
O governo do Equador iniciou neste domingo (15) uma operação que mobiliza cerca de 30 mil militares e impõe toque de recolher em quatro províncias do país, em meio ao avanço da presença dos Estados Unidos na política de segurança equatoriana.
A operação ocorre em um contexto de ampliação da presença dos Estados Unidos nas estruturas de segurança do país.
O Equador integra a aliança regional criada pelo governo de Donald Trump sob o nome “Escudo das Américas”, que reúne 17 países da América Latina e do Caribe e prevê coordenação militar e de inteligência sob liderança de Washington para ações contra o crime organizado na região.
Nos últimos dias, o governo equatoriano anunciou que agentes do FBI passarão a atuar permanentemente no território nacional, enquanto forças norte-americanas já prestam apoio em treinamento e inteligência às unidades equatorianas.
A medida também se dá em meio a denúncias de organizações de direitos humanos sobre abusos cometidos pelas forças de segurança durante os frequentes estados de exceção decretados pelo presidente Daniel Noboa desde 2023.
A operação foi anunciada pelo governo como uma ofensiva contra o crime organizado e ocorrerá durante duas semanas, entre a noite de domingo e o dia 31 de março.
Segundo autoridades equatorianas, cerca de 30 mil militares fortemente armados foram mobilizados para atuar em patrulhamentos terrestres, controle de estradas e operações de vigilância aérea.
O toque de recolher foi imposto nas províncias de Guayas, Los Ríos, Santo Domingo de los Tsáchilas e El Oro, regiões da costa do país que concentram parte significativa da violência ligada ao narcotráfico.
Durante quinze dias, moradores dessas áreas estarão proibidos de circular entre 23h e 5h, com exceções apenas para profissionais de saúde, equipes de emergência e viajantes com passagens aéreas.
De acordo com o ministro do Interior, John Reimberg, as forças armadas equatorianas lançarão uma “ofensiva muito forte”, com reforço de patrulhamento, uso de helicópteros, drones e veículos blindados.
Parte das operações também inclui vigilância de fronteiras, controle de vias estratégicas e ações contra atividades consideradas ilegais pelo governo, como acampamentos de mineração.
A escalada militar ocorre em um país que, embora não produza cocaína, tornou-se um dos principais pontos de saída da droga que chega aos Estados Unidos.
Localizado entre Colômbia e Peru, os dois maiores produtores mundiais da substância, o Equador registra atualmente uma das taxas de homicídio mais altas da América Latina, com 52 mortes por 100 mil habitantes, segundo dados do Observatório do Crime Organizado.
O agravamento da violência no país ocorre após anos de mudanças econômicas e políticas que alteraram o cenário social equatoriano.
Desde a ruptura com o projeto político da Revolução Cidadã liderado por Rafael Correa, o Equador foi governado por administrações de direita que implementaram políticas de austeridade, privatizações e redução de investimentos públicos, processo que atingiu áreas como educação, saúde e programas sociais.
Nesse período, a precarização do emprego, a redução de oportunidades para a juventude e o enfraquecimento de estruturas estatais coincidiram com a expansão de redes ligadas ao narcotráfico.
Entre 2018 e 2023, o número de homicídios no país triplicou, enquanto facções criminosas ampliaram sua presença em portos e rotas de exportação de drogas.
Críticos do atual governo afirmam que a resposta baseada na militarização e em sucessivos estados de exceção não enfrenta essas causas estruturais da crise e tende a aprofundar o modelo de segurança adotado pelo presidente Daniel Noboa.
Nos últimos meses, o governo equatoriano também anunciou operações conjuntas com os Estados Unidos contra grupos armados que atuam no país.
Na semana passada, o ministério da Defesa informou que um acampamento dos Comandos da Fronteira, dissidência da antiga guerrilha colombiana das FARC, foi bombardeado na província de Sucumbíos, na fronteira com a Colômbia, em uma ação realizada com apoio norte-americano.
A operação em Sucumbíos foi vista como uma provocação ao governo do país vizinho, liderado por Gustavo Petro.
Presença permanente do FBI
A ampliação da cooperação com Washington também inclui a presença institucional de agências de segurança norte-americanas no país. Em 11 de março, o governo equatoriano anunciou que firmou um memorando de entendimento com os Estados Unidos para permitir a atuação permanente de agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI) no Equador.
Segundo o ministro do Interior, John Reimberg, os agentes trabalharão de forma conjunta com uma unidade da Polícia Nacional em investigações relacionadas ao crime organizado, lavagem de dinheiro e corrupção. O FBI já cooperava com autoridades equatorianas, mas o novo acordo estabelece que essa colaboração ocorrerá de forma permanente no território do país.
O anúncio foi feito poucos dias depois de Equador e Estados Unidos confirmarem a realização de operações conjuntas contra gangues como Los Lobos e Los Choneros, grupos que Washington classifica como organizações terroristas transnacionais.
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