Notícias

Diálogos ligam voto pró-Master de Nunes Marques a repasses ligados ao filho

Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro ligam pagamentos do Banco Master a Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, no período em que o magistrado deu o voto decisivo em um processo de interesse do banco. 

Os diálogos foram revelados nesta sexta-feira (18) pela revista piauí.

Indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro, Nunes Marques chegou a se declarar impedido de participar do julgamento. Um mês depois, voltou atrás e entrou no processo, que estava empatado. Seu voto garantiu a vitória da tese defendida pelo Master.

Quatro minutos depois do resultado, Luiz Rennó, advogado de confiança de Vorcaro e assessor jurídico do banco, enviou ao banqueiro o contato de Kevin Marques e escreveu: “Dominado aqui”.

O processo não tinha o Master como parte. Tratava de uma ação da Destilaria Alcídia contra a União, mas sua conclusão poderia valorizar uma carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro registrada no balanço do banco. 

Segundo estimativa da Polícia Federal, esses créditos superavam R$10 bilhões.

O Master havia adquirido direitos sobre indenizações cobradas por usinas “que tiveram prejuízos com o controle de preços do açúcar e do álcool na década de 1980”. Uma vitória da Alcídia abriria um precedente favorável para outros processos relacionados aos créditos comprados pelo banco.

Para Vorcaro, que enfrentava dificuldades financeiras e buscava liquidez para evitar a quebra do Master, o resultado tinha importância direta. Antes do julgamento, Rennó escreveu ao banqueiro que o caso era “importante” porque serviria “de paradigma para nossos casos”.

Ministro voltou atrás sobre o próprio impedimento

Nunes Marques se declarou impedido de participar do julgamento quando o caso começou a ser analisado pela Segunda Turma, em sessão virtual realizada entre 9 e 20 de fevereiro de 2024. Por isso, não votou. A certidão do julgamento registrou: “Impedido o ministro Nunes Marques”.

O motivo apontado pelo próprio ministro era sua atuação anterior no processo. Em outubro de 2018, quando integrava o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Nunes Marques participou do julgamento de um recurso da Destilaria Alcídia, presidiu a sessão e assinou o acórdão. 

O Código de Processo Civil impede que um magistrado volte a julgar, em outra instância, uma causa na qual já tenha tomado uma decisão.

Em março de 2024, no entanto, Nunes Marques voltou atrás. Em um despacho, afirmou que o impedimento havia sido lançado no sistema “por equívoco da assessoria do gabinete”. 

Segundo o ministro, o recurso analisado por ele no TRF-1 não o impedia de participar do julgamento no Supremo.

“Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar”, escreveu. O despacho foi comunicado a Dias Toffoli, presidente da Segunda Turma.

Com a entrada de Nunes Marques, o processo passou a ter cinco julgadores. O placar estava empatado: Toffoli e Edson Fachin haviam votado a favor da Alcídia, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça votaram contra.

O processo permaneceu parado durante os meses seguintes. Em 17 de setembro de 2024, foi liberado para julgamento presencial. Nunes Marques pediu vista e adiou novamente a conclusão do caso.

Em 1º de outubro, o ministro devolveu o processo e apresentou um voto de dez páginas a favor da destilaria. Com sua participação, a Segunda Turma formou maioria de três votos a dois pela indenização — resultado que também favorecia a carteira de precatórios do Master, estimada pela Polícia Federal em mais de R$ 10 bilhões.

Às 16h58 daquele dia, Luiz Rennó comunicou o resultado a Vorcaro: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, informou o placar: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André)”. O banqueiro respondeu com um sinal de positivo.

Quatro minutos depois, Rennó encaminhou a Vorcaro o cartão de contato de Kevin Marques, filho do ministro, e escreveu: “Dominado aqui”.

“500 mil mês”

O voto de Nunes Marques a favor da Destilaria Alcídia foi dado em meio ao período de transferências do Master para a Consult Inteligência Tributária. 

O banco começou a enviar dinheiro à empresa em agosto de 2024, dois meses antes do julgamento. A Consult pertence ao contador Francisco Craveiro, amigo de longa data do ministro, e repassou parte dos recursos recebidos a Kevin Marques.

Em 8 de agosto de 2025, Rennó avisou Vorcaro: “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”. Segundos depois, encaminhou o contato de Kevin e escreveu: “Aqui”.

“Esse aí”, continuou o advogado. “Único ‘meu’ que faltou.” Cerca de meia hora depois, Rennó informou: “Foi pago”.

Outro diálogo, de 4 de julho de 2025, menciona um pagamento mensal. Ao marcar novamente o contato de Kevin, Rennó perguntou ao banqueiro: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”. Depois, escreveu: “Então esse aqui já era né”, seguido de risadas. Vorcaro também respondeu com uma risada.

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou 14 transferências do Master para a Consult entre agosto de 2024 e julho de 2025. Os pagamentos somaram R$6,632 milhões, o equivalente a uma média de R$474 mil por operação — valor próximo dos R$500 mil mencionados na conversa.

Não há elementos suficientes para afirmar que os R$500 mil citados por Rennó correspondam a cada uma dessas transferências. As mensagens, no entanto, mostram que o assessor de Vorcaro associava diretamente o contato de Kevin aos pagamentos destinados à Consult.

A empresa repassou R$282 mil ao filho do ministro no mesmo período, divididos em 11 operações. Kevin não aparece como sócio formal da Consult, mas mantém relações financeiras e empresariais com seus proprietários.

Empresa declarou faturamento de R$ 25 mil

A Consult foi criada em 2022 e passou por mudanças pouco antes de começar a receber os milhões do Master. Em maio de 2024, quando Nunes Marques já havia desistido do impedimento e se declarado apto a julgar o caso Alcídia, o capital social da empresa saltou de R$ 10 mil para R$ 500 mil.

Dois meses depois, Francisco Craveiro tornou-se o único proprietário da companhia. Em agosto começaram as transferências que chamaram a atenção do Coaf.

No período de um ano, a Consult recebeu R$6,62 milhões do Master e R$11,38 milhões da JBS. Os valores contrastavam com o faturamento mensal declarado pela empresa: pouco mais de R$25 mil.

No dia seguinte ao voto de Nunes Marques no caso Alcídia, a sede da Consult foi transferida de Brasília para Alphaville, em Barueri. No mês seguinte, Kevin e Gabriel Campelo, filho de Francisco Craveiro, abriram outra empresa no mesmo endereço. Kevin ficou com 70% das cotas.

O post Diálogos ligam voto pró-Master de Nunes Marques a repasses ligados ao filho apareceu primeiro em Vermelho.