
Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
No ano passado, estudantes de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) encontraram algo raro no Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes (CECAPE), no município de Várzea Grande: atas, circulares, ofícios e relatórios produzidos ao longo da trajetória do MST no Mato Grosso. Para muitos deles, era também a primeira visita a um assentamento de Reforma Agrária.
O que começou como um projeto de extensão virou um trabalho de organização da memória do MST no estado. Durante meses, estudantes, militantes e pesquisadores se reuniram, identificaram e classificaram documentos que registram decisões políticas, atividades de formação, negociações e o cotidiano da organização.
Lucimeire Barreto, técnica arquivista do Arquivo e Memória do MST e uma das coordenadoras do curso, resume a ideia central do projeto. “A história oficial e a grande mídia frequentemente retratam os movimentos sociais sob a ótica do conflito ou da criminalização. Por isso, ter um acervo que narra a nossa história a partir do nosso próprio olhar e da nossa vivência é fundamental para contrapor essa visão distorcida”.
Os documentos revelam um aspecto pouco conhecido do Movimento. Além das ocupações, marchas e mobilizações que costumam aparecer no noticiário, eles mostram o trabalho diário necessário para sustentar uma organização presente em diferentes regiões do país. “São registros feitos pelos próprios militantes no decorrer de suas atividades cotidianas”, explica Lucimeire.
“Ter um acervo organizado, que estrutura a memória e preserva a história, cumpre um papel fundamental e imediato: ter uma fonte real. E organizar um arquivo do MST, em que os trabalhadores fazem história e, ao mesmo tempo, fazem o acervo, faz com que estes sejam sujeitos de ambos os processos: da luta e do acervo”, reconhece Vanderly Scarabeli, doutorando em História no programa de pós-graduação da UFMT e da coordenação estadual do MST no Mato Grosso.
Na visão de Scarabeli, o acervo responde a uma necessidade cada vez mais presente nas universidades, a busca por fontes sobre a questão agrária. Mas sua importância não termina aí. “O acervo é a materialização da identidade histórica dos trabalhadores e trabalhadoras que ajudam a construir esse Movimento”, afirma.
Além de registrar a trajetória do MST, os documentos ajudam a compreender as disputas que marcaram a luta pela Reforma Agrária. Estão ali fotografias, atas, recortes de jornal, correspondências e registros de negociações que mostram a atuação dos diferentes setores envolvidos nesse processo.
Se a preservação desse patrimônio também tem um papel importante na formação política, os documentos garantem o direito à memória e ajudam a demonstrar que a luta camponesa tem história, raízes e continuidade, e os registros organizados pelo acervo já vêm sendo utilizados em atividades de formação de militantes, estudantes e pesquisadores.
“Me vi muito ali, naquilo que estava sendo relatado pela história”, conta Scarabeli, que defende que o trabalho também levou integrantes do próprio Movimento a reencontrarem parte da trajetória que ajudaram a construir.
Parceria

Para o projeto, Universidade e Movimento construíram juntos esse processo. A aproximação foi construída pelo professor Eduardo Afonso, do Departamento de História da UFMT, que já desenvolvia atividades junto a assentamentos e acampamentos de Reforma Agrária. Segundo ele, desde o início houve a preocupação de realizar o trabalho em diálogo com o Movimento. “O objetivo era garantir uma organização que fosse útil tanto para a pesquisa acadêmica quanto para o dia a dia do MST”, explica.
Já na opinião dos estudantes envolvidos, a experiência mudou a forma de olhar para a Reforma Agrária. Rafael Fortes, coordenador discente do projeto, conta que o contato direto com os documentos permitiu compreender aspectos da organização do Movimento que dificilmente aparecem no debate público.
Mais do que mudar posições políticas específicas, a organização do acervo do MST em MT estimulou uma análise crítica fundamentada nas fontes e na pesquisa histórica, fundamental para nós estudantes de história e futuros professores/historiadores”.
Rafael Fortes
O intercâmbio também aconteceu fora das caixas de arquivo. Durante as etapas de trabalho no CECAPE, estudantes da universidade conviveram com jovens Sem Terra de diferentes regiões do país, que participavam de cursos de formação. O resultado desta experiência aproximou trajetórias distintas e mostrou, na prática, como a produção de conhecimento pode ser construída entre Universidade e movimentos populares.
Fortes destaca ainda que, quando os documentos são organizados e preservados, passam a circular com mais facilidade e podem ser utilizados por militantes, educadores, pesquisadores e estudantes. “Entendo também que, a interação entre Universidade e movimento social favorece a circulação do conhecimento, permitindo que a memória produzida pelo campesinato seja preservada e utilizada pelas próprias comunidades em suas estratégias de organização e divulgação de sua trajetória histórica.”


Por isso, é fundamental que a experiência seja divulgada e compartilhada com outras iniciativas semelhantes existentes no Movimento, defende Scarabeli . “É preciso divulgar, podem ser feitos muitos materiais informativos, apresentando essa experiência, que me parece ocorrer também em outros espaços do Movimento. Por aqui no Mato Grosso vamos buscar viabilizar essas fontes no sentido de dar mais consistência e qualidade a esse acervo tão importante”.
Um dos principais resultados do projeto é permitir que a história do MST seja pesquisada a partir da documentação produzida pelos próprios Sem Terra. Durante décadas, grande parte dos estudos sobre a luta pela terra recorreu principalmente a reportagens, documentos policiais e processos judiciais. Eduardo Afonso entende que o acervo amplia esse conjunto de fontes ao reunir atas, correspondências, fotografias, relatórios e outros registros produzidos pelo Movimento ao longo de sua trajetória.
Ter acesso à história da luta pela terra pela documentação produzida pelos próprios Sem Terra tem potencial de mudar a história que podemos escrever sobre o Movimento”,
Eduardo Afonso
Ao longo da história, trabalhadores do campo tiveram mais dificuldade para conservar seus arquivos devido à precariedade das condições materiais, aos deslocamentos e à violência sofrida por comunidades e organizações populares. Preservar esse patrimônio documental é uma forma de registrar que a luta pela Reforma Agrária tem história, continuidade e raízes profundas, segundo Lucimeire.
A dimensão pedagógica do acervo não se restringe à formação de militantes, e a participação estudantil contribui para “transformar o acervo em um instrumento mais acessível de comunicação e formação”, segundo Fortes. Já Barreto faz uma conexão direta entre esse potencial pedagógico e a disputa da narrativa mais ampla. Ao colocar o acervo nessa lista — ao lado da educação do campo, da cultura e da produção de alimentos —, a arquivista posiciona a memória documental como parte do projeto civilizatório do Movimento. Não é apenas memória do passado: é argumento para o presente e projeto para o futuro.

Há uma pedagogia implícita na própria organização do arquivo que vale destacar. Ao classificar, descrever e preservar documentos produzidos por militantes anônimos — pessoas que raramente figuram nos livros de história — o projeto afirma que esses sujeitos são historicamente relevantes. Que a ata de uma reunião de base tem o mesmo peso documental que um decreto governamental. Que a circular que convocou uma ocupação de terra é tão história quanto o relatório policial que a descreveu como “invasão”. Essa inversão de hierarquia documental é, ela mesma, um ato pedagógico.
Esse patrimônio serve de inspiração para o futuro, pois olhar para a trajetória do Movimento renova a identidade coletiva e o sentimento de pertencimento de cada trabalhador, mostrando que a nossa resistência continua viva.”
Lucimeire Barreto
Eduardo Afonso observa que o MST historicamente valorizou a formação política e a memória coletiva, mas nem sempre conseguiu preservar de forma sistemática os documentos produzidos ao longo da luta. Mais do que organizar documentos, o projeto reúne memórias, trajetórias e experiências construídas ao longo de décadas de luta pela terra no MT. Neste sentido, Barreto destaca que revisitar essa história fortalece o sentimento de pertencimento e ajuda a manter viva a memória coletiva do Movimento.
A parceria entre Universidade e movimento social amplia a circulação do conhecimento e contribui para que os documentos retornem às próprias comunidades que os produziram, na visão do estudante Rafael Forte. Scarabeli também defende a mesma posição, afirmando que o próximo desafio é ampliar e qualificar o acervo. “Aqui no Mato Grosso vamos buscar viabilizar essas fontes no sentido de dar mais consistência e qualidade a esse acervo tão importante”, diz.
Segundo Eduardo Afonso, o projeto demonstrou o potencial da colaboração entre Universidade e movimentos populares. “[O projeto] tem um potencial enorme de estudo, de pesquisa sobre história da luta pela terra. Isso tem um potencial de mudar a história que podemos escrever sobre o Sem Terra e a relação que o MST tem com sua memória”.
A organização do acervo reuniu necessidades concretas do MST e conhecimentos técnicos produzidos na universidade em torno de um objetivo comum: preservar uma parte importante da história da luta pela terra no Brasil.
*Editado por Solange Engelmann
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