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Entrega de motocultivadores fortalece cooperativas e associações da Reforma Agrária em AL

Mecanização fortalece a Reforma Agrária, a massificação da agroecologia, e o trabalho das mulheres e juventude em áreas do MST. Foto: Lucas Gabriel

Por Ricardo Marques
Da Página do MST

O fortalecimento da produção de alimentos saudáveis passa também pelo acesso à tecnologia na agricultura familiar campensa. Nesta quinta-feira (2), cooperativas e associações da Reforma Agrária em Alagoas receberam oito motocultivadores durante atividade realizada no Centro de Formação Zumbi dos Palmares, em Atalaia. A entrega representa mais um passo na garantia de condições dignas de para a produção, reafirmando que o acesso à mecanização deve ser um direito dos trabalhadores e trabalhadoras rurais e não um privilégio do agronegócio.

A mecanização adaptada à agricultura familiar compensa tem sido defendida pelo MST como uma ferramenta estratégica para ampliar a capacidade produtiva, reduzir o esforço físico das trabalhadoras e trabalhadores rurais e fortalecer a produção agroecológica. Nos últimos anos, o Movimento vem debatendo nacionalmente a necessidade de políticas públicas voltadas para máquinas e implementos pensados para a realidade dos pequenos produtores e produtoras, rompendo com um histórico em que a tecnologia agrícola foi direcionada quase exclusivamente ao agronegócio.

Tecnologia para quem produz comida de verdade

 

Foto: Lucas Gabriel

Durante a entrega, Elizeu José, superintendente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em Alagoas, ressaltou que a mecanização da agricultura familiar é uma necessidade histórica. Segundo ele, embora a mecanização esteja presente na agricultura brasileira desde o início, o acesso às tecnologias sempre esteve concentrado nas mãos do agronegócio.

Para Elizeu, o desafio é garantir que trabalhadores e trabalhadoras rurais também tenham acesso a esses equipamentos, produzindo alimentos saudáveis, livres de veneno, sem que isso signifique jornadas marcadas pelo sofrimento e pelo desgaste físico. Em sua avaliação, a tecnologia já existe e precisa ser democratizada para quem produz a comida que chega à mesa do povo brasileiro.

Para quem vive diariamente a realidade da produção, a chegada dos equipamentos representa uma mudança concreta no trabalho.

Assentada no Assentamento Pé de Serra, em Joaquim Gomes, Zona da Mata de Alagoas, Dona Marinalva destacou que os equipamentos terão impacto direto na rotina das famílias. Ela explicou que a comunidade produz macaxeira, batata, milho, feijão, cará e diversos outros alimentos, mas que grande parte do trabalho ainda é realizada de forma manual. Com os novos equipamentos, atividades que atualmente exigem dias de esforço físico poderão ser executadas com mais rapidez, reduzindo o desgaste das trabalhadoras e trabalhadores e contribuindo para ampliar a produção. 

Mecanização fortalece a Reforma Agrária, as mulheres e juventude

Para o MST, garantir acesso às tecnologias também significa fortalecer o Projeto de Reforma Agrária Popular. Integrante da coordenação nacional do MST em Alagoas e assentada na região agreste do estado, Alcione Barros destacou que a chegada dos equipamentos representa um importante incentivo para fortalecer a autonomia das mulheres nos lotes e quintais produtivos. Segundo ela, ampliar as condições de produção das mulheres significa criar mais possibilidades de geração de renda, independência e autonomia, fortalecendo seu papel na produção de alimentos e no desenvolvimento dos assentamentos. 

Nessa perspectiva, a mecanização também dialoga com outro desafio histórico da Reforma Agrária: a permanência da juventude no campo. O trabalho agrícola continua sendo marcado pelo intenso esforço físico, realidade que muitas vezes leva jovens a buscarem outras possibilidades de vida fora dos assentamentos. Ao reduzir o desgaste das atividades mais pesadas e ampliar as condições de produção, equipamentos como os motocultivadores contribuem para tornar o trabalho no campo mais digno e atrativo para as novas gerações.

Foto: Lucas Gabriel

Sem substituir os saberes construídos pelas famílias camponesas nem ferramentas históricas da agricultura, como a enxada e o facão, a mecanização representa a democratização do acesso à tecnologia. Para o MST, é preciso romper com a lógica que historicamente destinou os avanços tecnológicos quase exclusivamente ao agronegócio e garantir que a agricultura familiar camponesa também tenha condições de produzir com mais eficiência, preservando a saúde das trabalhadoras e trabalhadores e fortalecendo a produção de alimentos saudáveis.

A mecanização fortalece a agroecologia

O MST compreende que a mecanização adaptada constitui uma importante ferramenta para reduzir o esforço físico, ampliar a capacidade produtiva, valorizar o trabalho das famílias camponesas e fortalecer a produção de base agroecológica.

Ao abordar a relação entre mecanização e agroecologia, Gilberto Barden, assentado da Reforma Agrária na cidade de Flexeiras, defendeu que o avanço da produção agroecológica passa necessariamente pelo debate sobre uma mecanização pensada para a agricultura camponesa. Para ele, não se trata de reproduzir o modelo do agronegócio, mas de construir uma mecanização compatível com práticas que preservem a natureza, fortaleçam a cooperação e valorizem o trabalho coletivo. 

Foto: Lucas Gabriel

Nesta mesma perspectiva, Débora Nunes, da direção nacional do MST, destacou que a conquista dos oito motocultivadores é resultado da organização da luta das famílias Sem Terra. Ela afirmou que o Movimento seguirá reivindicando condições, ferramentas e técnicas que tornem o trabalho no campo mais produtivo e menos desgastante, fortalecendo a produção agroecológica responsável por levar comida de verdade e solidariedade ao povo brasileiro, em contraposição ao modelo do agronegócio, que utiliza a mecanização para aprofundar a concentração de terras e um sistema baseado na degradação ambiental e no uso intensivo de venenos. 

Mais do que a entrega de equipamentos, a atividade reafirma uma compreensão construída pelo MST: produzir alimentos saudáveis exige acesso à terra, às políticas públicas e também à tecnologia. Democratizar a mecanização significa reconhecer o trabalho das famílias camponesas que alimentam o país e garantir que o desenvolvimento tecnológico esteja a serviço da produção de comida de verdade, da agroecologia e da dignidade de quem vive e trabalha no campo.

*Editado por Solange Engelmann

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