
Os peruanos foram às urnas neste domingo (7) para escolher o nono presidente em apenas dez anos, encerrando uma campanha marcada pela polarização e pela profunda crise institucional que atravessa o país desde 2016. A disputa coloca frente a frente a líder conservadora Keiko Fujimori e o candidato de esquerda Roberto Sánchez Palomino, em um confronto que ultrapassa a simples alternância de governos e assume contornos históricos.
Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko representa a continuidade de uma corrente política que marcou profundamente a história recente do Peru. Embora herde uma base eleitoral consolidada, ela também carrega o peso das denúncias de violações de direitos humanos associadas ao governo de seu pai, incluindo casos de esterilização forçada de mulheres indígenas, repressão política e concentração de poder.
Do outro lado, Roberto Sánchez emerge como representante de setores populares, rurais e indígenas que buscam reformas estruturais e uma revisão do modelo político consolidado durante o período fujimorista. Sua candidatura recupera parte da agenda defendida pelo ex-presidente Pedro Castillo e simboliza a resistência de amplos segmentos da sociedade ao retorno do fujimorismo ao Palácio de Governo.
Perspectivas para o domingo
De acordo com as pesquisas divulgadas nos dias que antecederam o segundo turno, a disputa presidencial no Peru chegou praticamente empatada entre a direitista Keiko Fujimori e o esquerdista Roberto Sánchez.
A sondagem mais recente do instituto Ipsos, divulgada em 5 de junho, apontava:
- Roberto Sánchez: 43,8%
- Keiko Fujimori: 43,2%
- Indecisos, votos brancos e nulos completavam o restante do eleitorado.
A diferença estava dentro da margem de erro, configurando um empate técnico.
Já uma pesquisa anterior do mesmo instituto, divulgada em 20 de maio, mostrava vantagem estreita para Keiko Fujimori, indicando que Sánchez havia crescido durante a reta final da campanha.
Outros levantamentos também registraram uma disputa extremamente apertada. Uma pesquisa do IEP chegou a apontar Sánchez com 50,8% contra 49,2% de Fujimori em votos válidos, reforçando o cenário de equilíbrio.
O consenso entre analistas e institutos era que a eleição seria decidida por uma margem mínima, com forte peso do chamado voto antifujimorista e do eleitorado rural, tradicionalmente mais difícil de captar nas pesquisas.
No primeiro turno, realizado em abril, Keiko Fujimori havia obtido 17,1% dos votos e Roberto Sánchez 12,0%, mas a maior parte do eleitorado estava distribuída entre diversos candidatos, o que tornou decisivos os apoios e transferências de votos para o segundo turno.
Em resumo, às vésperas da votação deste domingo, o quadro era de empate técnico, com ligeira tendência de crescimento de Roberto Sánchez e nenhuma projeção segura sobre o vencedor.
O peso do antifujimorismo
Analistas apontam que uma das principais forças da candidatura de Sánchez está na capacidade de reunir o chamado voto antifujimorista, fenômeno que já foi decisivo em outras eleições peruanas.
Ao longo das últimas décadas, o fujimorismo consolidou uma base fiel, mas também produziu uma rejeição persistente entre amplos setores da sociedade. Essa rejeição tem sido capaz de unificar correntes políticas distintas sempre que a possibilidade de retorno da família Fujimori ao poder se torna concreta.
Nesse sentido, a eleição de 2026 repete uma dinâmica recorrente da política peruana: mais do que uma disputa entre esquerda e direita, trata-se também de uma escolha entre a preservação ou a superação de um legado político que continua dividindo o país.
Crise permanente e fragilidade democrática
O contexto eleitoral é marcado por uma instabilidade sem precedentes. Desde o fim do governo Ollanta Humala, nenhum presidente eleito conseguiu concluir o mandato. Renúncias, destituições, prisões e confrontos permanentes entre Executivo e Congresso transformaram a crise política em elemento estrutural da vida nacional.
O Parlamento peruano consolidou-se como um dos principais centros de poder do país, frequentemente impondo limites ou mesmo derrubando governos eleitos. A destituição de Pedro Castillo, em 2022, e a sucessão de governos interinos aprofundaram a percepção de esgotamento das instituições políticas.
Para Sánchez, uma eventual vitória significaria governar sob intensa pressão parlamentar e enfrentar uma oposição poderosa. Ainda assim, seus apoiadores enxergam a eleição como uma oportunidade de reconstruir a legitimidade democrática e ampliar a representação dos setores historicamente marginalizados.
Impactos para a América Latina
O resultado da eleição também possui relevância regional. Uma vitória de Keiko Fujimori fortaleceria o bloco conservador latino-americano e ampliaria o alinhamento de Lima com a agenda dos Estados Unidos e dos governos de direita do continente.
Já uma vitória de Roberto Sánchez representaria um freio ao avanço da extrema direita na região e poderia contribuir para recompor espaços de diálogo entre governos progressistas sul-americanos. Ainda que o candidato de esquerda tenha sinalizado pragmatismo na política externa, sua eleição seria interpretada como um importante revés para as forças conservadoras que buscam ampliar sua influência no continente.
Roberto Sánchez: reforma política e inclusão social
O candidato de esquerda procurou se apresentar como herdeiro político do campo popular que levou Pedro Castillo à Presidência em 2021. Entre seus principais eixos estavam:
- Convocação de uma Assembleia Constituinte para substituir a Constituição de 1993, elaborada durante o governo de Alberto Fujimori;
- Ampliação de direitos sociais, especialmente para trabalhadores, camponeses, povos indígenas e setores historicamente excluídos;
- Maior presença do Estado na economia, sobretudo em áreas estratégicas;
- Descentralização do desenvolvimento, com foco nas regiões do interior do país;
- Defesa de políticas voltadas à redução das desigualdades territoriais e sociais.
Sánchez também buscou capitalizar o sentimento de rejeição ao fujimorismo, apresentando sua candidatura como uma oportunidade de encerrar um ciclo político iniciado nos anos 1990.
Keiko Fujimori: estabilidade e mercado
Keiko centrou sua campanha em temas como:
- Estabilidade econômica e institucional;
- Defesa do modelo econômico de mercado implantado após as reformas dos anos 1990;
- Incentivos ao investimento privado e à mineração;
- Combate à criminalidade e fortalecimento da segurança pública;
- Manutenção da atual Constituição, com eventuais ajustes pontuais.
Sua estratégia consistiu em se apresentar como alternativa à instabilidade política que marcou os últimos anos e como garantia de previsibilidade para empresários e investidores.
A disputa sobre a Constituição e a democracia
Talvez a diferença mais profunda entre os dois candidatos estivesse na questão constitucional.
Para Sánchez, a Constituição de 1993 é um dos pilares da crise peruana porque consolidou um modelo político e econômico que concentra poder nas elites e limita a participação popular.
Já Fujimori defende a preservação da Carta atual, argumentando que ela garantiu crescimento econômico e segurança jurídica ao país.
Outro tema central foi a avaliação do legado de Alberto Fujimori. A candidatura de Keiko inevitavelmente reabriu o debate sobre autoritarismo; violações de direitos humanos; esterilizações forçadas de mulheres indígenas; concentração de poder no Executivo; corrupção durante a década de 1990.
Sánchez transformou essa discussão em um dos eixos da campanha, associando sua candidatura à tradição do antifujimorismo, uma força política que continua mobilizando amplos setores da sociedade peruana.
Política externa e pragmatismo
As diferenças também apareceram no cenário regional. Keiko Fujimori tende a aproximar o Peru dos governos conservadores da América Latina e fortalecer o alinhamento com os Estados Unidos.
Roberto Sánchez defende maior autonomia regional e diálogo com governos progressistas, embora analistas avaliem que, caso eleito, adotaria uma postura pragmática devido à fragilidade política de qualquer governo peruano diante do Congresso.
Uma escolha que vai além do Peru
A eleição peruana tornou-se um símbolo das disputas que atravessam a América Latina. De um lado, está o projeto associado ao legado do fujimorismo e às forças conservadoras que ganharam espaço nos últimos anos. De outro, a tentativa de construir uma alternativa capaz de responder à crise social e institucional que marcou a última década.
Em um país exausto pela instabilidade política, a disputa entre Roberto Sánchez e Keiko Fujimori coloca em jogo não apenas a presidência da República, mas também os caminhos da democracia peruana e o futuro equilíbrio político da região.
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