Há 186 anos, em 19 de maio de 1840, nascia o pintor e músico baiano Emmanuel Zamor. Ele estabeleceu uma carreira bem sucedida na Europa ao longo do século 19, notabilizando-se por um estilo pictórico original, mesclando elementos do realismo e das vanguardas impressionistas.
Emmanuel também firmou uma sólida carreira como compositor, produzindo mais de 200 canções, e foi fundador da sociedade lírica “Les Modernistes”. Mas, a exemplo do que ocorreu com vários artistas negros do Brasil oitocentista, sua contribuição foi apagada da historiografia da arte brasileira e o pintor ficou esquecido por gerações.
A vanguarda em Paris
Natural de Salvador, Emmanuel Zamor era filho de pais escravizados. Pouco tempo após o seu nascimento, ele foi entregue aos cuidados da congregação do Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia, na capital baiana.
Ainda pequeno, Emmanuel foi adotado por um casal de estrangeiros de passagem por Salvador — o cozinheiro congolês Pierre Emmanuel Zamor e a costureira francesa Rose Neveu. Mudou-se então para a França com os pais adotivos. Demonstrando grande interesse pelas artes, passou a se dedicar ao estudo da música e do desenho.
Já adolescente, Emmanuel ingressou na Academia Julian, então uma das mais célebres escolas de arte da Europa. Logo começou a atuar como cenógrafo e pintor profissional, montando seu próprio ateliê. Especializou-se na pintura de paisagens rurais e naturezas-mortas, produzindo composições de tom sereno e contemplativo, marcadas por cores sóbrias, pinceladas vigorosas e finalização algo rústica.
Suas composições denotavam a forte influência do realismo da Escola de Barbizon, notável sobretudo no cuidado com a representação da luz natural e das nuances atmosféricas.
Ao longo de sua carreira, Emmanuel incorporou diversos elementos típicos das renovações estéticas do impressionismo, o que indica que o artista provavelmente teve contato com nomes como Cézanne, Renoir, Degas, Monet, Pissaro e Sisley.
A presença de obras do pintor em importantes coleções particulares oitocentistas evidenciam sua relevância no cenário artístico europeu. Essa impressão é reforçada pela existência uma fotografia de Emmanuel atribuída a Félix Nadar — renomado fotógrafo conhecido por retratar os mais proeminentes artistas e intelectuais da Paris do século 19.

wikipedia
Passagem pelo Brasil e carreira musical
Emmanuel retornou ao Brasil em 1860, fixando-se em Salvador. Impactado pela luminosidade do céu da Bahia, o pintor incorporou novas cores à sua paleta, substituindo os tons terrosos de suas paisagens europeias por cores luminosas e vívidas, ao mesmo tempo em que buscava ampliar seu repertório pictórico com elementos tropicais de sua terra natal.
A maior parte das obras que Emmanuel produziu no Brasil, entretanto, foram destruídas em um incêndio que atingiu sua residência. A estadia do pintor no país durou até 1868. Informado sobre a morte do pai adotivo, Emmanuel retornou para a França, onde permaneceria até o fim da vida.
Em 1870, Emmanuel estreou no Salon de Paris com uma pintura intitulada “Corvo atacando uma caveira”. Ele também participaria de várias edições do Salão de Artistas Franceses entre 1880 e 1897.
Paralelamente, Emmanuel firmou uma sólida carreira como músico, atuando como compositor e letrista. Seu repertório foi bastante influenciado por nomes como Maurice Ravel, Louis Moreau Gottschalk, Camille Saint-Saëns e Reynaldo Hahn.
Emmanuel fundou a editora musical La Chanson Joyeuse e produziu mais de 200 canções, parte das quais em parceria com seu filho, o pianista Antoni Manuel, vulgo Harry Zamore. Também foi fundador e presidente da sociedade lírica e dramática Les Modernistes, que se apresentava regularmente no Hôtel Moderne.
O sucesso de Emmanuel, entretanto, não se converteu em prosperidade financeira e o artista enfrentou dificuldades na velhice. Os últimos registros de sua vida o descrevem viúvo e doente, passando por sérias privações. Emmanuel Zamor faleceu em Creteil, nos arredores de Paris, em 6 de março de 1919, aos 78 anos de idade.
Reconhecimento póstumo
No Brasil, a crítica especializada ignorou Emmanuel Zamor e o artista permaneceu desconhecido e ausente da historiografia ao longo de quase todo o século 20.
Sua “redescoberta” ocorreu nos anos 80, quando o marchand Jean-Claude Castoriano adquiriu um conjunto de 37 pinturas do artista, que foram postas a leilão na Christie’s de Paris. Castoriano então emprestou as obras para uma exposição sediada no MASP em 1985 e historiadores brasileiros se debruçaram sobre a trajetória e a produção do pintor.
Outra exposição com obras de Emmanuel foi realizada pela FAAP em 1990. A maior parte de suas pinturas permanece em coleções privadas, tanto no Brasil como na Europa.
Já as suas partituras estão conservadas no acervo da Biblioteca Nacional da França. Em São Paulo, exemplares de seu trabalho podem ser vistos no MASP, no Museu de Arte Brasileira da FAAP e no Museu Afro Brasil.
O post Emmanuel Zamor, vida e obra de um impressionista baiano apareceu primeiro em Opera Mundi.