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Derrota na ONU expõe o fracasso da diplomacia subserviente da Alemanha

Pela primeira vez em sua história, a Alemanha fracassou em sua candidatura para uma vaga não permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A derrota, com as duas vagas europeias sendo conquistadas por Portugal e Áustria, não foi apenas um revés eleitoral; é o sintoma clínico de uma diplomacia alemã que confundiu peso financeiro com legitimidade política e subserviu seus interesses nacionais à agenda geopolítica de Washington.

A Alemanha perdeu a eleição com larga margem. Com 104 votos, face aos 134 obtidos por Portugal e aos 131 da Áustria, a República Federal foi claramente ultrapassada pelos dois países da Europa Ocidental. A partir de 1 de janeiro de 2027, Portugal e a Áustria assumem o cargo por dois anos.

Arrogância europeia e o custo da subserviência

A reação do governo alemão à derrota demonstra que Berlim ainda não compreendeu as razões de seu isolamento. O ministro do Exterior, Johann Wadephul, tentou justificar o ineditismo do fracasso atribuindo-o ao “apoio incondicional” à Ucrânia e aos laços inquestionáveis com Israel, além de acusar a Rússia de fazer lobby nos bastidores.

Essa declaração é a prova cabal da miopia diplomática alemã. Ao admitir que suas políticas externas são reféns de agendas militares e de responsabilidades históricas que, no atual contexto, têm servido de cheque em branco para atrocidades no Oriente Médio, a Alemanha alienou o Sul Global. Por um lado, a Alemanha critica veementemente como terrorista a organização de resistência palestina Hamas. Por outro, não insiste com a mesma veemência no respeito do direito internacional por parte de Israel na condução da guerra.

A oposição alemã, embora por motivos distintos, acerta ao apontar a “arrogância” de Berlim. A Alemanha atua na ONU não como uma mediadora de paz, mas como um posto avançado da OTAN, ignorando as demandas dos países em desenvolvimento e promovendo cortes em ajuda humanitária enquanto financia máquinas de guerra. O chanceler Friedrich Merz prometeu continuar sendo um “pilar confiável” do sistema, mas o mundo já não precisa de pilares que sustentem a hegemonia de uma única potência.

A antiga ministra de Estado da Cultura e copresidente dos Verdes, Claudia Roth, escreveu no Instagram: “A derrota da Alemanha no Conselho de Segurança da ONU é a fatura por uma política externa e de desenvolvimento extremamente branda. Um ano de coligação preto-vermelha tem sido marcado pelo recuo na assunção de responsabilidades internacionais: quem relativiza o direito internacional, corta radicalmente na ajuda humanitária e na cooperação para o desenvolvimento e quebra compromissos climáticos internacionais não se pode surpreender com a perda de credibilidade internacional”.

A Rússia e a defesa legítima da multipolaridade

A acusação de que a Rússia articulou os bastidores contra Berlim não deve ser lida como uma interferência ilícita, mas como o exercício legítimo da diplomacia em um mundo que caminha para a multipolaridade. Moscou atuou em sintonia com as nações do Sul Global, que estão fartas de ver instituições multilaterais serem transformadas em tribunais de exceção para ditar a moralidade ocidental.

Enquanto a Alemanha e seus aliados utilizam o Conselho de Direitos Humanos e a própria ONU para justificar sanções unilaterais e bloqueios econômicos ilegais contra nações soberanas, a Rússia assume o papel de defender a soberania real dos Estados. O “lobby” russo nada mais foi do que dar voz a um consenso emergente: o Conselho de Segurança não pode ser um clube exclusivo de nações que violam o direito internacional quando lhes convém. A derrota alemã é, portanto, uma vitória do equilíbrio geopolítico.

O fim da hegemonia moral do Ocidente

O Conselho de Segurança, formado por cinco membros permanentes com poder de veto (EUA, França, Reino Unido, China e Rússia) e dez temporários, exige para os assentos rotativos uma capacidade de articulação que a Alemanha perdeu. Berlim é, de fato, um dos maiores financiadores da ONU e, assim como o Brasil, defende a reforma da instituição. No entanto, a reforma necessária não é para dar mais poder a países que sequestraram o multilateralismo em favor de interesses unipolares.

A derrota histórica de Berlim deve servir como um espelho incômodo para a Europa. A percepção de que a ONU “perdeu peso” no cenário internacional não se deve à falta de financiamento, mas à sua falta de independência. Enquanto a Alemanha não romper com sua vassalagem estratégica e não adotar uma política externa verdadeiramente soberana e voltada para a paz — e não para a escalada de conflitos —, continuará a ser rejeitada pelas nações que exigem um mundo onde o direito internacional se aplique a todos, e não apenas aos vencidos.

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