
Com apagões que chegam a 20 horas diárias, a ilha de Cuba enfrenta uma crise energética sem precedentes, agravada por uma nova ofensiva diplomática e econômica da administração de Donald Trump. O governo estadunidense, sob o pretexto de buscar um “acordo”, intensifica o bloqueio para forçar concessões políticas em um cenário de vulnerabilidade extrema.
Chantagem como método
A Agência Reuters relatou que sábado (31), a bordo do Air Force One, Trump afirmou “acreditar” que os Estados Unidos “chegariam a um acordo” com Cuba, reiterando o que havia dito, anteriormente, em Mar-Al-Lago, ao condicionar o fim da pressão a um “acordo” em termos favoráveis aos EUA. “Eles não têm dinheiro. Não têm petróleo. Viviam da Venezuela, e nada disso está chegando agora”, afirmou. Analistas caracterizam a postura de Washington como uma reedição da “diplomacia canhoneira” do século XIX. Trump não esconde o objetivo de estrangular o regime cubano.
A tática de “pressão máxima” é um padrão recorrente da atual administração estadunidense. A coerção foi usada contra a Venezuela em sanções e operações que levaram ao isolamento do país e ao sequestro de Maduro. O método também é aplicado contra o Irã e a Coreia do Norte, com o uso de sanções e ameaças militares para forçar negociações bilaterais. Até mesmo a imposição de tarifas sobre aço, alumínio e questões migratórias foram usadas para obter alinhamento político e comercial de parceiros como Brasil e México.
O colapso energético e o cerco ao combustível
A crise é técnica e financeira. Segundo a União Elétrica de Cuba, o déficit no horário de pico chega a 1.910 MW, com uma oferta de apenas 1.160 MW para uma demanda de 3.040 MW. O cenário é resultado de falhas em termelétricas obsoletas e da impossibilidade de adquirir peças e insumos devido ao bloqueio.
A situação se agravou desde que Trump assinou uma ordem executiva declarando “emergência nacional” em relação a Cuba, classificando a ilha como uma “ameaça incomum” à segurança dos EUA. A medida autoriza tarifas punitivas contra nações que vendam petróleo a Havana, o que afeta diretamente o fornecimento vindo do México e da Venezuela — país que foi severamente atingido por Washington.
Resistência e mobilização nacional
A Rússia, por meio da porta-voz Maria Zakharova, condenou as sanções a Cuba, classificando-as como “categoricamente inaceitáveis” e uma violação flagrante do direito internacional.
Internamente, o governo cubano responde com mobilização defensiva. O presidente Miguel Díaz-Canel liderou exercícios táticos no Dia Nacional de Defesa, reforçando a doutrina da “Guerra de Todo o Povo”. O treinamento envolveu desde generais até brigadas sanitárias e de proteção civil, sob a premissa de que a soberania depende da organização popular.
O embaixador de Cuba na Colômbia alertou que as ameaças atuais são as mais graves nos 67 anos desde a Revolução. Enquanto Washington utiliza o desabastecimento como arma de coerção — forçando a ilha a aceitar termos “antes que seja tarde demais”, o cotidiano cubano é marcado pela paralisia dos transportes e serviços básicos.
Para Havana, a proposta de “acordo” de Trump assemelha-se a uma rendição incondicional sob chantagem. A resistência da ilha testa, mais uma vez, os limites do direito internacional frente à pressão econômica da superpotência.
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