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Em 30 anos, houve uma morte a cada 10 dias por conflitos agrários no Brasil

Passados 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás — ocorrido em 16 de abril de 1996 no Pará —, o Brasil ainda não conseguiu resolver a violência no campo. E o crescente poder do agronegócio não traz perspectivas de resolução desse problema histórico. 

Desde aquele ano até 2025, em média uma pessoa perdeu a vida a cada dez dias devido a conflitos no campo. Ao todo, foram 1.149 mortes. 

Desde 2022, houve ao menos dois mil conflitos dessa natureza no país, sendo 2.185 somente em 2024, o maior número desde 1985, com 13 mortes, a maioria de indígenas (cinco) e sem-terra (três), sendo os principais responsáveis os fazendeiros (46%). Os dados são da Comissão Pastoral da Terra. 

Do total de conflitos registrados em 2024, 78% dizem respeito à violência ligada à terra, 12% às disputas pela água e 6% à violência trabalhista. 

Nesse universo, as queimadas e o desmatamento são os principais vetores de agressão ambiental utilizados, sobretudo, pelos grandes detentores de terras. 

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Segundo os dados da CPT, 47% dos casos de incêndio e 82% dos de desmatamento ilegal foram causados por fazendeiros, grileiros, empresários e madeireiros.

Os indígenas são as principais vítimas do desmatamento ilegal (35% dos casos), seguidos dos quilombolas com 17% e assentados e posseiros, empatados com 10% dos casos.

No caso das queimadas, os povos indígenas também são os principais prejudicados, 53% dos casos, seguidos por ribeirinhos, com 10%, e sem-terra, com 9%.

Os incêndios registrados aconteceram, sobretudo, na região da Amazônia Legal, 63%, com destaque para o Mato Grosso, que respondeu por 25% de todos os casos registrados em território nacional.

Quanto aos desmatamentos, 69% ocorreram na Amazônia Legal; o Pará foi o mais afetado, concentrando 19% do total.

O relatório da CPT que reúne esses dados trata, ainda, de algumas das razões para o aumento dos conflitos no campo, entre as quais a superexploração da terra e das águas em convergência com o modelo de produção agrícola hegemônico, o agronegócio, cujo foco central é a exportação de commodities. 

“Observe-se que neste século 21 toda a economia agrícola brasileira ficou moldada a crescer em uma única direção: especializar a economia rural na exportação de algumas mercadorias mundiais, as chamadas commodities, nos ramos de grãos forrageiros e carnes”, diz o documento. 

Ainda de acordo com o relatório, “esse giro à especialização primário-exportadora, da forma em que se dá no Brasil, se realiza em conexão direta com a expansão ilimitada do mercado de terras, realizada à base da grilagem de terras públicas. Esta, também se liga com os processos de ‘intrusão’ em Terras Indígenas e de Reservas Florestais, com ou sem devastação prévia; mas todas reivindicando posterior ‘regularização fundiária’ ao Congresso e ao Executivo, com as digitais da Bancada Ruralista ou Frente Parlamentar da Agropecuária”.

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