Nascida na periferia de Olinda, formada em Direito pelo Fies e construída politicamente no movimento estudantil, Vitória Genuino chegou à Secretaria Nacional de Juventude com a experiência de quem conhece, por trajetória própria, os desafios enfrentados por milhões de jovens brasileiros.
“Como mulher negra da periferia em uma universidade privada, cursando Direito pelo Fies, me senti chamada pela militância”, afirma. Antes de assumir o cargo no governo federal, ela integrou a União Nacional dos Estudantes, o Diretório Acadêmico de Direito e o Diretório Central dos Estudantes da Unicap, atuou na coordenação nacional do MTST e esteve à frente de mobilizações por moradia digna, trabalho e justiça social.
Em entrevista à Focus Brasil, a secretária defende que o governo Lula vive um momento de reconstrução das políticas públicas para a juventude, depois de anos de desmonte dos espaços de participação social. Para ela, o desafio é combinar políticas concretas, como ID Jovem, Pé-de-Meia, cursinhos populares, novos Institutos Federais e enfrentamento à precarização do trabalho, com novas formas de diálogo com uma geração que nem sempre se organiza pelos caminhos tradicionais da política. “Temos buscado nessa nova gestão pensar novas formas de diálogo com a juventude”, diz.
Vitória também destaca que a experiência nas lutas populares ajudou a moldar sua atuação dentro do governo. “Nos últimos tempos, cumpri muito o papel de diálogo com o Estado nas negociações das lutas que a gente fazia em Pernambuco. Essa foi uma experiência importante para minha tarefa atual, agora do outro lado”, afirma.
À frente da Secretaria, ela defende a entrega do Plano Nacional de Juventude, classificado por ela como “uma bandeira histórica”, e afirma que o atual governo retomou a juventude como prioridade: “No Lula III, esse novo momento do governo é marcado pela reconstrução das políticas públicas de fortalecimento e ampliação da juventude nos espaços”.
A presença da juventude como sujeito nas políticas públicas é relativamente recente. Quais foram as principais políticas voltadas ao jovens implementadas pelo atual governo?
Conquistamos o Estatuto da Juventude somente em 2013, com as políticas de juventude ainda não completamente fechadas. Uma das nossas lutas nessa gestão é a entrega do Plano Nacional de Juventude, que é uma bandeira histórica. É importante destacarmos a reconstrução desse espaço no Lula III, com um retorno mais forte da Secretaria Nacional de Juventude e com a consciência de que a juventude é uma das prioridades do governo Lula. Na Secretaria mantemos políticas muito importantes, como o ID Jovem, que é a nossa política mais tradicional. Mas como parte da Secretaria-Geral da Presidência, no nosso papel de interlocução com outros ministérios, é importante destacar os cursinhos populares, o Pé de Meia, a construção de novos institutos federais. No governo, quando a gente olha de forma mais ampla, não só para a Secretaria Nacional de Juventude, vemos o um avanço dessas políticas. Temos buscado nessa nova gestão pensar novas formas de diálogo com a juventude, pois avaliamos que de fato é um grande desafio. Temos pensado em estratégias para construir essa comunicação com a juventude. Lançamos recentemente um prêmio voltado para batalhas de rima, saraus e slams. No Lula III, esse novo momento do governo é marcado pela reconstrução das políticas públicas de fortalecimento e ampliação da juventude nos espaços.
No governo Lula III, houve ampliação da inserção da juventude no mercado de trabalho? E, para além disso, uma das questões que mais afligem os jovens é o acesso a emprego decente. Como estamos em relação a esse tema atualmente?
Vivemos um período histórico no qual temos a menor taxa de desemprego na juventude, mas de fato continuamos com o desafio de entender como melhorar esses empregos para os jovens. Uma das primeiras ações do ministro Guilherme Boulos assim que assumiu foi criar o GT dos trabalhadores por aplicativo, justamente por entender e priorizar as condições desses trabalhadores. Então, é um compromisso do governo dialogar com eles, e foi uma experiência importante. Conseguiu reunir trabalhadores da classe E, em sua maioria, jovens, e que eles puderam debater e construir junto com a gente um relatório que demonstrasse toda essa nova situação. E a gente tem trabalhado bastante para avançar nos direitos dos trabalhadores por aplicativo e outras áreas profissionais. Outro ponto é que o governo ter assumido de frente o combate à escala 6X1 traz uma pauta que unifica a juventude, pois é algo que vai beneficiar os jovens diretamente. O diálogo também direto com as grandes empresas é um pouco difícil do avanço desses novos direitos trabalhistas, mas o governo tem assumido com prioridade esse processo que coloca no horizonte a nossa perspectiva de melhoria das condições de trabalho.
Uma pesquisa realizada pela FES Brasil em 2025 mostra que as principais preocupações das juventudes brasileiras são pobreza, desemprego e a insegurança (61%), seguidas por violência de gênero, drogas e corrupção. Como tem sido a atuação da secretaria em relação a esses temas?
A pauta da educação dialoga com todas essas questões: o combate à evasão, a perspectiva de permanência, a ampliação de institutos federais, o combate central à violência de gênero. Temos a Secretaria Nacional de Juventude hoje, por exemplo, dialogando com o Ministério do Desenvolvimento Social e a Política Nacional de Cuidados, porque temos a perspectiva de construção de “cuidadotecas”, por exemplo, nas universidades, que são espaços onde jovens estudantes poderão deixar seus filhos enquanto estudam. Hoje, com políticas transversais dentro do governo, dialogamos com essas preocupações, entendendo porém que é um desafio muito grande e é necessário aprimorar nossa comunicação com essa juventude também.
A mesma pesquisa também aponta uma crise de confiança dos jovens em algumas instituições: 57% não confiam nos partidos, 45% desconfiam da Presidência e 42% do Legislativo. Como você vê essa questão?
Acredito que são duas questões. Primeiro, precisamos de fato nos debruçar sobre novas organizações de juventude. Esse é um desafio ao qual estamos bem atentos, pois chegamos à secretaria com uma tarefa muito clara: o fortalecimento dos movimentos estudantis, dos movimentos de juventude partidários, de quem é organizado e de fato consegue avançar na construção e na defesa de políticas. Mas existem hoje novas organizações de juventude que não estão necessariamente nesses modelos tradicionais. Por exemplo, a organização por meio da cultura. O prêmio que lançamos recentemente e a rodada pelo país que temos construído dialogando com jovens das batalhas de rima para falar sobre a vida e a política, enfim, sobre diversos temas a partir da cultura. É preciso também olhar um pouco para a perspectiva da construção do Congresso. Tivemos recentemente grandes atos nos quais mobilizamos a sociedade demonstrando como alguns parlamentares votam contra o povo, inclusive.
A juventude responde por quase metade de todas as vítimas de homicídio no país de acordo com o Atlas da Violência em 2025. E pessoas negras têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio do que pessoas brancas no Brasil. Em sua avaliação, o Brasil avançou no combate ao racismo estrutural?
Eu acho que é um trabalho longo que a gente ainda precisa construir, mas é importante falar um os avanços também. Eu, por exemplo, sou a primeira secretária negra ocupando esse espaço, e isso é importante: ter nos espaços de poder representações negras que possam dialogar diretamente com as pautas, tendo esse lugar de fala. A construção do Ministério dos Povos Indígenas, o fortalecimento do Ministério de Igualdade Racial no governo, sob a condução inicialmente da ministra Anielle e agora da ministra Raquel. O plano Juventude Negra Viva, que tem mais de dez anos, é um diálogo nosso, da Secretaria Nacional de Juventude, com o Ministério de Igualdade Racial. Penso que é um desafio que perpassa todo o debate sobre trabalho, educação e todas as áreas da vida da juventude. Mas há um esforço mútuo de todos os ministérios para a construção de saídas para melhoria da vida desses jovens negros, principalmente nas periferias do país.
Uma das iniciativas recentes da Secretaria é o Observatório Nacional das Juventudes. Já começou a ser implantado?
O observatório é uma parceria nossa com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), uma ferramenta voltada principalmente para gestores e pesquisadores de juventude. A ideia é ter um espaço unificado onde a gente possa cruzar dados de institutos e instituições que produzem informação e reunir dentro de uma única ferramenta. E também há a perspectiva de formar uma rede de pesquisadores jovens e de quem pensa juventude Então, a ideia é um pouco disso. O observatório está em construção, mas já começa pegando temas principais: trabalho, segurança pública, saúde.
Qual sua expectativa em relação às eleições de 2026? Conseguiremos eleger mais jovens, principalmente comprometidos com as políticas progressistas, com os avanços do país de modo geral?
Temos conversado bastante com gestores de juventude e quem toca a pauta de juventude pelo país acompanhando o nosso ministro Guilherme Boulos e outros ministérios também, trabalhando para o fortalecimento dos espaços de gestores de juventude, que eu acho que é importantíssimo. A gente vê muitas experiências pelo país de como a política de juventude é direcionada. Então, vai ter um município que vai falar de cultura, esporte, lazer e juventude. Em outro estado, de outras políticas sociais. Temos trabalhado para ser ponte entre parlamentares jovens, gestores jovens e o governo federal como uma forma de fortalecimento e territorialização das nossas políticas. E pensando um pouco no outro lado, a sociedade civil pode destacar o papel do governo Lula na reconstrução dos espaços de participação. O nosso ministério tem a Secretaria Nacional de Participação Social, a Secretaria Nacional de Diálogos e houve um longo trabalho de reconstrução desses espaços.