Médico oncologista, cientista e escritor, Drauzio Varella se tornou uma das principais referências brasileiras na divulgação de informações sobre saúde.
Na noite desta quinta-feira (2), o jornalista Juca Kfouri recebe o médico em um programa inédito, onde conversaram sobre temas como a prática da medicina em tempos de inteligência artificial, o Sistema Único de Saúde, o papel da medicina familiar e a experiência de estar em locais como presídios – que rendeu, em 1999, seu famoso livro Carandiru.
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Formado em medicina pela Universidade de São Paulo e autor de um portal onde comenta temas diversos de saúde física, mental e bem-estar, Drauzio contribui para ampliar o acesso da população a informações sobre prevenção, doenças e qualidade de vida.
Sua atuação como comunicador ganhou projeção durante a epidemia de AIDS, nos anos 1980, quando passou a participar de campanhas de esclarecimento sobre formas de transmissão, prevenção e tratamento da doença, em um contexto marcado pela desinformação e pelo estigma.
Anos depois, Drauzio firmou sua presença na televisão com um quadro fixo no Fantástico, da TV Globo, onde explicava temas relacionados à medicina e à saúde pública em linguagem acessível. O médico também escreveu livros e colunas, e combateu de forma importante as grandes campanhas de desinformação durante a pandemia da Covid-19.

No cenário marcado pela rápida circulação de informações falsas e pela politização do debate sobre a doença, utilizou seus espaços na televisão, no rádio, em podcasts, no portal que leva seu nome e nas redes sociais para traduzir evidências científicas em linguagem acessível.
Defendeu medidas de prevenção como o uso de máscaras, o distanciamento social e a vacinação, além de explicar à população a evolução do conhecimento científico sobre o novo coronavírus e a importância de que recomendações médicas fossem atualizadas à medida que novas evidências surgiam.
Ao longo da crise sanitária, também se posicionou publicamente contra o chamado “tratamento precoce” com medicamentos sem eficácia comprovada, como cloroquina e ivermectina, argumentando que a prática contrariava os princípios da medicina baseada em evidências. Drauzio atuou no combate à desinformação e na defesa da ciência como base para as políticas públicas de saúde.
A revolução do SUS na saúde do país
Na conversa com Juca, Drauzio reforçou a importância do Sistema Único de Saúde, o SUS, implementado com a Constituição de 1988.
“Eu fiz medicina vinte anos antes da criação do SUS. O SUS nasceu com a Constituição de 1988 e eu me formei em 1967. Vivi duas décadas exercendo a profissão antes dele existir. Então eu sei exatamente como era antes e sei o que aconteceu depois”, conta Drauzio.
“Foi a maior revolução da história da medicina do país. Antes, praticamente ninguém tinha direito a nada. Eu mesmo não tive pediatra. Quase ninguém tinha. Só as famílias que podiam pagar. Hoje temos vacinação para todas as crianças. Eu viajo muito pelo interior do Brasil, por lugares extremamente distantes, e em todos eles as pessoas recebem vacinas.”
Ele ressalta que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que oferece atendimento universal a sua população, e cita os programas revolucionários do sistema: o programa nacional de imunizações, o programa de tratamento da AIDS, de transplantes de órgãos, de hemodiálise, entre outros.
“O Brasil revolucionou o tratamento da AIDS. Os países africanos passaram a distribuir medicamentos antirretrovirais porque o programa brasileiro demonstrou que isso era possível e economicamente viável. Aqui qualquer cidadão pode receber um transplante pelo SUS. Praticamente não existe cidade localizada a mais de duzentos quilômetros de um centro de hemodiálise. Tudo gratuitamente.”
Revolução no tratamento de câncer e direito a morte digna
Durante a conversa, Drauzio comentou novas pesquisas de câncer que prometem revolucionar o tratamento da doença.
“Hoje entendemos muito melhor como funciona a multiplicação celular: para uma célula se dividir, ela precisa receber um sinal; esse sinal chega até receptores na membrana celular. depois percorre uma série de mecanismos dentro da célula até alcançar o núcleo, onde ativa genes responsáveis pela multiplicação”, explicou o médico.
“Os pesquisadores passaram a estudar esse caminho detalhadamente: a ideia foi desenvolver moléculas capazes de interromper essa transmissão do sinal; se o sinal não chega, a célula deixa de se multiplicar”, diz Drauzio, sobre as chamadas “terapias inteligentes”, ainda em teste fora do Brasil.
Sobre a morte digna, Drauzio comenta a necessidade de mudança da legislação.
“Se eu perguntar para qualquer pessoa aqui neste estúdio se ela quer viver muito, todos vão responder que sim. Mas, se eu perguntar: ‘Você quer viver a qualquer preço?’ a resposta muda. Ninguém quer passar os últimos anos da vida preso a uma cama, alimentado por sonda, usando sonda urinária, completamente dependente dos outros.”
Drauzio defende a autonomia de decisão através do movimento “Eu decido”.
“O que defendemos no movimento é justamente que a pessoa possa decidir enquanto ainda está lúcida. Porque, depois disso, ela já não decide mais nada, passa a depender exclusivamente da família e dos médicos. E talvez aquela já não seja mais a vida que ela gostaria de viver.”
Inteligência artificial e a medicina
A respeito da inteligência artificial e o exercício da medicina, Drauzio vê pontos positivos.
“Acho que a inteligência artificial vai ajudar muito a medicina. Existe um site que eu uso frequentemente, eu apresento um problema médico e ele reúne toda a literatura científica mais relevante, baseada nas principais revistas médicas do mundo. No passado eu precisava procurar artigo por artigo, revista por revista. Hoje tenho tudo isso em segundos”, conta.
No entanto, ele faz uma ressalva sobre o distanciamento que pode surgir entre médico e paciente.
“A medicina continua sendo uma profissão feita com as mãos. Vejo muitos médicos jovens perguntando: ‘Para que vou auscultar o pulmão se já tenho a tomografia?’ ou ‘O que vou descobrir ouvindo o coração que a imagem não mostrou?’. Mesmo que você não descubra nada novo, o ato médico não termina enquanto você não toca o paciente. O exame físico é fundamental.”, defende.
“Se você não examina o paciente, cria uma distância que nenhuma tecnologia consegue substituir. Nem que seja um exame rápido, objetivo, ele precisa existir”, finaliza.
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