para recuperação do presidente.

A depender dos desdobramentos do escândalo BolsoMaster e da capacidade do governo de consolidar a melhora econômica percebida, a eleição de 2026 pode deixar de ser apenas um referendo sobre Lula. Está cada vez mais claro que o eleitor será estimulado a fazer também um julgamento sobre a viabilidade moral e política do bolsonarismo pós-Jair Bolsonaro.

Nesta semana, o Datafolha fará nova rodada, desta vez testando também a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. A principal dúvida é saber se, em caso de implosão de Flávio Bolsonaro, seus votos migrariam totalmente para Michelle ou seriam parcialmente abocanhados por Zema ou Caiado. Setores do mercado já trabalham com a hipótese de substituição da candidatura de Flávio.

Será a primeira pesquisa a capturar plenamente a reação do eleitorado ao desgaste do caso BolsoMaster. Caso Michelle apresente desempenho superior ao de Flávio Bolsonaro, a pressão interna no campo bolsonarista tende a aumentar, apesar da complexidade de viabilizar essa alternativa a menos de cinco meses da eleição. A divulgação da pesquisa está prevista para sexta (22) ou sábado (23) – e os novos números dirão muito sobre o tamanho real da crise na extrema direita.

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