
Da Página do MST
A 23ª Jornada de Agroecologia chegou ao fim neste domingo (21), em Curitiba (PR), consolidando-se mais uma vez como o maior encontro de agroecologia do Paraná e um dos maiores da América Latina. Durante quatro dias de intensa programação, o evento reuniu participantes de 24 estados brasileiros e de seis países: Venezuela, Paraguai, Colômbia, Argentina, França e Guatemala. A programação intensa trouxe debates, formação, atividades culturais, troca de experiências, feira e proposição de alternativas coletivas para superar a crise social e ambiental do presente.
Na Feira da Agrobiodiversidade, a maior do estado do Paraná, foram mais de 150 empreendimentos da agricultura familiar e da economia solidária, que levaram mais de 200 itens, em mais de 2000 variedades, para o público da cidade. “É uma experiência sempre muito rica de trocas humanas, mais uma oportunidade que a gente tem de apresentar, tanto a economia solidária, quanto o que significa o cooperativismo, o associativismo, e o que significa você comer alimentos sem veneno”, avalia Alexandra Peixoto, vice-coordenadora da Associação Utopia – Produtos e Serviços para o Bem Viver, integrante da Rede Mandala de Economia Solidária e integrante da coordenação da Jornada.
Para ela, a Jornada é também um espaço de troca de conhecimento. “A gente aproxima o campo e a cidade, onde a gente consegue não só comprar direto com quem produz e trabalha a terra, mas saber como produz, de que forma produz, sem utilizar veneno, preservando tanto a saúde do solo, do meio ambiente, quanto a nossa própria saúde”, disse.

A realização da Jornada mobilizou uma grande estrutura organizativa, composta por 16 equipes de trabalho e cerca de 450 pessoas envolvidas diretamente na preparação e execução das atividades. A dimensão cultural também marcou a Jornada, com mais de 15 shows e apresentações artísticas que celebraram a diversidade cultural dos povos do campo, das águas, das florestas e das periferias urbanas.
A programação artística reuniu música, batalhas de rima, intervenções e manifestações populares, fortalecendo a cultura como ferramenta de resistência e transformação social. Cerca de 140 artistas passaram pela programação cultural da Jornada, desde crianças a adolescentes integrantes da Orquestra Popular Camponesa, passando por bandas e coletivos regionais, e também o rapper Gog, brasiliense conhecido como poeta do rap nacional.

“Em um momento em que a humanidade passa por uma instabilidade política muito grande, uma crise social, guerras e também a crise climática, a Jornada de Agroecologia serve como uma luz, um horizonte”, avaliou Edson Bagnara, da Direção Estadual do MST no Paraná.
Diversidade, pluralidade, economia e ciência
A programação contou com mais de 30 seminários, oficinas e rodas de conversa, abordando temas como soberania alimentar, Reforma Agrária, mudanças climáticas, educação popular, saúde, juventude, feminismo e direitos dos povos tradicionais. A conferência “Desafios para entender a crise ambiental e construção de um projeto alternativo de sociedade” reuniu João Pedro Stédile, da direção do MST, o teólogo da libertação Leonardo Boff e Camila Girardi Fachin, vice-reitora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Um dos destaques foi o Dia de Campo, no assentamento Contestado, Lapa (PR), que apresentou sete estações temáticas voltadas a novas tecnologias e práticas agroecológicas desenvolvidas em diferentes territórios. A ação também marcou o lançamento da plataforma de Inteligência Artificial na Reforma Agrária e Agroecologia, a IARAA. A iniciativa é coordenada pelo MST e pela Marcha Mundial das Mulheres, e impulsionada pela Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab).

A Jornada também reafirmou seu compromisso com o cuidado coletivo, por meio do atendimento direto à população curitibana. O Espaço de Saúde Popular Luiza Aparecida realizou mais de 500 atendimentos, oferecendo práticas integrativas como auriculoterapia, benzimento, reiki, quick massage, shiatsu, massoterapia e escuta acolhedora. Já a Ciranda Infantil Gralha Azul acolheu 45 crianças, garantindo atividades pedagógicas e lúdicas para filhos e filhas das pessoas que trabalharam na organização e realização do evento.
Outra importante atração da 23ª Jornada de Agroecologia, o Túnel do Tempo trouxe o tema “Registros da Terra: o MST e os biomas brasileiros”. A instalação artística é tradicional na Jornada, e este ano teve a missão de homenagear os seis biomas, além de relacionar a importância deles para a produção de práticas agroecológicas.
O espaço foi organizado em quatro segmentos: fauna, flora, povos originários e agroecologia. Através de textos, demonstrações de plantas típicas de cada região e fotografias, o espaço se firmou como lugar de reflexão e de denúncia sobre o meio ambiente no Brasil. Organizado pela equipe da Escola Latino-americana de Agroecologia (ELAA), o túnel do tempo recebeu visitação durante toda a programação.
Articulação em rede
Ao longo dos quatro dias, a 23ª Jornada de Agroecologia fortaleceu redes de solidariedade, reafirmou a agroecologia como caminho para enfrentar as crises ambiental, social e alimentar. No ato de encerramento, foram partilhadas 10 mil mudas de árvores, além de uma variedade de sementes crioulas. Cada participante da Jornada pode levar pra casa alguma das diversas variedades de milho em semente e em espiga, mais de 20 variedades de feijão, amendoim, fumo de rolo, girassol, flores, rama de batata e de mandioca, além de uma variedade de plantas medicinais. A articulação da partilha ocorreu a partir da Rede Sementes da Agroecologia, a ReSA.
“O que é mais rico disso tudo é a diversidade, a pluralidade, é a gente que está na cidade jamais se esquecer de onde vem o nosso alimento, jamais se esquecer dos guardiões e guardiãs das sementes”, afirma Alexandra.


Fotos: Altvista
A envergadura da Jornada de Agroecologia é possível pela articulação destes movimentos populares, organizações da sociedade civil, universidades, comunidades tradicionais e agricultores e agricultoras de todo o Brasil e de outros países da América Latina. “Não é uma tarefa fácil, exige tempo, dedicação, a gente vai fazer isso no decorrer de uma construção permanente com toda a sociedade”, concluiu Bagnara.
O encerramento desta edição também contou com um ato em solidariedade a Cuba, Palestina e Venezuela. A ação destacou a internacionalização das lutas populares e a defesa da soberania dos povos contra as intervenções de caráter imperialista, em especial praticadas pelos Estados Unidos.
A 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária (ACAP), com o apoio coletivo de muitas instituições, coletivos, movimentos, com destaque para a Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ministério da Saúde. Essa edição é patrocinada pelo Sebrae, Itaipu Binacional, Fundação Banco do Brasil e Governo Federal.
*Editado por Fernanda Alcântara
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