
Em depoimento contundente dirigido a estudantes de Relações Internacionais da PUC-Campinas, o economista Paulo Nogueira Batista Junior classificou como “gravíssimo” e “descaradamente entreguista” o teor de uma troca de correspondência entre o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, no atual governo Trump. A revelação, feita por uma das vozes mais respeitadas da economia política internacional brasileira, lança nova e preocupante luz sobre a subordinação do presidenciável do PL aos interesses de Washington.
Nogueira Batista, que foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) pelo Brasil, foi categórico ao analisar o episódio: “Em toda a minha longa vida observando as relações internacionais do Brasil, eu nunca vi algo tão descaradamente entreguista quanto essa promessa, essa oferta.”
O que diz a correspondência
Segundo o economista, a troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Marco Rubio revela que o candidato do PL ofereceu ao governo americano a criação de um “grupo de transição com o governo americano” em caso de vitória eleitoral. Para Nogueira Batista, a gravidade do gesto reside no próprio conceito de transição governamental.
“Vocês sabem o que é um grupo de transição? É um mecanismo entre o governo que está saindo e o governo eleito, entre a eleição e a posse, para facilitar a transição entre dois governos nacionais. O que Flávio Bolsonaro ofereceu ao governo americano é uma equipe de transição com um governo estrangeiro. Isso é gravíssimo”, explicou.
Contexto de agressividade americana
O economista situou a proposta no contexto geopolítico atual, marcado pelo que classificou como postura “ultra-agressiva” dos Estados Unidos de Donald Trump em relação à América Latina e ao Hemisfério Ocidental.
“Nesse momento, o Brasil não pode se dar ao luxo de eleger um candidato que se proclama alinhado automaticamente a Trump. Na verdade, ele é um candidato avassalado de Trump, é um Milei brasileiro”, alertou.
“Não é pelo Lula, é pelo Brasil”
Ao longo do depoimento, Nogueira Batista fez questão de se distanciar de qualquer identificação partidária. “Isso não é uma opinião de um lulista ou de um petista. Eu não sou filiado ao PT. Sou um crítico até do PT e do governo Lula”, afirmou, antes de traçar o contraste que considera decisivo:
“De um lado nós temos Lula, que é um presidente razoável, um sujeito equilibrado, veterano, muito experiente, com prestígio fora do Brasil. Do outro, nós temos um candidato deplorável. Um membro de uma família que já mostrou que é uma família complicadíssima, ligada às milícias do Rio de Janeiro, com muitas irregularidades no uso do recurso público, acusações fundamentadas de corrupção.”
O economista resumiu sua posição em uma frase que se tornou o cerne de seu apelo: “O Lula, o que é? É um instrumento de defesa do Brasil contra o desastre. É um instrumento de preservação da sanidade no Brasil.”
Apelo aos eleitores indecisos
Dirigindo-se especialmente aos jovens estudantes — e, por extensão, aos eleitores indecisos do segundo turno —, Nogueira Batista lançou um chamado à mobilização consciente. “Façamos cada um de nós, cada um de nós que tem essa preocupação com o Brasil, e não é pelo Lula, viu? É pelo Brasil. Conquistem pelo menos um voto em favor de Lula e convençam pelo menos algumas pessoas a não ficarem neutras ou a não votarem nesse estrupício que se chama Flávio Bolsonaro.”
O economista ressaltou ainda que o primeiro turno, embora tenha colocado Flávio Bolsonaro à frente por margem pequena, “não está liquidado”. “A eleição não está liquidada. A margem de vantagem foi muito pequena, e é bem possível reverter se cada um de nós tiver consciência do risco que o Brasil corre.”
Quem é Paulo Nogueira Batista Jr.
Economista de carreira no serviço público federal, Nogueira Batista foi diretor executivo do FMI entre 2007 e 2018, representando o Brasil e outros países da América Latina. Foi um dos arquitetos da criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o “banco dos BRICS”, onde ocupou a vice-presidência. É autor de diversos livros sobre economia internacional e considerado uma das maiores autoridades brasileiras em relações econômicas internacionais.
O depoimento completo foi gravado a convite do professor Moisés de Souza, da PUC-Campinas, para ser exibido a alunos do curso de graduação em Relações Internacionais.
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