
Por Solange Engelmann
Da Página do MST
Nesta quinta-feira (08), data em que celebramos o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico precisamos falar sobre o papel da ciência no enfrentamento às mudanças climáticas e eventos extremos que tem atingido cada vez mais pessoas, principalmente as mais pobres e que vivem em áreas de periferias no Brasil.
Na data, criada no Brasil para valorizar a produção de conhecimento e o seu papel na melhoria da populações e no desenvolvimento, a Página do MST traz um entrevista com a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e professora de pós-graduação do curso Tecnologia Nuclear do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), na Universidade de São Paulo (USP), Luciana Vanni Gatti.
Luciana destaca a necessidade de investimentos em pesquisas e na busca de conhecimentos para enfrentar as mudanças climáticas no país.
“A única chance de termos medidas que nos protejam das mudanças climáticas ou de qualquer outro assunto, sem colocar em risco a vida das pessoas, sem causar contaminação. Tudo isso demanda que você invista no conhecimento. A pesquisa científica te dá ferramentas para solucionar problemas, avançar, trazer o bem viver”, destaca.

A pesquisadora coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), no Centro de Ciências do Sistema Terrestre/INPE; e desde 2003, atua principalmente em pesquisas na área de mudanças climáticas, com foco no papel da Amazônia na emissão e absorção de Gases de Efeito Estufa e seus efeitos nas variáveis climáticas.
Confira a entrevista na íntegra:
Qual a importância da pesquisa científica em relação à preservação e recuperação de áreas de florestas, como da Amazônia, por exemplo, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas?
A única chance de termos medidas que nos protejam das mudanças climáticas ou de qualquer outro assunto: como conseguir explorar, por exemplo, terras raras, sem colocar em risco a vida das pessoas, sem causar contaminação, tudo isso demanda que você invista no conhecimento. A pesquisa científica te dá ferramentas para solucionar problemas, para avançar, trazer melhorias, trazer o bem viver; mas para isso a gente tem que buscar como prioridade uma melhor vida, um melhor mundo para todos.
Atualmente ando decepcionada, porque quem toma as decisões não está escutando a ciência. Quem toma as decisões está primeiro levando em conta só o lucro, a balança comercial, como se isso significasse uma melhor vida para as pessoas.
O tipo de economia que a gente tem no Brasil está destruindo a natureza e acelerando os eventos extremos, que está causando danos não só materiais, como de vidas humanas a muitas pessoas.”
Eu só sei disso porque passei mais de 25 anos fazendo pesquisa científica na Amazônia e estudando qual é o papel que a floresta tem no controle do clima, e qual é o impacto das ações humanas de desmatamento, queimadas e degradação da floresta na mudança da condição climática e na aceleração dos eventos extremos. Então, nós temos a ferramenta, nós temos a solução, agora precisa tirar como prioridade o lucro, a balança comercial para que a ciência possa trazer a solução; mesmo que não seja dentro desse modelo capitalista de lucro-lucro-lucro.
O avanço da extrema direita no Brasil e no mundo tem gerado ataques à ciência. Na sua opinião, por que isso vem acontecendo?
A extrema-direita vende um modelo extremamente autoritário e, para que um sistema extremamente autoritário seja efetivo, as pessoas têm que ser facilmente enganadas. Então, as escolas, as universidades, a ciência são inimigas, porque para um sistema extremamente autoritário, a sociedade tem que ser passiva, engolir tudo, ser subserviente.
O conhecimento e as soluções que a ciência traz são incompatíveis com um sistema altamente totalitário, com a tirania e a extrema-direita. A extrema direita é exatamente o modelo da extrema tirania.
O que as pesquisas científicas indicam sobre o papel do desmatamento da Amazônia em relação às mudanças climáticas?
A destruição da floresta amazônica está de várias maneiras acelerando as mudanças climáticas globais. A falta da floresta está ajudando a desequilibrar o clima, acelerar os efeitos extremos, reduz a chuva, aumenta a temperatura e aquece os oceanos. E tudo isso também causa um efeito rebote para a Amazônia e para todos os brasileiros, porque tudo está conectado, na atmosfera não existem muros e o que acontece na Amazônia interfere no Brasil inteiro.
A Amazônia é nossa grande fábrica de chuva, e com isso ela é muito importante no controle e estabilidade do clima. Desmatar e queimar a Amazônia é acelerar as mudanças climáticas, acelerar os eventos extremos.
Quais os principais causadores do aumento do aumento na emissão dos Gases de Efeito Estufa e mudanças climáticas, apontados pelas pesquisas?
A principal causa das emissões de gases de efeito estufa no Brasil e da destruição da natureza é a pecuária. A pecuária é a maior responsável pelo desmatamento. A grandessíssima maioria das áreas desmatadas vão virar pastagem e o gado é o maior emissor em função das emissões de metano.
E quais as alternativas apontadas pela ciência para mitigar os efeitos extremos dessas mudanças no clima, garantindo a permanência das comunidades tradicionais, indígenas a produção de alimento, aliados à preservação da floresta?

Se a gente reduzisse o rebanho bovino brasileiro, seria extremamente benéfico ao Brasil. Uma maneira é a gente parar de exportar carne bovina, produzir carne apenas para o consumo dos brasileiros. E se a gente se conscientiza disso, também não precisamos consumir tanto a carne bovina, as proteínas podem ser mais variadas e vir de frango, de peixe e porcos.
Então, seria muito importante a gente ter como prioridade não a balança comercial, mas o controle do clima no Brasil e a redução dos eventos extremos. E para isso a gente precisa não apenas fazer desmatamento zero, já. Só isso não basta. Quando falo desmatamento zero, estou falando do ilegal e do legal.
A gente vai ter que recuperar toda a área perdida de florestas e matas que tínhamos até 2018, que já não era muito bom, mas nessa época gente não tinha essa quantidade enorme de eventos extremos de agora no Brasil. Nós estamos tendo muito mais eventos extremos de chuvas e ondas de calor, que estão vitimando muita gente.
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