
A economia solidária brasileira nasceu de uma perspectiva generosa de reconstruir as relações de trabalho a partir da cooperação, da autogestão e da solidariedade. Foi a resposta ética e política de um país atravessado pelo desemprego estrutural e pela exclusão social. Ao longo de três décadas, consolidou-se uma tradição intelectual e política que encontrou, em alguns intelectuais brasileiros, seus formuladores mais persistentes. A partir deles, a “tecnologia social” tornou-se o horizonte normativo de uma ciência a serviço do povo — uma tentativa de reconciliar o saber técnico com a emancipação social.
Mas esse horizonte, que foi revolucionário em seu tempo, tornou-se hoje um obstáculo. Ao permanecer preso ao paradigma da “resistência”, a economia solidária brasileira acabou capturada por um imaginário conservador, em que o social se opõe as tecnologias avançadas, e a inovação é vista com desconfiança. Sob o pretexto de proteger os trabalhadores da racionalidade instrumental, acabou-se isolando esses mesmos trabalhadores e demais da potência transformadora da ciência.
A tese de que é possível criar uma “tecnologia alternativa”, autônoma e descolada das dinâmicas produtivas do capitalismo global, revelou-se ilusória. A recusa do Estado e da grande escala — marcas do pensamento de alguns intelectuais brasileiros — tornou-se um entrave à transformação material da base produtiva brasileira. O que nasceu como crítica ao neoliberalismo converteu-se, paradoxalmente, em seu complemento ideológico, ou seja, uma utopia da escassez, que aceita a marginalidade econômica como destino e celebra a precariedade como virtude política.
Essa postura defensiva ignora que a tecnologia (inclusive as mais avançadas), como lembrava Marx nos Grundrisse, representa a forma mais desenvolvida da relação social, não há neutralidade nem pureza fora dela. Ao se refugiar em experiências isoladas e em laboratórios desprovidos de articulação com o sistema produtivo, o movimento de economia solidária e de tecnologia social no Brasil afastou-se do projeto histórico da modernização socialista — que sempre foi, antes de tudo, um projeto de transformação tecnológica com sentido coletivo. A emancipação não está em renunciar os avanços da tecnologia, mas em reapropriá-la socialmente.
A China oferece um contraste exemplar. Lá, a economia social não se define pela negação da tecnologia da fronteira do conhecimento, mas pela sua subordinação a fins coletivos. O pensamento chinês contemporâneo, sobretudo após Xi Jinping, elaborou uma síntese notável entre produtividade e justiça social. O socialismo chinês do século XXI entende a inovação não como fetiche de mercado, mas como força produtiva de civilização. Em vez de restringir a tecnologia à escala comunitária, busca integrá-la ao projeto nacional de bem-estar — o que Xi chama de “modernização centrada no povo”.
Essa modernização socialista não significa apenas adotar tecnologias de ponta, mas reconfigurar as relações sociais que as sustentam. A economia digital, a mecanização agrícola e a inteligência artificial são, na China, instrumentos de redistribuição de capacidades e de ampliação do poder social do Estado. É um modelo que combina planejamento, ciência e povo — superando a dicotomia entre o técnico e o humano.
O resultado é a criação de uma “economia social produtiva”, em que cooperativas, plataformas e empresas públicas convivem numa rede orientada por metas de desenvolvimento comum. A inovação é tratada como bem público e como expressão da soberania. Não se trata de um retorno à planificação rígida, mas de uma regulação estratégica que impede a captura privatista da tecnologia. Trata-se de uma nova forma de socialismo tecnológico, em que o Estado assume o papel de mediador entre a racionalidade científica e as demandas populares.
Parte da intelectualidade brasileira precisa de uma virada desse tipo. O movimento de economia solidária e de tecnologia social deve deixar de ser o abrigo ético dos despossuídos e tornar-se a base de uma nova política produtiva. Isso exige rearticular o papel do Estado, das universidades e das empresas públicas num projeto de inovação de massa. As “tecnologias sociais” precisam ser integradas às cadeias de valor, à política industrial e à transição ecológica — não como remendo marginal, mas como vetor estratégico de desenvolvimento.
É preciso, portanto, superar o romantismo rudimentar que ainda domina parte da esquerda intelectual brasileira. A ideia de que o pequeno é, por natureza, democrático, e o grande é necessariamente opressor, é uma herança de um tempo de impotência política. Hoje, a tarefa é outra: socializar a grandeza, popularizar a tecnologia, fazer da escala um instrumento de emancipação. O horizonte não é o retorno à pobreza, mas a construção de uma civilização tecnológica socialista — uma sociedade capaz de planejar coletivamente seu futuro técnico e social.
Adicionalmente, destaco que superar as ideias conservadoras da economia solidária e da tecnologia social não significa abandonar seus princípios, mas levá-los às suas últimas consequências. A solidariedade verdadeira não é o compartilhamento da carência, mas a partilha do poder produtivo. A tecnologia emancipadora não é a que substitui a máquina pelo mutirão, mas a que transforma a máquina em bem comum.
O Brasil tem tradição intelectual, base científica e capital humano para isso. Falta-lhe uma nova visão, uma proposta que una a potência da ciência às aspirações sociais do povo. O século XXI não será da autogestão da escassez, mas da socialização da abundância. E é essa tarefa — científica, política e moral — que nos cabe assumir.
Bibliografias
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