
Nos domingos de sol, grande parte dos trabalhadores da escala 6×1 veem o dia passar pela janela do ônibus.
Andreza Mustafa | Trabalhadora da 6×1
CRÔNICA – Quando é domingo de sol, a cidade acorda dourada. Tem cheiro de café demorado, roupa estendida no varal e risada de criança ecoando na laje. Pelo menos me contaram que é assim.
Eu vejo o domingo de sol pelo reflexo no vidro do ônibus das 05h40. Ele entra enviesado, esquenta minha testa encostada na janela e vai embora duas horas depois, quando desço no ponto da Avenida Anchieta. Lá dentro do mercado, o sol não bate. A luz é fria, branca, triste, luz de lâmpada que não conhece feriado nem domingos ensolarados.
Trabalho no caixa. O código de barras não para: bipa, bipa, bipa. Enquanto isso, lá fora, o domingo acontece sem mim. Imagino meu menino de sete anos correndo atrás de pipa na pracinha. Imagino minha pequena de três descobrindo que sombra também brinca. Imagino os vizinhos que os cuidam tentando explicar pra eles que a mãe “está ganhando o pão”. Mas pão não abraça. E o tempo que a gente vende por hora não volta no troco.
Tem cliente que chega bronzeado, com o carrinho cheio de carne para o churrasco e diz: “Que domingo lindo, né?!” Eu sorrio. O uniforme não deixa o cinismo aparecer. Respondo apenas com um “pois é”. Se eu disser o que penso, amanhã não ganho o pão, logo colocam outra no lugar, afinal, o patrão sempre diz que “se não está bom, tem quem queira”. O que eu penso é que domingo bonito tinha que ser direito, não sorteio.
O relógio do mercado marca 21 horas quando bato o ponto de saída. O sol já foi dormir faz tempo. Volto com ele guardado só na memória daquele reflexo da manhã. O ônibus de volta é mais vazio e o cansaço pesa mais.
Em casa, a chave gira devagar na porta para não acordar ninguém. A sala tem cheiro de arroz e feijão guardado. Na cama, dois corpos pequenos respiram fundo. Beijo a testa quente do mais velho. A pequena se mexe, mas não acorda. É o nosso “boa noite”, que virou “bom dia” adiado. Deixo o uniforme na cadeira, junto com as pernas que reclamam. Faltam seis horas para o despertador da segunda-feira.
Antes de fechar os olhos, penso: quantos domingos de sol cabem numa vida? E quantos deles eu vou assistir pela janela do ônibus, enquanto trabalho para a vida dos outros?
Dizem que o trabalho dignifica o homem. Mas dignidade sem descanso é só cansaço com carteira assinada, uma ilusão de garantia de sossego para aposentadoria. Domingo era pra ser de pé descalço no quintal, contar história sem olhar pro relógio. Era pra ser de mãe e filho dividindo o mesmo sossego.
Se um dia me perguntarem o que é subversão, não vou falar somente de livros e passeatas. Vou falar sobre querer os domingos de volta, sobre exigir que lucro nenhum valha mais que um beijo dado com criança acordada. De lembrar que a gente não vive pra trabalhar. A gente trabalha pra viver. Mas eu ainda vejo o sol. Mesmo que seja só no reflexo. E quem vê, mesmo de longe, não esquece como ele queima. Um dia a gente derruba essa vidraça.
Crônica publicada na edição impressa nº333 do jornal A Verdade