
O Equador rejeitou no domingo (16) todas as quatro propostas do referendo convocado pelo presidente Daniel Noboa, num resultado que amplia o isolamento político do mandatário e expõe o desgaste de sua agenda de segurança.
Com participação superior a 80% — uma das mais altas desde a adoção do voto facultativo em 2011 — o eleitorado disse “não” ao retorno de bases estrangeiras, à convocação de uma Assembleia Constituinte, ao fim do financiamento público de partidos e à redução do número de asambleístas.
Segundo o Conselho Nacional Eleitoral, com 98% das atas apuradas, o “não” venceu por 61,65% na Constituinte, 60,64% nas bases militares, 58,97% no financiamento partidário e 53,47% na reforma legislativa, consolidando o maior revés político de Noboa desde o início de seu governo.
A derrota esvazia a principal aposta do presidente, que buscava usar a consulta como instrumento para relançar sua autoridade após decisões judiciais que barraram iniciativas de linha-dura, como a castração química para estupradores e a vigilância policial sem ordem judicial.
Noboa vinha defendendo que a Constituição de 2008, aprovada no governo de Rafael Correa, se tornou excessivamente “garantista” e limitava a capacidade do Estado de enfrentar o crime organizado.
O ambiente social, porém, mostrou-se hostil à narrativa presidencial: o país vive a pior crise de segurança de sua história recente — com 6.797 homicídios intencionais apenas entre janeiro e setembro de 2025 — e um estado de exceção prolongado há mais de um ano, sem sinais de estabilização.
Mesmo assim, as propostas foram rechaçadas inclusive em regiões fortemente afetadas pela violência, sinalizando desgaste acumulado com a condução do governo.
Rejeição à ingerência e desgaste do governo
Entre os temas mais sensíveis da consulta estava a autorização para que militares dos Estados Unidos voltassem a operar em território equatoriano, possibilidade que foi derrotada por ampla margem.
A ex-candidata presidencial Luisa González, do Movimento Revolução Cidadã, afirmou que o resultado representa uma resposta direta à política externa de Noboa.
“O Executivo gastou mais de sete milhões de dólares em publicidade para governar ‘a partir das redes, da pauta, da campanha suja, da mentira’”, disse. Segundo ela, “o povo equatoriano já não cai nessas manipulações” e votou contra a tentativa de reinstalar o país “como quintal dos Estados Unidos”.
González recorreu à memória da base militar de Manta, desativada em 2009, ao dizer que “após sua saída, a segurança melhorou significativamente”, e reforçou que a votação expressou que “não queremos ingerência estrangeira; respeita-se nossa pátria, nossa soberania e nosso território”.
Analistas consultados pela imprensa equatoriana também apontaram desgaste profundo da gestão Noboa.
Mauro Andino, advogado e analista político ouvido pelo El Ciudano, classificou a derrota como um “golpe mortífero”, refletindo um eleitorado “profundamente insatisfeito com o modelo de governo” e com a ausência de resultados.
Eleitores reagiram ainda ao fim do subsídio ao diesel — medida recente que provocou protestos — e ao aumento da violência, que reduziu a confiança nas políticas do presidente.
A ex-candidata à vice-presidência Verónica Silva afirmou que a consulta não respondia às urgências cotidianas, como “a insegurança, a falta de remédios nos hospitais e a situação das crianças que abandonaram as escolas”.
Referendo amplia isolamento político de Noboa
O governo vinha fortalecendo alianças militares com os Estados Unidos, postura celebrada por Washington, que classificou Noboa como “excelente parceiro” em temas de migração e combate ao narcotráfico.
O presidente equatoriano acompanhou a secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, em visitas a bases em Manta e Salinas, que poderiam abrigar operações conjuntas caso o “sim” tivesse vencido.
A estratégia, porém, não encontrou respaldo dos equatorianos. Além de rejeitar as bases, o eleitorado recusou a proposta de reduzir o número de legisladores e decidiu manter o financiamento público aos partidos, contrariando a narrativa governista de que o Estado estaria “engessado” por proteções institucionais.
A derrota coloca Noboa diante de um cenário político delicado. Em mensagem nas redes sociais, o presidente afirmou que respeita o resultado e continuará trabalhando para “melhorar o país”, mas enfrenta um ambiente de contestação crescente.
Para analistas, o referendo não apenas enfraquece sua autoridade como limita sua margem de manobra para avançar em reformas de segurança ou aprofundar a cooperação militar com os EUA.
Silva resumiu o dilema ao afirmar que, se Noboa não mudar de rumo, “terá que se ver no espelho de ex-presidentes com tristes desfechos”, como Jamil Mahuad, Lucio Gutiérrez e Guillermo Lasso.
O recado das urnas foi explícito: a população rejeita tanto a agenda de “mão dura” quanto a dependência estratégica de potências externas — e exige respostas concretas para a crise social e de segurança que molda o cotidiano do país.
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