
Neste verão, Marina Roldan, advogada de Granada, recebeu um telefonema que sua família aguardava há gerações: o corpo de seu avô, Fermín Roldán García, morto pelos esquadrões de execução franquistas em 1936, havia sido finalmente localizado em uma ravina em Víznar. O fiscal e sindicalista socialista estava entre as milhares de vítimas da brutal repressão iniciada durante a Guerra Civil Espanhola e consolidada ao longo dos 36 anos da ditadura de Francisco Franco.
Ao recordar o momento, Marina se emociona: “Pensei no meu pai e nos meus tios, que teriam querido receber essa notícia”. Seu avô foi executado quando seu pai tinha apenas dez meses de vida.
A entrega dos restos mortais devolve dignidade às famílias e avança lentamente sobre um legado traumático: a Espanha ainda tem cerca de 6 mil valas comuns não identificadas, espalhadas por bosques, cemitérios e zonas rurais.
Cinco décadas após o franquismo, nostalgia cresce entre jovens
Nesta quinta-feira, a Espanha marca 50 anos do fim da ditadura, mas o país vive uma contradição. Pesquisas recentes mostram que 20% dos jovens entre 18 e 24 anos consideram o regime “bom” ou “muito bom”, um dado alarmante para historiadores e educadores.
Professores relatam aumento de discursos influenciados por redes sociais, especialmente no TikTok, onde influenciadores e grupos de extrema-direita promovem versões idealizadas da ditadura.
“Os alunos dizem que era um período melhor, que não havia feminismo ou imigração. É uma visão totalmente distorcida”, afirma José García Vico, professor de economia na Andaluzia. Ele relata episódios em que pais defenderam filhos que gritavam “Viva Franco!” em sala de aula, alegando “liberdade de expressão”.
O avanço da extrema-direita e a disputa pela memória histórica
A ascensão do partido de extrema-direita Vox, que hoje beira 20% dos votos, também repercute nessa nostalgia. O partido rejeita a política de memória histórica e critica abertamente as exumações — incluindo a retirada oficial dos restos de Franco do Vale dos Caídos em 2019.
Analistas afirmam que o Vox reproduz mensagens que romantizam o período pós-Guerra Civil como era de “progresso” e “unidade nacional”, estratégia que encontra eco entre jovens frustrados com a crise econômica, o desemprego e o custo de vida.
Há também um componente geracional: setores do Partido Popular, tradicional legenda conservadora, nunca condenaram integralmente o regime.
“Franco não foi derrubado. Ele simplesmente morreu”, diz o cientista político Oriol Bartomeus. “Isso deixou espaço para que um franquismo sociológico continuasse vivo.”
Exumações avançam, mas arqueólogos temem retrocessos
As escavações, como a que localizou o avô de Marina, avançam “a um ritmo sem precedentes”, dizem arqueólogos — graças à legislação de memória histórica e ao apoio estatal. Mas há receio de que um futuro governo conservador corte verbas, como ocorreu sob Mariano Rajoy, quando o orçamento foi reduzido a zero.
Francisco Carrión, professor da Universidade de Granada, supervisiona os trabalhos em Víznar. Ele e sua equipe já exumaram 166 corpos, incluindo o de uma criança entre 11 e 14 anos. “É emocionalmente devastador. Estamos lidando com pessoas jovens, muitas da nossa idade. E eram civis comuns: professores, costureiras, sindicalistas.”
A cada entrega dos restos às famílias, diz ele, há comoção. “É quase mágico. É um fechamento após quase 90 anos.”
Memória, trauma e a disputa por um passado que ainda não passou
O legado do franquismo permanece vivo nos debates atuais — das redes sociais às salas de aula, dos tribunais às valas comuns.
Para Marina Roldan, finalmente encontrar o avô não significa apagar a dor, mas pacificar a história. “Não sinto que uma ferida foi fechada, mas uma calma. Acho que meu pai estaria feliz. Ele também está descansando agora.”
Cinco décadas após a morte de Franco, a Espanha vive entre duas forças: a busca pela verdade e pela justiça histórica, e a ameaça de que parte da sociedade, desinformada ou desencantada, transforme em saudade aquilo que foi, para milhares, um regime de violência e silêncio.
A disputa, dizem especialistas, não é apenas sobre o passado — é sobre o futuro da democracia espanhola.
Com informações da Aljazira
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