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Doenças e dívidas crônicas: o duplo veneno 

Foto: Brunno Covello/SMCS

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                      “Pago R$350 pelo dia de trabalho da minha faxineira, valor transferido para a conta dela de maneira digital. Como ela tem problemas de saúde, contratou um desses planos geridos por empresas que não entendem nada de saúde, são um grupo financeiro que oferece mensalidade que cabe no bolso. Então descubro que entre os sócios deste grupo está a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, que administra trilhões de dólares.”

                                                                                                  Ladislau Dowbor, em entrevista à Folha de SP, 2 de fevereiro de 2026

                  “Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A minha filha Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a dona Alice. Ela me deu a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual, a fome!”

                                                                                     Maria Carolina de Jesus, em Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada

Devo, não nego… pago quando puder. O ditado popular é categórico: mesmo que reconheçamos nossas dívidas, quitá-las é uma ação que geralmente empurramos para um futuro indeterminado. Acredito que boa parte das pessoas que procede dessa maneira realmente não tem condições de pagar o que anda devendo na praça. Mas, atenção, há quem seja bilionário, tenha uma respeitável (ou seria desrespeitosa?) coleção de dívidas e, por saber muito bem como funciona o sistema financeiro, simplesmente vai rolando. Ou melhor, nos enrolando, já que certamente o credor de uma gorda fatia desse rocambole é o Estado. 

Na sociedade ultrafinancista em que vivemos, há quem seja miserável porque se endividou para comprar o básico — e caiu nas garras do sistema bancário vampiresco. E há quem seja riquíssimo justamente porque sabe como escapar de impostos e outras mordidas em suas negociatas, surfando com sua própria inadimplência. Aliás, os dois extremos só existem em conjunto, combinando-se em um processo de transferência unilateral de recursos, com modestas concessões intermediadas pelo poder público, como é o caso do Bolsa Família. Mas o que é receber uma bolsa de 600 reais mensais frente à opulência do que chamamos de bolsa banqueiro?

Uma rápida olhada na lista das principais pessoas jurídicas devedoras do município de São Paulo de 2026 escancara esse abuso financeiro. Em primeiríssimo lugar, encontramos o Grupo Itaú, cuja dívida é de cerca de modestos 20 bilhões de reais. Sim, é a mesma empresa bancária que, em 2025, teve seu “guidance” (metas corporativas) totalmente cumprido e conquistou um recorde histórico quanto ao seu lucro, faturando 46,8 bilhões de reais… e que, não satisfeita, ainda planeja bater novo recorde em 2026, de 51 bi! Mas ela não é a única do setor; outros bancos, como o Bradesco, também podem ser vistos em posições posteriores. 

Se falarmos em termos estaduais, bisbilhotar a lista das empresas que devem ao estado de São Paulo, centro financeiro do país, nos permite encontrar gigantes do varejo, como o Grupo Pão de Açúcar — controlador da rede de supermercados com o dito nome e das redes Extra e Mini Extra. Ele ocupa o segundo lugar e deve quase 4 bilhões de reais. E também vemos gigantes das telecomunicações, como a Tim Celular (que detém 23% do mercado brasileiro de telefonia móvel), ocupando o terceiro lugar e devendo também pouco menos de 4 bilhões.

Já uma espiada na lista das maiores devedoras à previdência social, nos revela que o segundo lugar é ocupado por ninguém menos que a dinossaura do setor da carne JBS S/A, devedora de 1,8 bilhões de reais. E que, pouco mais abaixo, encontramos outra frigorífica de dentes afiados que atende pelo nome de Marfrig e ocupa a sétima posição, com uma dívida de 800 milhões de reais. Não custa lembrar que temos mais bois do que pessoas no Brasil — e que a pecuária está diretamente relacionada ao desmatamento e às emissões de gases de efeito estufa, o que exige gastos volumosos por parte do governo e afeta a vida de todos os seres vivos. 

Mas, como eu já havia mencionado, esses endividamentos não costumam ser obra do acaso. Segundo Dão Real Pereira dos Santos, presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco Nacional), em depoimento ao Brasil de Fato, “Muitas vezes, a sonegação é usada de forma ostensiva para praticar concorrência desleal e até predatória, aquela que visa eliminar a concorrência, não apenas vender mais. Desse modo, a sonegação pode ser utilizada com o propósito de constituir monopólios territoriais. Ao atingir determinado nível de monopólio, a empresa passa a determinar os preços dos produtos, ampliando sua margem de lucro”. 

Traduzindo: ao turbinar suas dívidas com o Estado, essas empresas podem fazer com que a população tenha que pagar mais pelo que compra, um efeito que amplia o endividamento das famílias. Redes varejistas de comida já oferecem seus próprios cartões de crédito e parcelam a compra do mês em “suaves” prestações, fazendo com que o abastecimento básico da despensa de hoje signifique, muitas vezes, ficar em débito em relação ao de amanhã. 

Nestes tempos de vida digitalizada, não é raro ver gente deixar de comprar comida para pagar a conta do telefone (o Instituto Pólis já mostrou como isso está ocorrendo para pagar a conta de energia). Afinal, experimente ficar devendo à Tim para ver se ela é tão benevolente com você quanto o poder público é com ela. Essa “escolha” não é surpreendente porque, sem um celular funcionando, não se consegue nem mais ser considerado/a cidadão/ã, tamanha a dependência dele para acessar serviços básicos. E, se o pagamento da conta já é indigesto, a relação com o aparelho ainda tem outros elementos que valem uma reflexão.

Overdose publicitária 

O fato é que praticamente todo mundo tem uma traquitana chamada celular como “parte do corpo”. Ininterruptamente, ele extrai informações sobre cada pessoa usuária e despeja uma carga profundamente desestabilizadora e sedutora sobre ela. Este é um dos elementos-chave para compreender o atual mecanismo de endividamento das famílias. Hoje, você mal acorda e já entra em uma plataforma, como WhatsApp ou Instagram, para “se sentir no mundo”. E muita gente leva o celular para a cama e fica navegando nas redes até dormir.

Um dado que me chocou se refere à Shopee, um marketplace internacional (plataforma que conecta vendedores e consumidores) extremamente popular. Cerca de 80 milhões de brasileiros/as têm cadastro para usar seus serviços, e ela foi responsável por 54% das vendas via e-commerce. Um levantamento que mapeou esse tipo de comércio ao longo de 2025, revelou que pessoas usuárias dessas plataformas compraram em média 18 vezes (!) ao ano, com média de R$141 por pedido. Haja cartão de crédito! Não é à toa que o famoso “imposto das blusinhas”, recém revogado, gerou tanta impopularidade ao governo federal. Pagar tributos sobre os cacarecos adquiridos massivamente nesses sites acabaria pesando no bolso. A revogação em um ano eleitoral era esperada, mas significa mais estímulo para esse tipo de gasto familiar e menos incentivo à indústria nacional, algo que piora a oferta de trabalho. 

Resistir ao feitiço de ficar colado/a ao aparelho, bem como aos inúmeros outros feitiços que ele propaga com sua programação publicitária individualizada, é praticamente um milagre. Além de anúncios explícitos que, de tão ostensivos, chegam a impedir a leitura de um texto inteiro com sua pipocação disparatada nas telas, há uma série de inserções publicitárias menos declaradas. De “novelinhas de frutas” ao uso de influencers, empresas de produtos de vários tipos, sobretudo dos menos aconselháveis, veiculam conteúdos marqueteiros ao seu público-alvo. No artigo Entre a Fomo e a fome: as big techs vão nos devorar?, descrevo como esse assédio começa na infância, fase mais vulnerável do ponto de vista psicoemocional. 

O fato é que vivemos em um sufocante ciclo vicioso, do qual fazem parte as big techs, as big foods, as big pharma e as big money. As primeiras invadem nossa vida com conteúdos que estimulam desequilíbrios psicoemocionais (como ansiedade e esgotamento) e com publicidade altamente personalizada pelos algoritmos. É um duplo estímulo ao consumo por impulso, aquele que vem como válvula de escape emocional e ilusão de pertencimento por meio do acesso ao produto ou serviço que o sistema de navegação sabe que se deseja, pois agiu para construir esse desejo. 

Recentemente, gigantes high tech foram condenadas nos EUA por criarem, conscientemente, plataformas consideradas viciantes para o público infanto-juvenil. Seus executivos sabem que, quanto mais tempo passamos online, mais peças publicitárias iremos ver, o que representa maior possibilidade de faturamento, através da venda de espaço publicitário. E, quanto maior a exposição à propaganda, maior o estímulo à aquisição de produtos, mesmo que seja necessário recorrer ao endividamento. 

Voltando ao sistema de transferência de riquezas anteriormente apontado, podemos voltar a espiar a lista de pessoas jurídicas que devem ao município paulistano. No segundo lugar do ranking repousa nada menos do que uma dessas plataformas tecnológicas ultrapoderosas, o Facebook Brasil, devendo 3,8 bilhões de reais. Seu fundador, Mark Zuckerberg, é uma das cinco pessoas mais ricas do mundo, tendo um patrimônio de mais de R$ 1 trilhão. Parece muito? Vamos aos dados de valor de mercado da controladora do Facebook, a Meta (que também controla o Instagram e o WhatsApp): cerca de 1 trilhão e meio de… dólares! 

Uma empresa estadunidense que vale mais de 7 trilhões de reais deve alguns “míseros” bilhões de reais para um município latino-americano e não tem a menor pressa para quitar essa dívida, seguindo numa boa na região com suas atividades pra lá de lucrativas. Já as populações dos países vampirizados por sanguessugas como ela enfrentam o terror de ficar com o nome sujo na praça, muitas vezes, por não conseguirem pagar o que ficaram devendo ao adquirirem os produtos anunciados em suas redes. Mas, sim, há dívidas por aquisições ainda mais essenciais, como os ítens da cesta básica. E é aqui que as big money entram em campo.

Juros sobre juros sobre juros

A notícia é desagradável para o governo federal: em pleno ano de eleições majoritárias, a inadimplência das famílias atingiu a estratosfera. O fato ajuda a explicar porque, em um eventual segundo turno entre Lula e o filho Zero 1 de Jair Bolsonaro, as pesquisas registram empate técnico. Mesmo com o desastre da gestão do miliciano golpista, que nos legou 700 mil mortes na pandemia de Covid e uma perda de 3,4 anos de vida com sua postura negacionista, e está metido até o último fio de cabelo em escândalos de corrupção, ainda temos quase metade de votantes do país se recusando a votar no atual presidente “comunista”. A revelação da bomba do BolsoMaster, mostrando a “irmandade” entre Flávio e Vorcaro (banqueiro que levou ao extremo o abuso costumeiro do dinheiro público no setor), já deveria, sozinha, ter implodido a candidatura bolsonarista. 

Mas, enquanto o governo se vira para tentar desenrolar momentaneamente as finanças do povão, lançando a segunda edição do Desenrola (programa direcionado a limpar HOJE o nome de pessoas inadimplentes, para que possam se endividar novamente AMANHÃ), há quem passe muito bem, sim senhor/a. Se o endividamento da população bate nos 49,9% (praticamente metade da renda anual das famílias e um recorde na série histórica) e acende um alerta desagradável à atual gestão do país (sobretudo porque as dívidas não são para a aquisição de patrimônio), quem comanda o sistema financeiro acha agradabilíssimo o recebimento dos juros decorrentes dessa sangria infindável. Afinal, como a crise de 2008 explicitou, há sempre o dinheiro público para socorrer as big money, caso tomem calote.

A cadeia de financiamento do consumo é formada por muitos tentáculos. Sem dúvida, os grandes bancos, fintechs e empresas de cartão de crédito abocanham parte considerável desse banquete. As taxas de juros pagas pela população brasileira estão entre as mais acachapantes do planeta: 428% no cartão de crédito rotativo (dados de março). Segundo a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), o faturamento do setor foi de mais de 3 trilhões de reais em 2025, alta de quase 15% em relação à 2024. A constatação de que há mais cartões do que pessoas no país explicita o nível altíssimo de dependência deles na sustentação do nosso sistema de produção e consumo.  

E, nesse mar de contas vencidas, nada mais corriqueiro do que fazer empréstimos para pagar empréstimos inadiáveis, já que ir parar no Serasa significa perder o acesso a bens, serviços e até a certos programas governamentais. Se os juros são pornográficos e tudo vai virando uma bola de neve aterrorizante, paciência… algum deus ou alguma deusa há de ajudar. Ironias à parte, talvez a fé ainda seja um dos elementos que impedem que muita gente desista da luta pela sobrevivência, e também algo que evite que banqueiros e demais vampiros sejam queimados em fogueiras públicas. E a teologia da prosperidade está aí, com suas igrejas multiplicando-se nos mais diversos territórios e ensinando que cada pessoa merece a riqueza que puder acumular… ou a pobreza que a botar na lona, ao não reunir as qualidades “cristãs” adequadas ao abençoado enriquecimento.

Mesmo com o apoio dessa crença em entidades divinas que promovem justiça e zelam por quem as louva, não há saúde que resista à pressão à qual as pessoas inadimplentes (as que fazem parte da rapa, é claro) estão sendo expostas. CEOs estressados podem até ter burnout e dar um tempo em clínicas de desestresse — cuja diária é mais cara do que o que eu ou você ganhamos em meses de trabalho duro. Mas quem deve pouco (ou praticamente nada, para os padrões dessa elite) é que sente o que é não conseguir dormir em suas camas duras, depois de labutar o dia inteiro no trabalho e nas tarefas domésticas, e não ver perspectiva de pagar em dia as contas mais básicas. 

E tamanho desequilíbrio psicoemocional, agravado por condições clínicas já problemáticas, decorrentes da má alimentação, do contato com poluentes e da falta de acompanhamento médico, vai jogar essas pessoas diretamente no colo das big pharma. Em 2025, apenas o faturamento das 20 maiores empresas farmacêuticas do mundo, localizadas no norte global (com exceção da última do ranking), foi de quase 1 trilhão de dólares. No longo prazo é possível perceber o crescimento contínuo desse volume, como mostra um estudo feito pelo IPEA em 2024. Ele destaca a oligopolização do setor e o aumento intenso das importações brasileiras a partir dos anos 90. 

Batendo ponto na farmácia 

Seja um medicamento para depressão ou ansiedade, seja para agir no sistema cardiovascular ou no sistema digestivo, o que pesa no bolso do povo em relação aos produtos adquiridos no dia a dia são os de uso contínuo. Isso significa que, por não curarem, mas apenas controlarem o problema, será necessário comprá-los mês sim e mês também, deixando uma parte do que se ganha na conta das empresas ligadas ao campo farmacêutico. Fabricantes, como as estrangeiras que fazem parte do ranking de faturamento acima mencionado, e distribuidoras, como as redes de drogarias, contam com esse consumo fiel para manterem seus níveis de lucratividade bem saudáveis.

Conforme a população envelhece e a qualidade de vida é atacada por ambientes mais e mais agressivos em termos químicos, climáticos, trabalhistas e políticos, mais doente ela fica e mais o rendimento da família fica comprometido com o gasto com o chamado mercado da saúde — que na real está mais para o mercado da doença. E aqui não entram apenas os remédios, mas também os suplementos e os produtos de uso diário, inclusive geriátricos, como fraldas. Planos de saúde de todos os preços (e qualidades) são oferecidos em anúncios veiculados aos quatro ventos, e a quantidade de reclamações que geram demonstra o nível de estresse que geram para quem se associa a eles. 

O estudo Mercado Prateado: consumo dos brasileiros 50+ estima que, em 2044, as pessoas com mais de cinco décadas de estrada sejam 40% no Brasil, respondendo por 50% do que se consome no setor, valor correspondente a R$559 bilhões (de um total de R$ 1,1 trilhão/ano, considerando a população como um todo).  Nessa fase da vida, cerca de 14% da renda fica comprometida; subindo para 21% após os 80 anos. Segundo um depoimento dado à Agência Pública por uma das coordenadoras da pesquisa, Lívia Hollerbach, “a saúde realmente vai tomar grande parte do bolso do brasileiro”. Mesmo que uma parte disso tudo seja fornecida pelo sistema público, nosso velho SUS, o dinheiro para arcar com a manutenção desse ciclo — que parece inescapável aos simples mortais — vai sair da nossa conta, via compras governamentais. 

Outro aspecto é que estamos observando o aumento do número de pessoas afastadas do trabalho por problemas de saúde clínicos ou psíquicos. Em 2025, esse número foi de mais de 4 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, um recorde em relação aos últimos anos. E não é o único recorde lamentável que vemos, já que, dentro desse volume, os índices de afastamento por problemas de saúde mental também dispararam, atingindo cerca de 550 mil casos, no mesmo período. As mudanças trabalhistas ocorridas nas últimas décadas, com a perda de direitos, a precarização/uberização e a entrada da IA Generativa no mercado, sem dúvida engrossaram o caldo que compõe esse quadro dramático. 

Além de precisarem ser sustentadas pelo Estado e não exercerem as funções para as quais haviam se comprometido, o que tende a sobrecarregar colegas de trabalho, elas ainda vão demandar cuidados médicos, gerando custos hospitalares e farmacêuticos. Daria para falarmos mais sobre o cenário, ao olharmos para os motoboys que, escravizados pelas plataformas de entrega, se espatifam nas ruas a todo momento, tentando ganhar o ultraprocessado de cada dia. Mas já abordei em profundidade a questão no artigo A alimentação precária dos que entregam a comida, há alguns anos e, infelizmente, ele segue bem atual.

Mais gastos com remédios que não curam equivalem a menos recursos financeiros para alimentação, moradia, lazer… tudo o que poderia promover maior qualidade de vida e, portanto, mais saúde e menos doenças. Desse modo, o endividamento, tanto familiar quanto público, cresce de mãos dadas com o aumento do adoecimento, em um processo retroalimentador. É uma dupla cronificação, extremamente lucrativa para as Big Money e as Big Pharma. E ela ainda acaba favorecendo um outro setor multibilionário: o da jogatina.

Liberado no governo Temer, o mercado de apostas encontrou um terreno fértil na onipresença digital. Com sua propriedade típica de turbinar o desejo de se alcançar status de modo instantâneo, as redes sociais adubaram o solo para a entrada avassaladora das bets na vida da população. Estas, ocupando espaços em todos os rincões do universo virtual, já remexem, por mês, em 20 bilhões dos suados reais de integrantes da população brasileira, segundo o Ministério da Saúde, trazendo alegria para seus magnatas e para quem surfa em sua onda, como plataformas e influenciadores/as. Que o diga Neymar(keting), pois, imediatamente após ter sua participação confirmada na copa (algo que ocorreu para atender os interesses publicitários da CBF e do mundo empresarial), já correu para fazer um post muito bem in$erido no calor do momento, divulgando as maledetas. 

As bets extraem o couro de quem cai em suas garras e devem ser consideradas uma questão de saúde pública, como o Brasil está propondo junto à OMS, equiparando-as à indústria tabagista. Elas têm um papel fundamental no aumento das dívidas familiares no país, atuando como um catalisador. O desespero de não ter como pagar as próprias contas e a frustração por não ter a vida suculenta, como a que gente famosa no Instagram dá a ideia de ter, empurra as pessoas para as apostas nesses caça-níqueis internéticos, que, como propõe o Projeto de Lei 1808/2026, de autoria do deputado federal Pedro Uszai (PT/SC), deveriam ser proibidos.

Uma vez fisgadas, a chance de as pessoas se viciarem é alta, já que o mecanismo que permite ganhos iniciais ilude e estimula a permanência no jogo. Até que perder passa a ser a rotina e os valores negativos vão se multiplicando. Vale mencionar que o principal motivo para solicitar a autoexclusão dessas plataformas, através da ferramenta criada pelo Ministério da Fazenda, é justamente a “perda de controle sobre o jogo/ saúde mental”.  

Big foods em cena

Ansiedade, frustração, falta de grana, falta de tempo… tudo isso junto e misturado joga as pessoas no colo da indústria alimentícia. Salgadinhos, salsichas, chocolates (sem cacau!), biscoitos e refrigerantes passam a ser companheiros na rotina alimentar. Os valores acessíveis, a praticidade e a onipresença no ambiente favorecem seu consumo. Além disso, são elaborados com doses calculadas e generosas de açúcar, gordura, sal e aditivos, viciando cérebro e paladar. Dão uma bombada no humor, ativando neurotransmissores que geram prazer, como a dopamina, sem jamais saciar as necessidades nutricionais de quem os devora. 

O modelo agroalimentar baseado em monoculturas de commodities, como soja, milho e cana de açúcar, fornece a matéria-prima para que a cadeia da industrialização do que é comestível produza uma falsa variedade de opções no mercado. Corantes, aromatizantes, espessantes e outros “antes” criados em laboratórios altamente tecnológicos são combinados para serem incorporados a essa base, de forma a gerar produtos irresistíveis. É um processo extremamente lucrativo para as chamadas big foods, as gigantes que produzem e comercializam essa desgraceira sedutora. 

Estudos científicos demonstram que o consumo de ultraprocessados traz danos físicos, emocionais e cognitivos. Ele acelera o desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis, as DCNTs, como diabetes, hipertensão e esteatose hepática. E está umbilicalmente conectado à epidemia de obesidade, considerada, a partir de 2023, o principal fator de risco no Brasil, segundo levantamento recém-divulgado na Revista Lancet. Os gastos familiares e governamentais para tratar os sintomas apresentados e lidar com as consequências dessa situação são infindáveis. Ponto para as big pharma, que maximizam seus lucros ao produzir e vender os remédios para essa massa de pessoas adoecidas e mal nutridas. 

Não por coincidência, os medicamentos que turbinaram o rendimento de algumas das 20 maiores farmacêuticas (que fazem parte da lista que foi citada anteriormente) foram as tais canetas emagrecedoras, desenvolvidas inicialmente para o tratamento de diabetes. Elas têm alto custo e, ao tirar um peso considerável do corpo de quem as utiliza, jogam um peso imenso na vida financeira, inclusive coletiva, já que passaram a ser custeadas pelo poder público em algumas localidades. Mesmo com o vencimento da patente de uma das mais usadas delas no Brasil, a expectativa é que os valores não se reduzam tanto, dadas as despesas de produção. 

E, vale lembrar, há efeitos colaterais que podem exigir outros remédios ou procedimentos — sobretudo porque o mercado clandestino está na ativa, promovendo alterações na composição e falta de cuidados no armazenamento. Mesmo usando um produto legalizado e sob orientação médica, é preciso considerar que, caso se interrompa o uso, o emagrecimento não apenas cessa, mas é possível que os quilos perdidos deem novamente o ar da graça, o que é conhecido como efeito sanfona ou rebote, e faz bastante mal ao organismo. Portanto, trata-se de um paliativo, já que as raízes sociais da obesidade não são atingidas. Só que as Big Foods não perdem tempo e, ao ver suas vendas de guloseimas caírem junto a esse público caneteiro, já desenvolvem produtos específicos para atraí-lo e abrir novas frentes de lucro. 

Mas não é apenas a saúde de cada ser humano exposto a essa realidade que precisa ser observada. Em meio a esse ataque às pessoas, feito em conjunto por parte das big bigs (tech, food, money e pharma), a natureza é bombardeada incessantemente. Água, terra, minérios, seres vivos… tudo é explorado para engordar contas bancárias de uma elite que se julga dona de todos os reinos. Contaminação, perda da biodiversidade, esterilização dos solos e mudanças climáticas revelam o profundo adoecimento que esse sistema insustentável causa em nossa Pachamama.

Dívidas em dúvida 

O que temos que nos perguntar é: quem está em dívida com quem nessa trama de relações assimétricas? Será que é a maior parte da nossa população, financeiramente vulnerabilizada devido à exploração de seus corpos, suas emoções e suas energias durante séculos, que está devendo a uma minoria de indivíduos que voam em jatinhos e navegam em iates? Famílias que enriqueceram a partir da escravização seguem concentrando o poder no país — com seus integrantes bem instalados no executivo e no legislativo, atuando para manter e até ampliar os próprios privilégios. E, segundo relatório feito pelo INESC, gastamos cinco vezes mais com o pagamento de juros da “dívida pública” (que jamais foi auditada) do que com investimentos feitos pelo Estado em 2025. Trata-se de uma verdadeira drenagem da grana do povo para bolsos já muitíssimo recheados. 

Existe uma dívida histórica que as classes mais ricas precisam assumir em relação aos povos que elas usaram, abusaram e massacraram para erguer suas mansões blindadas. Indígenas, afrodescendentes e imigrantes expulsos de seus países por conflitos políticos ou desestruturação econômica têm direito a cobrar parte dessa conta, já que ela jamais será completamente paga. Afinal, o sofrimento vivenciado por gerações não pode mais ser anulado. Mas há que se lutar por justiça e botar um limite na ganância de quem é viciado em multiplicar os próprios bilhões. Impostos substanciosos sobre suas transações é o mínimo que devemos exigir. 

E o que dizer da dívida que essa elite tem com o planeta? A cada ano, o Dia da Sobrecarga da Terra chega mais cedo. Desde quando começou a ser monitorado, na década de 1970, ele vem ocorrendo em meses cada vez mais distantes do final do ano. Em 2025, a data foi 24 de julho. Isso quer dizer que neste dia a humanidade já consumiu tudo o que poderia na natureza, sem comprometer a capacidade desta de repor o que foi extraído dela. Todos os demais dias do ano foram vividos a partir de “empréstimos” tomados junto às próximas gerações de seres vivos (não apenas os humanos). Em bom brasileiro: devemos até as calças, pois o que temos nos bolsos não dá nem para começar a quitar essa dívida.

Só que a palavra não é bem “devemos”… Se olharmos os níveis de consumo no planeta, há países que sugam muito mais do que os demais. E, dentro desses países, há setores específicos da população que drenam quantidades exorbitantes de matéria e energia. O mais vampiresco deles é, sem dúvida, o dos bilionários. Atualmente, segundo a pesquisa World’s Billionaires da Forbes, são 3428 indivíduos no mundo — mais um famigerado recorde para nossa coleção, pois o número aumentou em mais de 400 integrantes em relação à 2024. Juntos, eles detêm uma fortuna de mais de 20 trilhões de dólares. E o absurdo segue… 

Para dar uma ideia do nível de desigualdade econômica que nos assola, um levantamento divulgado pelo World Inequality Report revela que 0,001% mais rico possui o equivalente ao que é detido por mais da metade da população planetária. E, se expandirmos um pouco e olharmos para o 1% mais rico, constatamos que esse pessoal tem mais riqueza do que o restante (99%!) da tal humanidade. Como nos mostra uma análise feita pela Oxfam, se essa turma dependesse só de suas “cotas da natureza” para viver, ela já teria esgotado no dia 10 de janeiro o que pode dispôr no ano inteiro — e passaria o resto dele em dívida. 

Já mencionamos aqui a Meta, empresa do trilionário (em reais) Mark Zuckerberg, com sua dívida bilionária no Brasil. Big techs como a que ele controla vão pressionar cada vez mais nosso consumo de água e energia, com seus data centers se espalhando no território. Também já citamos bancos, redes varejistas e frigoríficos (todos com CEOs que têm salários nas estrelas), como devedores ao Estado. Mas vale acrescentar um outro sugador de dinheiro público: o agronegócio. Ao contrário do que se diz na propaganda, é ele que é carregado nas costas pelo povo brasileiro. As dívidas do setor chegam a quase 900 bilhões de reais e cada vez fica mais evidente que seu modelo produtivo é insustentável sob todos os pontos de vista. O Projeto de Lei 5.122/2023 ainda tenta desviar os recursos do Fundo Social do Pré-Sal (destinados à educação, saúde e meio ambiente) para financiar produtores rurais afetados pelos problemas climáticos que, em boa parte, ocorrem devido à própria irresponsabilidade deles.

Isenções tributárias para agrotóxicos somam 22 bilhões de reais ao ano. O que se deixa de arrecadar devido à Lei Kandir (que isenta exportações de commodities, incluindo minérios) ultrapassou os 900 bilhões de reais somente entre 1999 e 2018 (valor atualizado em 2024). Também é preciso considerar os danos financeiros decorrentes da destruição ambiental em que o Agro está envolvido. Só as perdas florestais no país estão batendo nos 400 bilhões de reais, considerando seus efeitos climáticos. E, para cada real gasto com venenos agrícolas, a estimativa é de um gasto de R$1,28 com as intoxicações agudas que eles desencadeiam na população. Ainda daria para sapecar aqui muitos outros cálculos que demonstram como muitos furos nos bolsos governamentais são feitos pelo grupelho ruralista, sob o comando de suas amigas corporativas transnacionais. Mas vamos adiante…

Pulsar em ritmo ancestral

O atual modelo produtivo está destruindo as florestas e demais ecossistemas em que animais, plantas e fungos com poderes curativos vivem. Muitos são conhecidos há gerações e gerações pelos povos tradicionais. Outros nem chegaram a ser experimentados e podem se extinguir sem que ninguém saiba quais são seus poderes. E não estamos falando somente sobre efeitos diretos  no organismo humano. Estamos falando de efeitos sobre toda a teia vital planetária. A ideia de separar nossa saúde da saúde da natureza não pára em pé nem com mil escoras. 

Há um longo movimento de resistência à tratoragem feita pelos donos da grana sobre nossos solos físicos e emocionais. Há cinco séculos, os povos originários têm insistido em manter formas menos eco-suicidas de viver. Outros povos tradicionais, como os quilombolas, também nos mostram maneiras não agressivas de lidar com os territórios em que se vive. É inegável que esse ato de resistir vem sendo transformado em uma postura menos defensiva e mais propositiva nas últimas décadas. Basta ver o protagonismo político de indígenas e afrodescendentes nas articulações sociais que buscam caminhos para sair desse adoecimento crônico em que nossos corpos, mentes e bolsos se encontram. 

Entre os povos campesinos e as organizações de ativismo relativo às questões de gênero também há boas novas. Uma parceria entre o MST e a Marcha das Mulheres acaba de lançar uma iniciativa que pode inspirar esse percurso de libertação popular em relação às grandes corporações. A IARAA – Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia — foi desenvolvida sem a dependência das gigantes high tech. Ela traz informações e serviços que estão em sintonia com o modo agroecológico de se relacionar com a natureza e em sociedade. Não transforma quem a usa em cobaia e mercadoria na mão das big techs. E, se for usada com consciência (sem reduzir ou mesmo substituir a construção conjunta do conhecimento campesino), pode estimular a regeneração da natureza e a produção de comida de verdade, aquela que gera saúde e não doença. 

Além disso, contribui para fortalecer quem luta pela Reforma Agrária, processo essencial para mexer na estrutura que gera o endividamento das famílias. Democratizar o acesso à terra (e ao conhecimento para cuidar dela) é um passo insubstituível para reduzir a exploração do sistema financeiro sobre as pessoas. Mais renda para a Agricultura Familiar, mais alimentos saudáveis a preços justos para a população, menos monoculturas de commodities envenenando nossos ecossistemas e extraindo benesses fiscais do poder público, menos ultraprocessados invadindo as refeições e drenando dinheiro do povo para a indústria alimentícia, menos vícios em aditivos… 

A luta pela redução da jornada de trabalho é outro exemplo de abertura de fissuras no sistema adoecedor que nos enreda. Trabalhar 6 dias da semana, muitas vezes em vários empregos precarizados ao mesmo tempo — o que requer o uso de quase todas as horas disponíveis e produz sofrimento psicoemocional — , é completamente desastroso. Acidentes, redução da produtividade, afastamento por doenças… tudo isso poderia ser reduzido se adotássemos uma distribuição menos draconiana do tempo, como propõe a PEC da escala 6×1, que finalmente foi aprovada na Câmara dos/as deputados/as e agora segue para apreciação no Senado. E ainda abriria espaço para a entrada de mais pessoas na ativa, ocupando os turnos vagos pela redução das jornadas. 

Seres vivos (incluindo os humanos) têm grande capacidade de se recuperar de desequilíbrios. Se estamos cronicamente doentes e inadimplentes, é porque um conjunto de forças corporativas lucra com nossa situação dramática. Big techs, big foods, big pharma e big money (para mencionar apenas os setores sobre os quais falei aqui) nos enredam num circuito labiríntico, em que todas lucram com nossas dependências e limitações. Romper estas pesadas correntes exige mudanças estruturais que passam por desfazer os laços históricos entre os diversos oligopólios que dominam a sociedade. Sabemos que é uma batalha mais do que árdua, mas precisamos encará-la. 

Individualmente, a busca por direitos, por saúde e por equilíbrio é apenas um cisco no olho do furacão. Desvendar as tramas entre os diferentes setores corporativos, unir as causas pelas quais se luta e as forças de quem luta por elas é abrir possibilidades reais de transformação. Nossos irmãos e irmãs da América Latina estão reagindo vigorosamente ao ataque sofrido pela nova onda colonialista em curso. Podemos e devemos somar nossas energias nessa caminhada. Para inspirar o percurso, compartilho aqui a Cartilha Mulheres-Árvore, fruto de um projeto que já tem mais de três décadas e atua na construção dos saberes medicinais no RS. Recomendo que assistam o vídeo que acompanha o texto descritivo. Ele nos instiga a cultivar a alegria e a nos mantermos brincantes e dançantes, mobilizando uma força que é, sim, revolucionária.

Que o ritmo da batida do coração de nossa Pachamama ecoe dentro de nós. Que tenhamos forças para exigir que quem está no topo do topo do topo dos impérios financeiros — e está sugando seu sangue (do qual o nosso faz parte) — seja responsabilizado pelos danos causados a ela. E que pague tudo aquilo que lhe deve. Com juros e correção monetária, como essa corja sabe muito bem cobrar do povo!

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