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A história da Universidade de São Paulo é também a história de seus estudantes. Ao longo de décadas, o movimento estudantil participou de algumas das principais disputas políticas e sociais do país, da resistência à ditadura militar às mobilizações em defesa da universidade pública. Preservar essa trajetória é o objetivo do projeto de organização do acervo de mais de 200 caixas de documentos do Diretório Central dos Estudantes Livre da USP (DCE-Livre), atualmente desenvolvido pelo Centro de Apoio à Pesquisa em História “Sérgio Buarque de Holanda” (CAPH), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
A relevância desse trabalho torna-se ainda mais evidente diante da atual greve estudantil que mobiliza a USP desde abril de 2026 e que se ampliou para a Unicamp e a Unesp. O movimento surgiu em torno de reivindicações relacionadas à permanência estudantil, moradia, alimentação, ampliação dos auxílios, contratação de docentes e funcionários e democratização das estruturas de decisão das universidades públicas paulistas. Em poucas semanas, a mobilização se transformou em uma das maiores dos últimos anos, envolvendo assembleias massivas, paralisações de atividades, atos públicos e ocupações.
As denúncias apresentadas pelos estudantes evidenciam problemas acumulados ao longo dos anos. Questões relacionadas às condições de moradia estudantil, à insuficiência dos auxílios econômicos, à precarização dos serviços de alimentação e ao déficit de funcionários estiveram no centro das reivindicações. Para os estudantes, trata-se de problemas estruturais que afetam diretamente as condições de acesso e permanência na universidade pública.
As tensões alcançaram um novo patamar após a ocupação da Reitoria da USP por estudantes que reivindicavam a retomada das negociações frente à intransigência do atual reitor em negociar. O ataque e desocupação brutal pela Polícia Militar provocaram forte repercussão dentro e fora da universidade. Houve agressões físicas contra estudantes e violações de direitos durante a operação. Entre os episódios mais graves, uma estudante da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas sofreu fratura em um dos braços durante a ação policial e vários outros foram espancados. A reitoria não condenou os atos de agressão dos militares contra os estudantes. A apuração das responsabilidades permanece como uma das exigências dos setores comprometidos com a defesa dos direitos humanos e das liberdades democráticas.
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É justamente nesse contexto que o acervo do DCE-Livre revela toda a sua importância. Os documentos preservados registram experiências acumuladas por gerações de estudantes que enfrentaram desafios semelhantes em diferentes conjunturas históricas. Nas lutas contra a ditadura militar, nas greves do final da década de 1980 em que foi conquistado o índice que garantiu autonomia orçamentária, na greve do começo de 2002 que conquistou mais contratações de docentes etc. Assembleias, jornais, panfletos, correspondências, campanhas, cartazes, periódicos e registros administrativos permitem compreender como os estudantes organizaram suas reivindicações, construíram entidades representativas e intervieram nos debates políticos da universidade e do país. Trata-se de uma documentação que devolve protagonismo histórico a sujeitos frequentemente apagados das narrativas institucionais produzidas sobre a USP.
O processo de incorporação do acervo ao CAPH teve início em 2019, quando representantes do DCE procuraram o centro de documentação para formalizar a doação dos materiais acumulados pela entidade. As tratativas foram interrompidas pela pandemia de Covid-19 e retomadas em 2022, culminando na transferência física da documentação e na assinatura do termo de doação.
A chegada do acervo exigiu um amplo esforço de preservação. O material encontrava-se em condições delicadas de armazenamento e precisou passar por tratamento especializado de descontaminação no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), por meio de irradiação gama, antes do início das etapas de higienização, classificação e acondicionamento arquivístico.
Desde então, estudantes, pesquisadores e técnicos do CAPH vêm realizando um trabalho contínuo de identificação e organização dos documentos. O projeto transformou-se também em um espaço de formação acadêmica, envolvendo alunos da graduação em atividades de preservação documental, pesquisa histórica e extensão universitária.
O objetivo central é garantir que a documentação produzida pelo movimento estudantil permaneça acessível às futuras gerações. O acervo reúne uma parte significativa dos registros do DCE-Livre desde sua refundação em 1976, durante os anos finais da ditadura militar, quando a reorganização do movimento estudantil se tornou um dos símbolos da luta pela redemocratização do país.
A preservação dessa documentação possui também um significado historiográfico. Durante muito tempo, a história da USP foi escrita principalmente a partir das experiências de seus dirigentes e das narrativas institucionais oficiais. Os estudantes, trabalhadores e demais setores da comunidade universitária frequentemente apareceram de forma secundária nesses relatos. Os arquivos do movimento estudantil permitem reconstruir uma perspectiva distinta da história universitária, evidenciando conflitos, disputas e projetos alternativos de universidade defendidos pelos setores organizados da comunidade acadêmica em frequente contraposição ao autoritarismo das gestões reitorais.
O que emerge desses documentos é uma longa trajetória de mobilização em defesa de uma universidade mais democrática, plural e socialmente comprometida. Ao longo de décadas, estudantes se organizaram em torno de reivindicações ligadas à ampliação do acesso, às condições de permanência estudantil (moradia, alimentação, transporte, bolsas), à democratização das estruturas de poder da universidade (a USP é uma das universidades menos democráticas do país) e à ampliação de seu compromisso com a resolução dos graves problemas sociais e econômicos provocados pela desigualdade.
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Essa documentação revela que a história da USP também pode ser compreendida como a história de projetos distintos de universidade em disputa. De um lado, uma instituição frequentemente orientada por critérios de gestão empresarial, competitividade acadêmica e aproximação com interesses privados. De outro, a defesa de uma universidade pública concebida como patrimônio social, comprometida com a produção de conhecimento voltado às necessidades da maioria da população, à redução das desigualdades e à ampliação dos direitos sociais.
A atual greve estudantil e a mobilização de docentes demonstram a permanência dessas questões. As pautas discutidas hoje — permanência estudantil, alimentação, moradia, transporte, acesso à universidade e democratização das decisões institucionais — dialogam diretamente com reivindicações registradas em documentos produzidos há décadas pelo movimento estudantil. Muitas das conquistas que hoje fazem parte da vida universitária foram resultado de processos prolongados de mobilização coletiva. Bolsas de permanência, expansão da assistência estudantil, contratação de docentes, ampliação de vagas e políticas de inclusão não surgiram espontaneamente, mas foram fruto de campanhas, greves e lutas desenvolvidas por sucessivas gerações de estudantes e trabalhadores.
Nesse sentido, a greve de 2026 não constitui um episódio isolado. Ela se insere em uma tradição histórica de mobilização que atravessa diferentes períodos da vida universitária. As disputas atuais em torno da autonomia universitária, da democratização da gestão e do papel social da universidade retomam debates que aparecem reiteradamente nos documentos produzidos pelo movimento estudantil desde a década de 1970.
Por isso, o trabalho de preservação do acervo não se limita à proteção de documentos antigos. Trata-se de construir instrumentos que permitam compreender historicamente os conflitos do presente. Ao organizar, catalogar e disponibilizar essa documentação, o projeto contribui para que pesquisadores, estudantes e a sociedade possam analisar as continuidades, mudanças e desafios das mobilizações estudantis ao longo do tempo.
Em meio às mobilizações que atualmente atravessam a USP e as universidades públicas paulistas, a preservação da memória estudantil assume uma dimensão ainda mais significativa. O acervo do DCE-Livre não registra apenas o passado do movimento estudantil: ele ajuda a compreender o presente.
Para aqueles que procuram desqualificar as mobilizações estudantis como expressões de irresponsabilidade, desorganização ou inconsequência, a documentação preservada oferece um contraponto poderoso. Ela revela décadas de organização coletiva, elaboração política, produção cultural e participação ativa dos estudantes na construção da universidade. Ao mesmo tempo, mostra que os conflitos entre o movimento estudantil com outros setores democráticos dentro da universidade em choque com as reitorias infelizmente não constituem exceções. Se o modelo da USP autoritária e antidemocrática ressurgiu com toda a força na mobilização contra estudantes e professores em greve, a história de resistência e conquistas segue viva. É essa história, feita de lutas, conquistas, derrotas e permanências, que o acervo do DCE-Livre ajuda a preservar para as gerações presentes e futuras.
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