Entre a riqueza de recursos e os desafios demográficos, as lideranças defendem sistemas mais robustos de educação e proteção das riquezas locais
Sob a mediação de Maria Carlotto, conselheira da Fundação Perseu Abramo, o 8º Congresso do PT tornou-se palco de uma reflexão profunda sobre as engrenagens políticas e socioeconômicas que movem a África contemporânea. Realizada nesta sexta-feira (24), a mesa de debates da Jornada Internacional conectou vozes de diferentes nações africanas em torno de um objetivo comum: a superação da pobreza e da desigualdade por meio de sistemas políticos robustos. O encontro evidenciou que o esforço de desenvolvimento do continente hoje exige, acima de tudo, o controle sobre suas próprias riquezas e destinos.
O debate foi atravessado por uma memória histórica rigorosa, pontuando que, embora a África seja o continente mais rico do planeta em termos de recursos naturais, sua trajetória foi marcada por séculos de colonialismo, escravidão e o sistemático desvio de riquezas e capital humano. O diplomata e escritor Ahamed Mulay Ali Hamadi da República Árabe Saharaui Democrática reforçou que a consciência política que floresceu nas lutas por independência no século 20 agora enfrenta uma nova e sofisticada roupagem: o neocolonialismo. Segundo os painelistas, esse sistema se manifesta tanto na manutenção de interesses europeus sobre solos africanos quanto no apoio a elites locais que priorizam interesses pessoais em detrimento do bem comum, alimentando instabilidades que abrem margem para o avanço do terrorismo e do tráfico de drogas.
A geopolítica do Norte da África ocupou lugar central na discussão, evidenciando as feridas abertas de conflitos prolongados. Foi recordado o sacrifício da Argélia, que custou a vida de um milhão de cidadãos na luta contra o domínio francês, e a atual situação de tensão envolvendo o Marrocos e a República Árabe Saharaui Democrática. Os palestrantes destacaram a gravidade do muro de mais de 2.700 km que divide o Saara Ocidental, uma das maiores barreiras militares do mundo, e criticaram as manobras diplomáticas da era Trump que, ao ignorar o direito à autodeterminação, acirraram uma guerra que já perdura por meio século. A análise sublinhou que os problemas geográficos e geopolíticos da região não são fruto do acaso, mas da disputa feroz pelas riquezas estratégicas do mundo árabe-africano.
Ao olhar para o futuro, o foco se deslocou para a África Subsaariana e os desafios demográficos de países como Angola. Mário Pinto de Andrade, deputado e secretário de assuntos políticos e eleitorais do MPLA, trouxe dados que revelam a vitalidade e a pressão social do continente, já que em Angola, cerca de 70% da população tem menos de 25 anos. Esse bônus demográfico, embora represente uma força produtiva imensa, impõe desafios colossais ao Estado. Atualmente, com um crescimento populacional acelerado e uma média de oito filhos por família, o sistema educacional angolano, apesar de acolher milhões de crianças, ainda enfrenta o gargalo de manter cerca de quatro milhões de jovens fora das salas de aula.A conclusão do encontro reafirmou que a estabilidade de nações como Angola, Congo e Moçambique, ricas em petróleo e minérios, depende da capacidade de converter esses recursos em desenvolvimento humano e infraestrutura. Para os conferencistas, o fortalecimento de um sistema africano robusto e a integração com parceiros do Sul Global, como o Brasil, que compartilha laços ancestrais com o continente, são os caminhos fundamentais para que o povo africano, que por tanto tempo foi silenciado, assuma definitivamente o protagonismo de sua própria história e economia.