
A decisão do governo dos Estados Unidos de indiciar o comandante Raúl Castro é grave, menos pelo cinismo já costumeiro do “xerife” mundial e muito mais pelo que aponta de tendência para o futuro imediato em relação a Cuba.
Tal iniciativa, anunciada nesta quarta-feira (20), representa um passo adiante na agenda de agressões e guerras promovida por Donald Trump, que age como um gângster, sem respeito à soberania das nações ou ao direito internacional. Nesta toada, Marco Rubio, Secretário de Estado de Trump, no momento do anúncio da medida contra Raúl Castro, declarou, cinicamente, que seu governo irá prender o veterano herói latino-americano.

Raúl, ao lado do seu inesquecível irmão, Fidel Castro, liderou desde o início a gesta revolucionária que derrotou a ditadura de Batista. Internacionalista convicto, foi o principal organizador da ajuda militar cubana na luta contra o apartheid e o colonialismo na África. Raúl Castro é um símbolo de dignidade e honra que nenhum aventureiro fascista, como Donald Trump, irá manchar.
Porém, a ameaça do império contra Cuba é patente e precisa ser enfrentada com coragem e realismo.
Embora seja indiscutível o heroísmo de seu povo, as condições para uma resistência cubana eficaz diante da disparidade de forças são muito limitadas. Cuba não é o Irã. O país não tem os recursos e o tamanho geográfico e populacional da República Islâmica, além de estar fisicamente muito distante dos principais polos de resistência ao domínio hegemônico dos EUA: China e Rússia.
Nada disso, no entanto, é um vaticínio de derrota. Cuba já demonstrou, ao longo de sua história, incrível capacidade de lutar e vencer.
Entretanto, para além da valentia do povo cubano e da solidariedade dos povos do mundo, é necessária uma grande e explícita aliança de países em defesa de Cuba.
Depois do que aconteceu em janeiro na Venezuela, uma eventual debacle de Cuba significaria, pelo seu valor simbólico e estratégico, que a soberania das nações latino-americanas é extremamente limitada ou, em alguns casos, inexistente, dependendo em boa parte do alinhamento mais ou menos incondicional com o plutocrata de plantão em Washington. Os planos de uma América Latina com países capazes de promover desenvolvimento autônomo, democrático e inclusivo seriam seriamente abalados.
Portanto, tal assunto não é de interesse apenas de Cuba, mas de toda a região e principalmente do seu maior país, o Brasil.
De fato, cabe aos países latino-americanos ainda ciosos de suas soberanias – com destaque para Brasil, México e Colômbia – liderar uma urgente coalizão mundial, unindo países de todos os continentes em um movimento geopolítico de pressão contra uma agressão a Cuba.
As esmagadoras votações contra o bloqueio em sucessivas Assembleias Gerais da ONU e o crescente isolamento internacional do Governo Trump são provas de que existe base política para essa articulação.
No mesmo dia em que o Departamento de Justiça ianque pronunciava sua ameaça contra Raúl, o presidente chinês, Xi Jinping – que em Pequim recebia para uma visita oficial o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin – denunciava que o mundo corria o risco de “regredir à lei da selva”, criticando “o unilateralismo e o hegemonismo”. Embora não tenha citado os EUA, o recado foi claro para todos.
Ocorre que em Gaza, na Cisjordânia, no Irã, no Líbano, na Síria, na Líbia, entre outras regiões, a “lei da selva” tenta, com toda força, prevalecer, e em alguns casos já prevaleceu concretamente.
A questão da defesa de Cuba implica também este aspecto: ou o imperialismo é detido em sua atual escalada, ou o futuro da humanidade será de fato a lei da selva.
Cedo ou tarde, nenhuma região do planeta deixará de se confrontar abertamente com esse dilema.

“Eras sobre eras se somem / No tempo que em eras vem / Ser descontente é ser homem. / Que as forças cegas se domem / Pela visão que a alma tem!”
Trecho do Poema “O encoberto”, segunda parte “O Quinto Império”, de Fernando Pessoa
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