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Enfrentar as violências, ocupar e organizar!

Mulheres Sem Terra. ocupam Fazenda Santo Antônio, em Presidente Epitácio. Foto: MST em SP

Por Setor de Gênero do MST
Da Página do MST

Já não há quem nos detenha,
nós somos a tempestade”.
Metal e sonho”

Pedro Tierra

Partilhando coragem, força, beleza e unidade, as ações da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, de 2026, fizeram soprar os aromas de março em todo o país, expressando uma capacidade cirúrgica de denunciar o avanço das violências do capital e do agronegócio, sobre nossos corpos, territórios e natureza.

No dia nove de março, o Brasil foi sacudido pelas mulheres do campo, mostrando que não é mais possível aceitar passivamente uma sociabilidade doente, que promove uma verdadeira guerra contra meninas e mulheres, e a vergonhosa marca de maior concentração de terras no mundo, onde 1% dos proprietários é dono de quase 50% das terras agricultáveis.

Alerta! O raiar do dia nove de março de 2026 foi um convite a despertar!

As lutas do Dia Internacional das Mulheres reivindicam o fim da violência de gênero e nos chamam atenção para o fato de que o feminicídio não é apenas um homicídio cuja vítima é mulher. O feminicídio é a expressão mais radical do sistema capitalista, racista e patriarcal na qual a vida das mulheres é o principal alvo. Vida eliminada – a que ponto chegamos? Como podem os homens – boa parte da classe trabalhadora – projetar a eliminação das mulheres? A quem interessa o assassinato de mulheres e pessoas negras?

A quase exclusividade masculina na autoria desses crimes indica que estamos diante de uma forma de violência vinculada a padrões de masculinidade que associam poder, controle e posse à identidade masculina. Nosso alerta é que este padrão de masculinidade não serve para a construção da Reforma Agrária Popular, que o sujeito que violenta é o sujeito contra revolucionário, reacionário!. É preciso ter coragem individual e coletiva para derrotar os produtos do patriarcado e suas mazelas.

Nos marcos dos 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, seguimos denunciando a impunidade, as violências e a concentração fundiária como sendo uma das principais expressões da desigualdade em nosso país. A sanha do agronegócio pela apropriação da terra se mantém como foco permanente de tensão, violência e ataque aos direitos da natureza e seus povos. No entanto, a despeito disso, o setor segue usufruindo de um conjunto de benesses, enquanto a pauta da Reforma Agrária é paralisada.

Esta leitura, feita com muita materialidade pelas mulheres Sem Terra, foi o que lhes possibilitou definir a terra como pauta central da jornada de luta de 2026, inclusive pelo fato do governo não ter dado respostas ao passivo de mais de 100 mil famílias acampadas.

A alvorada feminista rompe a manhã, as cercas do latifúndio, ocupa os trilhos, as estradas, as empresas que disseminam a morte, fazendo brotar, insurgente e criativamente, o protagonismo das mulheres. As mobilizações de março recolocam ensinamentos para a classe: que a nossa principal linguagem para a garantia da terra são as lutas, que a tática da ocupação de terras é atual, necessária e legítima, mesmo em período eleitoral em que as disputas ideológicas são facilmente capturadas pela extrema direita para produzir desgastes nas eleições – é nosso papel tornar visível as contradições do agronegócio para o conjunto da sociedade e não recuarmos no enfrentamento à concentração fundiária em nosso país, na defesa do cumprimento da função social da terra e na conquista do direito à vida digna para o povo do campo.

Foram 16 mil mulheres mobilizadas em 24 estados e Distrito Federal. Foram marchas, bloqueios, ocupações de terra, formações políticas, ações de solidariedade, plantios de árvores, mostra de cinema, exposição fotográfica. Foram 14 ocupações de terra – latifúndios improdutivos, de chão indevidamente cercado pelo arame farpado e marcado pelo trabalho análogo à escravidão, por crimes ambientais, violência e grilagem.

A luta pela Reforma Agrária Popular tem potencial revolucionário, ao se propor a questionar e enfrentar a propriedade privada, a espoliação da natureza, cerne da acumulação de capital no capitalismo periférico, e construir um caminho para a emancipação humana. O lema do 8 de março – Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar! – foi o que orientou este debate e o esforço organizativo das mulheres de motivar acampamentos e assentamentos a se compreenderem como territórios de luta, espaços de formação e combate às diversas formas de opressões existentes.

O enfrentamento ao capital no campo, materializado no agronegócio, passa pela nossa capacidade, enquanto classe trabalhadora, de organizar e fortalecer o protagonismo das mulheres na construção de um projeto popular para o Brasil. As mulheres reivindicam a condição de serem sujeitas das suas próprias histórias e construírem novas relações humanas e com a natureza, nas quais a violência não tenha lugar. Quando uma mulher camponesa da classe trabalhadora avança, toda a sociedade avança com ela.

Como afirmou Gilmar Mauro, recentemente numa análise de conjuntura: “a revolução será construída por mulheres e homens, mas certamente será impulsionada pelas mulheres”. Há sinais concretos desta dianteira revolucionária própria de quem sente na pele os açoites das opressões. Voltamos para o dia internacional de lutas das mulheres – 8 de março – para lembrarmos que a origem da data marca o início do que viria a ser a Revolução Russa, desde a luta iniciada pelas mulheres, em 1917, por pão e paz. De que matéria são feitas as mulheres trabalhadoras? Certamente as dores convertidas em fúria organizada e a defesa intransigente da alegria são sementes para a revolução.

Este foi um março para celebrar a capacidade coletiva e combativa das mulheres de sacudir as estruturas, de mobilizar a sociedade contra todas as formas de exploração, repressão e aprisionamento e para aquecer o abril nas lutas que seguiram. Que os aromas de março sigam ocupando as ruas e os territórios com um “mar de bandeiras” erguidas em defesa da vida das mulheres, da classe trabalhadora organizada e dos processos revolucionários em curso na América Latina e no mundo.

Invocamos a memória das Revoluções,
das madrugadas em flor,
para declarar independência de tudo o que nos esmaga.

Nu Bai! Dino D’Santiago

*Editado por Fernanda Alcântara

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