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Em sessão vexatória, Congresso derruba veto de Lula à anistia de golpistas

Em sessão conjunta da Câmara e do Senado na tarde desta quinta-feira (30), o Congresso Nacional derrubou o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei da dosimetria, beneficiando os golpistas do 8 de janeiro, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e militares de alta patente que atentaram contra a democracia e as instituições. 

De acordo com o rito legal, a matéria será encaminhada para promulgação pelo presidente da República em até 48 horas. Caso isso não ocorra, a tarefa caberá ao presidente do Congresso e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Após a promulgação, o texto passa a valer como lei, com vigência imediata após a publicação oficial.

Na primeira votação, por parte dos deputados, o placar foi de 318 pela derrubada contra 144 pela manutenção do veto. Em seguida, no Senado, o resultado foi de, respectivamente, 49 a 24. 

Antes mesmo de concluída a votação do veto, membros da base do governo já davam como certa a judicialização do caso junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de reverter a decisão dos parlamentares. Um dos argumentos deverá ser a manobra usada durante a sessão pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre.

Fatiamento beneficiou a direita

A sessão foi precedida de mais uma manobra do presidente do Congresso e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) contra o governo, considerada pouco usual nesse tipo de votação. 

O parlamentar estabeleceu o fatiamento do veto, mantendo apenas a análise dos trechos que diziam respeito à redução das penas dos golpistas. Com isso, a votação não contemplou a diminuição das penas em casos de crimes hediondos, feminicídio e atuação em organizações criminosas, por exemplo. 

Devido a uma brecha aberta pelo PL da Dosimetria, condenados por crimes como esses também poderiam ter as penas reduzidas.  Segundo Alcolumbre esse fatiamento evitaria choque com a Lei Antifacção, aprovada após o veto do PL da Dosimetria.

Saiba mais: Derrubar veto à dosimetria é premiar o golpismo

A líder do PCdoB na Câmara, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), defendeu a manutenção integral do veto presidencial, argumentando que “o PL da Dosimetria reduz as penas a partir do artigo 112 do Código Penal. A única forma de garantir que o PL Antifacção tenha validade é manter a integralidade do veto presidencial a esse projeto. Não cabe esse fatiamento”. 

Portanto, por meio de uma manobra, no mínimo, questionável, o senador manteve o veto presidencial onde era conveniente para os parlamentares bolsonaristas e da direita, que puderam, confortavelmente, invalidar apenas o que lhes interessava — a redução da pena dos golpistas —, de maneira a não se indispor com suas bases no caso da redução da pena para outros crimes. 

“Eu chamo isso de um golpe comandado pelo Alcolumbre com dois objetivos: livrar a cara de Bolsonaro e dos golpistas e fazer um grande acordo de blindagem das investigações da Polícia Federal”, disse o vice-líder do governo na Câmara, deputado Lindbergh Faria (PT-RJ), referindo-se ao caso Master, que envolve diversos nomes da direita e do bolsonarismo.

Sessão vergonhosa

Jandira Feghali. Foto: Kayo Magalhães/Senado

Numa espécie de “reprise” da bizarra sessão do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, parlamentares da direita se revezaram ao microfone fazendo da anistia aos golpistas uma bandeira falsamente justa e de interesse nacional. 

Ao encaminhar o voto do governo pela manutenção integral do veto presidencial na primeira votação, a deputada federal Jandira Feghali (RJ) elogiou o veto do presidente Lula, “um veto corajoso, comprometido com a democracia e com a história dos heróis pela liberdade desse país e em respeito às famílias dos mortos e desaparecidos políticos”. 

Em seguida, enfatizou: “esta sessão lamentavelmente envergonha o Congresso Nacional. O recado que está sendo dado ao povo e ao Brasil é o de que golpe é aceitável, que podemos manter uma história de rupturas porque o Congresso alivia. Precisamos valorizar a democracia brasileira e impedir que acordos de blindagem submetam a democracia aos interesses de quem está sendo denunciado, investigado e pode ser condenado pelo STF”.  

Contrapondo-se aos argumentos da direita, a parlamentar ainda salientou que o projeto da dosimetria, “não é uma anistia para velhinhas presas; é para anistiar Bolsonaro e os militares de alta patente que tramaram um golpe de Estado e a abolição do Estado democrático de direito. Isso não é aceitável”. 

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), também se manifestou de maneira contundente contra a validação da anistia. “Que o parlamento brasileiro não seja território da hipocrisia porque vossas excelências nunca se preocuparam com aquela massa de manobra que trouxeram para quebrar os poderes e se postarem à frente dos quartéis. Vocês só se movimentam pelos corruptos da família Bolsonaro. Vocês só se movimentam quando o banco Master se torna realidade e o BolsoMaster chega muito próximo daquilo que vocês representam”.

Maria do Rosário classificou o PL da Dosimetria como uma “excrescência” e ressaltou: “graças ao veto do presidente Lula, não estão nas ruas os fascínoras, os feminicidas, os estupradores de crianças porque foram esses que vocês liberaram junto com Jair Bolsonaro e os demais (ao aprovar a matéria)”. 

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