
Por João Pedro Stedile*
Do Intercept Brasil
Há mais de 60 anos, o povo cubano, seu governo e seu estado enfrentam uma perseguição, ilegal e injusta, da maior potência militar do planeta, o governo dos Estados Unidos. Democratas e republicanos disputaram no governo quem perseguia mais a pequena ilha socialista, alguns de forma mais explícita e outros, de modo mais dissimulado.
Esse bloqueio, cerco e perseguição foi operacionalizado sem os dois países estarem formalmente em guerra. Durante esses anos, os Estados Unidos aplicaram todas as táticas de cerco e destruição da guerra híbrida, descritas em detalhes no livro “Guerras híbridas – das revoluções coloridas aos golpes”, do analista geopolítico Andrew Korybko, tendo como fontes documentos das Forças Armadas estadunidenses.
As agressões representaram um bloqueio naval no comércio e a proibição de uso do dólar e do sistema financeiro Swift e de bancos americanos. Além disso, houve controle de remessas de divisas pelos familiares que vivem nos EUA e todo tipo de ameaça e ataques. Somam-se a isso ataques biológicos que destruíram lavouras de cítricos e outros produtos.

Mais recentemente, apertaram a corda com a punição aos turistas que forem a Cuba de não serem mais isentos da exigência de visto de entrada nos EUA. Essa medida afeta cidadãos da Europa, por exemplo, que iam aos milhares passar suas férias nas praias de um país que tem o turismo como importante fonte de receita de moedas estrangeiras.
A proibição de Venezuela e México fornecerem petróleo estrangula o setor energético do país, que depende do combustível para garantir o fornecimento de energia elétrica e para o plantio e colheita de alimentos.
A radicalização do bloqueio causa muitos problemas para a vida da população no uso de energia elétrica, na compra de alimentos e medicamentos e no uso das divisas enviadas pelos familiares.
Os Estados Unidos recentemente indiciaram o general e ex-presidente de Cuba Raúl Castro, mesmo aposentado, alegando que ele seria responsável pelo abate de duas aeronaves clandestinas que haviam saído de Miami em 1996.
Por que não sancionam os generais do Vietnã e do Afeganistão que os derrotaram em guerras recentes e derrubaram muitos aviões americanos?
As ameaças de sanções aos dirigentes do país deixam também um alerta a todos os governos do continente: se conseguirem com Cuba, poderão fazer com qualquer outro país, como já fizeram com a Venezuela.
Tudo isso foi feito de forma ilegal, à revelia do direito internacional, da soberania dos povos e dos governos. Foram condenados pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, a ONU, que todos os anos desde 1992 vota pela suspensão do bloqueio, em geral, com os votos de quase todos os países. No ano passado, só houve 12 abstenções e apenas sete nações votaram contra: os EUA, Israel, Ucrânia, Argentina, Paraguai, Costa Rica e Equador.
O povo cubano resiste, apesar de todos os sacrifícios impostos por essa guerra econômica, política e midiática. Para quebrar a resistência popular, autoridades cubanas acusam o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, de aumentar o financiamento a ONGs direitistas e de fazer uma campanha midiática pelas redes sociais para insuflar o povo a se insurgir.
O povo cubano tem manifestado suas críticas e preocupações com essa grave situação. No entanto, tem consciência de quem são os verdadeiros culpados.
Cuba é uma ilha, não tem recursos naturais nem representa um grande mercado para as empresas estadunidenses. Por que o governo dos EUA insiste, depois de ser derrotado durante 60 anos, na tentativa de derrubar o governo cubano?
A primeira explicação é política e ideológica. Os capitalistas estadunidenses e seu governo não admitem a soberania de um povo na construção do seu próprio destino tão perto dos EUA, que representa um mau exemplo a outros povos da América Latina.
Os capitalistas estadunidenses e seu governo não admitem a soberania de um povo na construção do seu próprio destino tão perto dos EUA.”
A segunda explicação é por interesses eleitorais. Os dois partidos de poder precisam alimentar o ódio da comunidade cubana em Miami contra Cuba para capturar seus votos.
Esses argumentos agora estão mais evidentes diante da crise e decadência dos Estados Unidos, que precisam garantir a doutrina Monroe em todo o continente.
Por isso, colocaram nas relações exteriores um sujeito desprovido de qualquer responsabilidade e moral, o secretário de Estado dos Estados Unidos Marco Rubio. Um mentiroso contumaz que tenta se projetar como líder da extrema direita do continente e quer mostrar serviço aos seus coordenadores latinos.
Diante de tudo isso, cabe aos governos progressistas da América Latina, às forças populares e partidos progressistas defender com toda a energia possível e necessária a soberania do povo cubano e seu governo.
A derrota de Cuba seria a derrota de toda a América Latina. Seria a derrota de um projeto alternativo ao neoliberalismo senil. Seria uma derrota para todo povo latino-americano, que precisa alimentar esperanças frente ao imperialismo dos Estados Unidos.
A derrota de Cuba seria a derrota de toda a América Latina. Seria a derrota de um projeto alternativo ao neoliberalismo senil.”
Muitas forças do campo popular e artistas têm se manifestado, como nosso querido Chico Buarque, que foi até Havana gravar um clipe. O governo mexicano enviou alimentos e combustível, apesar das ameaças de receber sanções, e manteve o programa de médicos cubanos para atender os pobres no seu país.
Mas ainda estamos em dívida com o povo cubano. Espero que o governo brasileiro tenha coragem de ser mais solidário. Que faça o envio de alimentos e combustíveis. Que seja politicamente solidário para impedir que Trump cometa a loucura de invadir Cuba ou apertar ainda mais o torniquete, como ameaçou que faria depois de resolver a situação no Irã.
Nosso movimento será sempre solidário a Cuba. Nunca nos esqueceremos dos mais de mil médicos de origem humilde que se formaram na ELAM, a Escola Latino-Americana de Medicina. Nunca nos esqueceremos dos milhares de médicos cubanos que vieram trabalhar comunidades carentes e abandonadas no Brasil e foram, em muitos casos, os primeiros doutores que nosso povo conheceu.
Nunca esqueceremos de como Cuba foi decisiva para a libertação do colonialismo de algumas nações africanas. Na epidemia do ebola na África em 2014, enviou médicos para tratar da população. Até o governo da Itália convocou os médicos cubanos durante a pandemia do Covid-19.
A atuação de Cuba pelo mundo tem um valor humanista e civilizatório extraordinário. Por isso, é necessário redobrar os esforços para enviar solidariedade material em alimentos, medicamentos e equipamentos agrícolas. É necessário pressionar os governos para enviar combustível e solidariedade política, para evitar a insanidade do homem instalado na Casa Branca.
*Dirigente da direção nacional do MST.
O post Defender Cuba é defender a América Latina apareceu primeiro em MST.