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Em crise climática, o espectro do mega El Niño

Foto: Nazrul Islam / Alamy Stock Photo

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Por Javier Martín Vide, no The Conversation | Tradução: Rôney Rodrigues

O El Niño é um fenômeno climático recorrente com impactos em todo o planeta. Ele ocorre em três fases: uma fria (conhecida como La Niña), uma neutra e uma quente (o El Niño).

Em 2026, a primavera no Hemisfério Norte ocorreu durante uma fase neutra, sucedendo um episódio relativamente brando de La Niña. Modelos de previsão de curto prazo indicam que é bastante provável que, em meados do ano, entremos em uma fase de El Niño. Esse episódio poderá se intensificar consideravelmente até o final do ano, levando alguns especialistas a falar em um “super-El Niño”. Mas que efeitos isso poderia provocar? E já houve algo semelhante no passado?

Variação da temperatura do mar no Oceano Pacífico tropical entre fevereiro e maio de 2026. NOAA

Uma corrente anômala no Pacífico

Essa corrente oceânica quente e anômala, que surge ocasionalmente no Pacífico, foi observada pela primeira vez por pescadores peruanos do século XIX. Eles a chamaram de El Niño — “o Menino”, em espanhol — porque ela costumava aparecer por volta do Natal.

O fenômeno ocorria quando águas quentes provenientes do Pacífico equatorial substituíam as águas frias que normalmente banham as costas do Equador (ao sul da cidade de Guayaquil), do Peru e do norte do Chile. Essas águas costumam ser bastante frias devido à Corrente de Humboldt — que flui de sul para norte ao longo dessa porção do litoral sul-americano — e ao afloramento de águas profundas e frias.

O impacto dessas correntes é significativo. Basta comparar a cidade chilena de Antofagasta, banhada pelo Pacífico, com o Rio de Janeiro, voltado para o Atlântico. Ambas se encontram praticamente na mesma latitude, a do Trópico de Capricórnio, mas apresentam temperaturas médias do mar bastante distintas: cerca de 18°C em Antofagasta e 24°C no Rio de Janeiro.

Para os pescadores peruanos, a chegada das águas mais quentes do El Niño significava o desaparecimento de seu peixe mais abundante e valorizado, a anchoveta, espécie que prospera em águas frias e ricas em plâncton.

Um fenômeno oceânico e atmosférico

Na década de 1920, o físico e climatologista britânico Gilbert Walker fez uma descoberta surpreendente. Ao analisar enormes volumes de dados sobre pressão atmosférica, percebeu que, quando a pressão aumentava no Pacífico sul-americano, ela diminuía no norte da Austrália e na Indonésia, e vice-versa. Em outras palavras, essas duas regiões do planeta, separadas por milhares de quilômetros, estavam conectadas no comportamento da pressão atmosférica. É o que hoje chamamos de teleconexão, isto é, uma ligação meteorológica de longa distância.

Essa oscilação coordenada da pressão atmosférica no Pacífico Sul recebeu o nome de Oscilação Sul. Mas o que o El Niño, uma corrente oceânica, tem a ver com a Oscilação Sul, um fenômeno atmosférico?

Além de prejudicar a indústria pesqueira peruana, o El Niño leva chuvas — por vezes torrenciais — às regiões áridas do Peru e do norte do Chile, onde se encontra o deserto do Atacama, considerado o mais seco do mundo. Em 1957-1958, um episódio particularmente intenso provocou precipitações torrenciais no Peru e em outros países, ao mesmo tempo em que desencadeou uma severa seca na Índia e no Sudeste Asiático, estimulando novas pesquisas sobre o fenômeno.

Na década de 1960, o meteorologista norueguês-americano Jacob Bjerknes demonstrou que o aquecimento do Pacífico sul-americano provocado pelo El Niño estava ligado à Oscilação Sul, estabelecendo assim uma estreita conexão entre o oceano e a atmosfera.

Quando o anticiclone tropical do Pacífico Sul — juntamente com o sistema de ventos alísios que sopra da América do Sul em direção à Austrália e à Indonésia — enfraquece, as águas do Pacífico equatorial se aquecem e começam a se deslocar em direção à América Central. A partir daí, desviam-se principalmente para o sul, acompanhando parte do litoral do Equador, do Peru e do Chile. É assim que o El Niño se forma.

Bjerknes demonstrou que atmosfera e oceano estão intimamente interligados e que aquilo que acontece em uma parte do sistema climático repercute em outras regiões. Da combinação dos nomes dos componentes oceânico e atmosférico surgiu a denominação oficial do fenômeno: El Niño-Oscilação Sul (ENSO, na sigla em inglês).

Mapa da temperatura da superfície do mar, com temperaturas acima da média em vermelho e abaixo da média em azul. A “língua” que se estende para o oeste da América do Sul é característica do aquecimento associado ao El Niño. Este mapa da NOAA de 2016 mostra um dos El Niños mais intensos já registrados. NOAA

O pior El Niño do século XX

Em 1982-1983, o mais intenso episódio de El Niño do século XX provocou eventos climáticos extremos em diversas partes do mundo, incluindo enchentes na costa do Pacífico americano e no sul dos Estados Unidos, além de secas no Nordeste brasileiro e na Indonésia. O fenômeno também resultou em um inverno excepcionalmente ameno nas latitudes médias da Europa, da Ásia e da América do Norte.

A partir de então, observou-se que, ocasionalmente, as temperaturas do Pacífico equatorial também apresentavam uma anomalia negativa, ou seja, ficavam abaixo do normal. Ao mesmo tempo, fortaleciam-se o sistema de alta pressão do Pacífico Sul e os ventos alísios. Essa situação, oposta ao El Niño, recebeu o nome de La Niña.

Em resumo, o El Niño traz águas mais quentes e maior instabilidade, enquanto a La Niña provoca águas mais frias do que o normal e maior estabilidade nas regiões do Equador, Chile e Peru. Esses fenômenos se repetem ciclicamente, embora não em intervalos regulares.

O último episódio intenso de El Niño do século XX ocorreu entre 1997 e 1998, causando graves inundações na Califórnia. Como os desastres atingiram os Estados Unidos, o fenômeno recebeu ampla cobertura da imprensa internacional.

O fenômeno El Niño pode causar secas severas em algumas partes do planeta e chuvas torrenciais em outras. NOAA

Como poderá se comportar o próximo El Niño intenso?

Um super-El Niño levaria, sem dúvida, se não em 2026 então certamente em 2027, a uma elevação da temperatura média global, alguns décimos de grau acima do que seria esperado diante da atual taxa de aquecimento do planeta. Também provocaria chuvas intensas nos países andinos já mencionados, na região argentina de Mar del Plata, no leste da África e em partes do sul dos Estados Unidos, enquanto secas severas atingiriam o Sudeste Asiático, áreas da Austrália e o Nordeste brasileiro.

Na bacia do Mediterrâneo, o ciclo El Niño-La Niña é menos intenso, em grande parte devido às características geográficas particulares da região. Ainda assim, durante um episódio muito forte de El Niño, podem ser esperadas temperaturas acima da média e, possivelmente, uma maior probabilidade de ocorrência de chuvas extremas.

De todo modo, aquilo que um dia pareceu ser um fenômeno restrito às áreas de pesca do Peru é hoje compreendido como uma interação de escala global entre a atmosfera e os oceanos, cujas repercussões podem ser catastróficas em regiões muito distantes de sua origem.

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