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“É preciso enfrentar a arrogância imperialista”, afirma dirigente cubano em visita à Fundação Perseu Abramo

Como parte da rotina das atividades de intercâmbio de experiências com representações internacionais, a direção da Fundação Perseu Abramo recebeu o presidente da Casa de las Américas, Abel Prieto, nesta quinta-feira (14), em uma reunião em que ele relatou a situação de Cuba frente à atual crise. 

A Casa de las Américas é uma organização cubana fundada em 1959, logo após a revolução, e promove diálogos sobre arte e cultura, além de possuir uma editora. A vice-presidente da entidade, Maria Elena Salgado Cabrera, e o cônsul-geral de Cuba em São Paulo, Benigno Pérez, também participaram do encontro.

Ao receber a comitiva cubana, o presidente da fundação, Brenno Almeida, apontou que a solidariedade à Cuba não é apenas um valor político, mas também um elemento de extrema importância para dar continuidade à construção de um projeto socialista. 

“Precisamos sensibilizar nossa militância para essa solidariedade, isso não é algo somente conjuntural, é um elemento que determina e valida se realmente a luta que travamos faz sentido. O país é objeto de esperança para as próximas gerações, a inteligência cubana é um exemplo para nós”, afirmou Almeida. 

A diretora da fundação Mônica Valente contou sua última passagem pelo país a bordo do comboio Nuestra América, movimento de ajuda humanitária que entregou mais de 14 toneladas de alimentos a partir da colaboração de diversos países. Secretária-executiva do Foro de São Paulo, ela agradeceu a visita e ressaltou o papel da Casa de las Américas para a atualização da massa crítica e do espírito cubano de resistência “até o último homem e a última mulher”, comentou. 

“Sabemos que os Estados Unidos apostam agora em uma via de comoção interna, querem desestabilizar o país a partir da população. Há planos de recuperação econômica de Cuba, porém não podem ser tirados da gaveta com a vigência desse perverso bloqueio”, opinou Valente. 

“Se Cuba cair, quem perde é a luta internacional contra o imperialismo e contra o neoliberalismo. Tenho convicção de que a situação se trata de uma espécie de genocído lento contra os cubanos”, completou a diretora da fundação.

Sobre esse ponto, Abel Prieto fez um relato detalhado sobre as condições de vida dos cubanos, que tiveram a rotina alterada devido às longas horas de blecaute no país. Como há escassez de gás, as mulheres passaram a cozinhar com carvão, o que fez o preço subir muito. Além disso, o preparo das refeições está cada vez mais complexo, com falta de alimentos e dificuldade para estocar. “É preciso dizer que as mulheres cubanas são verdadeiras heroínas, o que elas fazem no dia a dia por suas famílias é muito heróico”, relata. 

Prieto também destacou a bravura da classe médica, lembrando que “eles atendem as pessoas, às vezes até em cirurgias, no escuro, com iluminação de lanternas de celular”.  Segundo o presidente da Casa das Américas, a população cubana está cada dia mais doente, sem acesso a medicamentos, mesmo com uma rede de saúde considerada referência internacional. 

“Somos um país de paz. Nossas palavras ao mundo são de que Cuba quer paz, mas não iremos voltar para a condição de ser uma colônia dos yankees. Para isso temos nossa doutrina defensiva deixada por Fidel, apesar da gente não poder competir com a tecnologia militar, nós sabemos nos defender a partir das nossas comunidades e bairros, nosso território eles não vão ocupar”, sustentou Prieto. 

crédito: Sérgio Silva / FPA

A manifestação de 1 de maio em Havana, com forte presença da população na rua em apoio ao regime, foi mencionada no encontro como um sinal político positivo, apesar de diversos exemplos de fake news citados. 

“Querem colocar Cuba com o rótulo de ‘falida’, vemos diariamente muitos memes com Trump como salvador, imagens de IA que remontam nossos cartões postais de maneira futurista, eles ridicularizam nossas medidas, querem dividir nossa população, atacam a imagem dos nossos dirigentes”, comentou. 

Nesta quinta-feira, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, respondeu pelas redes sociais que o fim do bloqueio imposto pelos Estados Unidos seria “uma forma mais fácil” de ajudar a ilha, após receber uma oferta de ajuda humanitária de 100 milhões de dólares feita por Washington. Para o presidente da Casa de las Américas, não há como descartar a possibilidade de um ataque. “Seguimos em um momento de ameaça permanente, eu acredito que não haverá ataque militar, mas estamos sempre preparados para o pior cenário, sabemos que depois do Irã o alvo pode ser Cuba”. 

Abel Prieto declarou preocupação com a constância das falas contra o país feitas pelo secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, e pelo secretário de Estado, Marco Rubio. 

Os diretores da Fundação Perseu Abramo Elen Coutinho e Alexandre Macedo também participaram do encontro, além da secretária de Relações Internacionais do PT, Misiara Oliveira, entre outros convidados do partido. 

Eles dialogam com os pontos levantados pelos dirigentes cubanos. “Olhar para a realidade de Cuba é olhar para o que pode acontecer aqui também, para o nosso futuro, precisamos contar a história do jeito que ela é, trabalhar com a verdade”, concluiu Coutinho. 

crédito: Sérgio Silva / FPA

No próximo dia 13 de agosto, será celebrado o centenário do líder Fidel Castro. E a Casa das Américas, assim como outras entidades cubanas, vai promover eventos em comemoração. 

“A partir do exemplo de Fidel, dizemos que a rendição de joelhos não está na nossa perspectiva, vamos sim enfrentar a arrogância imperialista. Sabemos que se Cuba cair, todo o continente perde, somos um grande símbolo, mas no âmbito pessoal, posso dizer a vocês que essa defesa é, de fato, a minha vida, eu tinha 8 anos quando a revolução triunfou, nesse sentido não há outra coisa”, desabafou Prieto.