Uma empresa brasileira aumentou em 35% o faturamento após reduzir a jornada de trabalho. O dado vem do Coffee Lab, comandado pela empresária Isabela Raposeiras, e reforça um debate que ganha força no país: o fim da escala 6×1.
Seis dias de trabalho e um de descanso ainda organizam a rotina de milhões de brasileiros. O modelo, no entanto, tem sido questionado por seus impactos na saúde, na produtividade e na qualidade de vida. A resistência à mudança costuma se apoiar no argumento de que reduzir a jornada comprometeria a economia.
No artigo “6×1 versus 5×2”, publicado na revista Teoria e Debate, o pesquisador Antonio Albino Canelas Rubim observa que esse tipo de reação se repete historicamente sempre que direitos trabalhistas entram em disputa, quase sempre associando produtividade a jornadas mais longas, sem considerar as condições reais de trabalho.
No Coffee Lab, a experiência seguiu outro caminho. Isabela afirma que nunca adotou a escala 6×1. Após operar por anos no modelo 5×2, a empresa implementou, há cerca de um ano, a escala 4×3.
“Eu nunca admiti a escala 6×1. Já fui vítima dela como CLT e decidi que não faria isso quando abrisse minha empresa”, diz.
O resultado, segundo ela, foi imediato. “Tivemos 35% de aumento no faturamento, sem ampliar a operação nem mexer no cardápio.”
Além do crescimento da receita, a empresa registrou redução de 8% na rotatividade de funcionários, queda nos custos com rescisões e diminuição nos afastamentos por motivos de saúde.
Para a empresária, a mudança exige organização. “O que vai doer é o esforço de gerir melhor. Empresas com processos organizados e equipes descansadas funcionam melhor.”
A discussão também evidencia um recorte social. Setores que operam sob a lógica da 6×1, como comércio e serviços, concentram trabalhadores mais expostos ao desgaste físico e emocional.
“Muitos dos que criticam nunca tiveram que pegar condução, descansar só um dia e ainda cuidar da casa”, afirma.
Entre mulheres, o impacto é ainda mais sensível. No Coffee Lab, funcionárias relatam mais tempo com os filhos e menor exposição a riscos no deslocamento urbano.
“É um descanso físico, emocional e mental. Isso muda tudo”, diz.
Movimento pressiona por mudança
O movimento Brasil Quer Mais Tempo reúne trabalhadores, empresários e pesquisadores em defesa da redução da jornada, com foco no fim da escala 6×1.
A atuação se concentra em três frentes: mobilização no Congresso, estímulo à adoção de novos modelos por empresas e disputa de narrativa sobre produtividade. O grupo também mantém canais diretos para orientar empresas interessadas na transição.
A participação de empresários no movimento tem reposicionado o debate, deslocando-o do conflito entre capital e trabalho para uma discussão sobre eficiência e gestão.
“Os empresários vão ser beneficiados. Eu tenho certeza disso porque sou testemunha”, afirma Isabela.
Redução da jornada avança no mundo
A Organização Internacional do Trabalho recomenda há décadas a jornada de 40 horas semanais e aponta que jornadas extensas aumentam doenças, acidentes e limitam ganhos de produtividade.
Na América Latina, o movimento de redução já está em curso. O Chile aprovou em 2023 a diminuição gradual da jornada para 40 horas. A Colômbia também está em transição e chegará a 42 horas semanais. No México, a meta é reduzir de 48 para 40 horas até 2030.
O Equador adota a jornada de 40 horas desde 1980 e, em 2026, passou a permitir modelos como quatro dias de trabalho com três de descanso. A Venezuela fixou a jornada em 40 horas ainda em 2012.