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Em evento com autores, Fundação Perseu Abramo lança livro sobre 10 anos do golpe

Na data em que o golpe parlamentar sofrido por Dilma Rousseff completou 10 anos, a Fundação Perseu Abramo realizou o lançamento do livro “O golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências”. O evento, realizado no auditório da fundação, contou com a participação de autores e convidados e foi marcado por falas que retrataram o período a partir de uma perspectiva não só política, mas também pessoal dos envolvidos na publicação. 

Em parceria com a editora Hucitec, a obra conta com 15 artigos organizados pela ex-ministra de Política para as Mulheres Eleonora Menicucci e os professores Lincoln Secco, do Departamento de História da USP, e Ramatis Jacino, do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Mundial da UFABC. 

O presidente da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, destacou a firmeza do caráter de Dilma, que inspirou a militância a ir às ruas para resistir ao golpe. Sobre a atual conjuntura, disse: “nós temos que, de forma ativa, vigilante e solidária, reconfigurar as bases políticas desse país sem negociar com os movimentos que colocam nossa democracia em risco”. 

Carlos Henrique Árabe, diretor da FPA responsável pela editora, ressaltou o grande interesse do público pelo livro, que já está com a primeira edição física esgotada. Árabe apontou que a obra funcionou como um organizador político, produto de organização coletiva. “É um livro de denúncia, análise, chamado para a luta, mas também um livro feito para a companheira Dilma, para ressaltar sua importância histórica na construção política”, afirmou. 

Crédito: Sérgio Silva / FPA

“Foi um golpe que retirou, sem nenhum crime de responsabilidade, a primeira mulher eleita e reeleita no nosso país”, comenta Eleonora Menicucci. A ex-ministra e presidenta do Conselho Curador da FPA disse atestar a integridade de Dilma Rousseff desde os tempos da militância política no período da ditadura militar e apontou que o fato de Dilma não ter aceitado acordos de negociação com Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, a torna ainda maior em sua biografia. Menicucci lembra da força da presidenta logo após sua derrubada ao escrever uma carta ao povo brasileiro, que está publicada no livro. 

“O livro é um organizador político de uma memória, ele cumpre o papel importante de registrar que foi um golpe”, destacou Lincoln Secco. O historiador pontuou que até hoje a narrativa sobre o fato segue em disputa, com setores que negam o fato político do golpe. 

Para Secco, o Brasil precisa elaborar de maneira oficial um pedido formal de desculpas à Dilma Rousseff. “Lembro daquele momento difícil aqui em São Paulo em que fomos ao Vale do Anhangabaú para ouvir a contagem dos votos”, contou. O professor citou a famosa frase dita por Dilma em sua carta: “eles pensam que nos derrotaram, mas estão enganados, nós voltaremos”. 

Ramatis Jacino comentou as diferenças do golpe sofrido por Dilma e pelo projeto político do PT em 2016 em relação aos outros golpes da história brasileira, com foco no caráter misógino e racista do evento. Para Jacino, o governo em questão tinha uma opção pela classe trabalhadora bem delimitada, além de todas as políticas raciais realizadas e o fato da presidenta trazer a representação das mulheres em um ambiente hostil como a política. 

O professor citou a divisão dos artigos do livro: origens (histórico colonial do país); mecanismos (que o golpe estava a serviço de interesses do mercado financeiro e internacional) e consequências (em especial as reformas trabalhista e da previdência). 

Crédito: Sérgio Silva / FPA

Paulo Vanucchi lembrou do enfrentamento que Dilma trouxe ao tema da justiça perante os crimes da ditadura militar com a criação da Comissão da Verdade e disse ser necessário em um governo Lula 4 continuar a tratar da questão para evitar que outros ataques à democracia sejam cometidos. 

Magda Biavaschi comentou a trajetória de Dilma após o golpe à frente do Banco dos Brics e a confiança que o governo chinês deposita na brasileira. Além disso, a desembargadora aposentada explicou, a partir da perspectiva da luta por direitos, as perdas dos trabalhadores com a ampliação da terceirização e o fenômeno da pejotização. Com o olhar econômico, Carlos Eduardo da Silveira falou das particularidades do governo Dilma, que não trouxe tantos benefícios para os mais ricos, que estão no topo da pirâmide. Para o professor da UFABC Sidney Jard da Silva, o golpe veio para derrotar todas as conquistas da classe trabalhadora desde 88. 

Sérgio Amadeu, sociólogo e professor que pesquisa questões ligadas à tecnologia, contou que no período do golpe realizava análise de redes para o Partido dos Trabalhadores e lembrou que, apesar de todo o crescimento dos grupos de ódio nas redes, o partido foi vitorioso com a reeleição de Dilma. Ele destacou ainda que atualmente há grupos que querem se desvencilhar do histórico de apoio ao golpismo, mas que é importante não esquecer quem estava em qual lado naquele momento.