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Entre o Livro Amarelo e a “vala”: por dentro da convenção do Missão, de Renan Santos

Nota da Redação: O repórter que acompanhou presencialmente o congresso preferiu não ser identificado como autor desta reportagem.

As luzes do auditório se apagaram. Lanternas e celulares foram erguidos. Bastões luminosos, distribuídos embaixo de algumas cadeiras, começaram a se mover de um lado para o outro, “tipo o show do Coldplay”, como havia orientado o mestre de cerimônias. O jingle foi tocado uma vez. Renan Santos pediu que tocassem novamente, para que os participantes decorassem o refrão e o divulgassem nas redes.

Depois de aproximadamente seis horas de discursos, vídeos, juramentos e apresentações, o primeiro Congresso Nacional do Partido Missão terminou com a promessa de que todos voltariam a se encontrar em Brasília, desta vez para a posse de Renan como presidente da República.

Realizado no sábado, 1º de agosto, o evento oficializou a candidatura do fundador do Movimento Brasil Livre à Presidência e do tenente-coronel Haroldo Medina a vice-presidente. Também apresentou candidatos aos governos estaduais, lançou a versão definitiva do Livro Amarelo, anunciou a criação de um instituto partidário e convocou os apoiadores a participar da campanha por meio de um aplicativo próprio.

Durante todo o encontro, o ambiente alternou características de convenção partidária, lançamento de produto e espetáculo preparado para as redes sociais. Havia lojas para a venda de livros e outros materiais, espaços destinados ao aplicativo e uma produção permanentemente orientada à transmissão. Pedidos de curtidas, gravações, marcações e compartilhamentos atravessaram a programação.

O Livro Amarelo em capa de tecido

O principal produto apresentado foi o Livro Amarelo, definido pelo partido como seu programa nacional. A obra foi lançada em diferentes versões, incluindo uma edição de luxo com capa de tecido, caixa especial, páginas com bordas pretas e ilustrações.

Segundo os dirigentes do Missão, a venda dos fascículos anteriores ajudou a financiar a coleta de assinaturas e a própria criação da legenda. Kim Kataguiri afirmou que o partido foi construído com o apoio dos militantes e dos compradores do material, sem depender de grandes financiadores ou da estrutura de outras siglas.

O livro foi dividido em três blocos. “Estado Novo” reúne as reformas econômicas e administrativas; “Reformas de Base” apresenta propostas de infraestrutura e produtividade; e “País do Futuro” projeta a ideia de desenvolvimento defendida pelo grupo.

O congresso também marcou a criação do Instituto Livro Amarelo. A nova instituição deverá pesquisar políticas públicas, atualizar o programa e formar candidatos e dirigentes do partido. A proposta é elaborar versões estaduais e municipais do livro, destinadas a servir de base para as candidaturas da legenda.

A organização anunciou chapas nos 27 estados e apresentou nove candidatos a governador. No palco, o responsável pela seleção das candidaturas, Oliver Delgado, afirmou que um dos critérios era identificar “cheiro de picareta”. Os escolhidos, acrescentou, deveriam estar preparados para perder dinheiro, tempo, amigos e até mesmo a eleição em nome do projeto partidário.

Aplicativo, ranking e ingressos de R$ 7 mil

Outra parte central da estratégia apresentada foi o aplicativo do Missão. A ferramenta reúne códigos de entrada, atividades de campanha e um ranking de participantes.

Durante o evento, Amanda Vettorazzo anunciou os usuários que ocupavam as primeiras posições e pediu que os presentes baixassem o aplicativo. Valete e Valete Plus, plataformas ligadas ao grupo, também foram citadas como parte de uma estrutura própria de comunicação e distribuição de conteúdo.

O aplicativo não apareceu apenas como um canal para receber informações. Foi apresentado como uma ferramenta para organizar tarefas, estimular a participação e converter engajamento digital em atividade de campanha.

Os organizadores também fizeram questão de destacar que o congresso era pago. Em diferentes momentos, dirigentes celebraram o fato de os apoiadores terem comprado ingressos. Alguns deles, segundo as falas no palco, custaram até R$ 7 mil. O pagamento foi tratado como demonstração de “compromisso com a causa”.

O “remédio amargo” de R$ 3,3 trilhões

Na parte econômica, Kim Kataguiri apresentou a previsão de um ajuste fiscal de R$ 3,3 trilhões ao longo de dez anos. Segundo ele, os recursos seriam direcionados à redução de impostos, à diminuição do endividamento e a investimentos.

Entre as propostas mencionadas estavam a construção de 11 mil quilômetros de ferrovias, data centers, desenvolvimento de inteligência artificial, processamento de terras raras, qualificação profissional, compra de equipamentos para as forças de segurança e a construção do que foi chamado de “maior presídio das Américas”.

Os próprios integrantes do partido classificaram parte das reformas como um “remédio amargo”. Kataguiri afirmou que um eventual governo sofreria críticas no início do mandato por alterar despesas obrigatórias, benefícios e direitos sociais.

O Bolsa Família apareceu nesse contexto. No palco, o deputado disse que pessoas consideradas saudáveis e aptas ao trabalho receberiam uma oferta de emprego. Caso a recusassem, perderiam o benefício porque, em suas palavras, “a responsabilidade é sua, não é da sociedade”.

A proposta foi apresentada como uma tentativa de substituir a dependência de programas sociais por emprego e qualificação. Também surgiram falas que associavam o recebimento do benefício à recusa ao trabalho, acompanhadas de exemplos de homens que estariam em casa durante o horário comercial.

“Prendeu-matou”, cadeia ou vala

A segurança pública ocupou uma parte expressiva do congresso. O programa foi resumido em diferentes momentos pela expressão “prendeu-matou”, acompanhada da promessa de retomada dos territórios dominados por organizações criminosas.

Haroldo Medina anunciou que, em caso de vitória, comandaria pessoalmente uma das primeiras operações do novo governo no Rio de Janeiro.

“Morro do Alemão, atenção, se preparem”, declarou o candidato a vice, antes de dizer que pediria ao presidente autorização para “botar aquela bandidagem toda a correr”.

Kataguiri sugeriu que Renan Santos realizasse pronunciamentos nacionais semanais e exibisse um mapa do Brasil com uma “mancha vermelha” sobre os territórios controlados pelo crime organizado. A cada programa, a população acompanharia a redução dessa área.

O deputado propôs ainda que fossem mostrados os rostos das lideranças criminosas “exterminadas pelo Estado brasileiro”. A medida foi descrita como parte de um “choque de lei e ordem”.

Durante os discursos estaduais, a linguagem reapareceu. Guto Zacarias afirmou que criminosos teriam duas alternativas: “ou a cadeia, ou a vala”. O candidato ao governo do Ceará, delegado Huggo Leonardo, declarou que mudaria o país “a ferro e fogo” e que, se fosse necessário cair, o grupo cairia “atirando”.

Nove soldados e uma arma de vingança

O vocabulário militar atravessou não apenas as propostas para a segurança pública, mas também a forma como o partido apresentou sua militância e suas candidaturas.

Os nove candidatos aos governos estaduais participaram de um juramento coletivo. O texto os descrevia como “um exército de milhões encarnado em nove soldados” e como “nove homens prontos para a luta”. Diante da plateia, prometeram lealdade, coragem e sacrifício pelo Brasil.

Pouco antes da entrada de Renan Santos, Kim Kataguiri afirmou que o partido havia desembarcado na “ilha do inimigo” e deveria incendiar os próprios navios, eliminando qualquer possibilidade de recuo.

“O Partido Missão é uma arma de vingança a ser utilizada pelo povo brasileiro”, declarou. Segundo ele, a vingança seria dirigida contra o petismo, o bolsonarismo, o Centrão e as principais facções criminosas do país.

Kataguiri também disse desejar que Lula e Flávio Bolsonaro dividissem a mesma cela. Ao apresentar Renan, afirmou que ele não era o presidente que o Brasil merecia, mas “o presidente que o Brasil precisa”.

No discurso principal, Renan retomou a trajetória do MBL desde as mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Disse acreditar em predestinação e repetiu diante da plateia:

“Somos nós os escolhidos.”

O presidenciável apresentou o grupo como uma geração testada por derrotas, cancelamentos, dificuldades financeiras e ataques. A campanha seria mais uma etapa dessa trajetória.

A dimensão religiosa também apareceu ao longo do evento. Haroldo Medina afirmou que Renan estava “ungido” como próximo presidente. Outros candidatos disseram ter recebido revelações divinas sobre a missão de mudar o Brasil.

“Como fosse a vingança do povo”

O encerramento reuniu os principais elementos usados durante o congresso: espetáculo, oposição ao PT e mobilização digital.

O público recebeu a orientação de preparar lanternas e celulares, gravar o momento e marcar as contas do partido, de Renan Santos e do MBL.

O jingle dizia que “a estrela não vai brilhar” e relacionava a cor vermelha ao sangue de pessoas que “eles matam sem parar”. No refrão, o voto no número 14 aparecia “como fosse a vingança do povo”.

Depois da primeira execução, Renan pediu que a música fosse tocada novamente para que os participantes decorassem e divulgassem a letra. Explicou que a canção representava a superação da estrela do PT pelo sol usado como símbolo de sua campanha.

O Missão tenta ocupar um espaço próprio na direita, atacando simultaneamente o PT e o bolsonarismo. O que apresentou em seu primeiro congresso, porém, esteve longe de representar uma desradicalização. A novidade estava na embalagem: mais jovem, digital, tecnocrática e organizada, mas ainda sustentada por discursos de violência, autoritarismo, eliminação de direitos, guerra e vingança.

Com as luzes apagadas, o refrão foi repetido. Os celulares permaneceram erguidos. E o público voltou a entoar o lema que atravessara as seis horas de evento:

“O futuro é glorioso.”