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Eleições: a derrota anterior

Eleições: a derrota anterior

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Uma pesquisa de segundo turno feita em abril mede um estado de ânimo. Não mede outubro, urna e voto real. A distinção parece óbvia, mas aparentemente não é, porque a cada sondagem que sai a cena se repete com precisão cômica: a imprensa fabula a desistência de Lula, converte Haddad em substituto e decreta o esgotamento de uma candidatura que ainda não começou de fato. A esquerda entra em colapso existencial — descabela-se, antecipa a derrota, age como se o processo eleitoral tivesse sido encerrado por uma amostra de dois mil entrevistados em abril.

Há um problema empírico nisso, além do estético. Em 1993, eu era um peão do Datafolha (trabalhava no arquivo) e ouvia estatísticos e cientistas políticos afirmarem: levantamentos de intenção de voto ganham capacidade preditiva real a dois ou três meses do pleito. Antes disso, o erro é estruturalmente maior, o campo ainda está aberto, alianças se formam, candidaturas se consolidam, fatos entram e saem.

Sete meses antes, a pesquisa é uma fotografia, não profecia do Eden ou do fim do mundo . Lê o humor do momento. É o purgatório impreciso. Não sentencia o resultado.

No Brasil de 2026, isso importa mais do que de costume, porque a eleição sequer entrou em sua fase ativa. O registro de candidaturas fecha em agosto, a propaganda começa em agosto, o primeiro turno é em outubro. Toda a fase em que a campanha opera com intensidade real ainda está por vir.

O Datafolha mostrou empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro num cenário de segundo turno, 46% a 45%, dentro da margem de erro. Isso diz algo concreto: a disputa é competitiva, o desgaste do governo existe, o quadro está apertado. Vale atenção. O que não vale é transformar empate em rendição e desespero, ou especulação jornalística partidarizada em horizonte político. A pesquisa acende um sinal. Não emite um laudo.

O mais revelador não é o dado ou o fato ensejado. É exatamente o que ele provoca. A reação já vem em tom terminal antes mesmo de haver o que terminar. A ansiedade ocupa o lugar da análise, qualquer oscilação vira colapso, qualquer empate vira derrota anunciada. A sondagem deixa de ser instrumento de leitura e passa a funcionar como gatilho de pânico. Politicamente, esse movimento só desarma quem já entra em cena convencido de que vai perder.

O ciclo é reincidente e vicioso: a cada pesquisa desfavorável, o mesmo ritual de autopunição coletiva, a derrota se torna mais certa e antecipada cada pesquisa . A história eleitoral brasileira é pródiga em exemplos do contrário. Quem vai à urna em outubro não é o eleitor de abril é outro, fruto uma campanha que ainda não aconteceu.

O resultado é incerto, mas é cedo para o desespero.

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