
Se a primeira pedra já tinha sido lançada na semana passada, agora veio a avalanche. Nesta quinta-feira (28), o jornal O Estado de S. Paulo voltou a atacar frontalmente o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em apenas sete dias, o tradicional diário paulista publicou dois textos duros contra o filho 01 de Jair Bolsonaro, reforçando a percepção de que setores importantes da direita tradicional e do mercado financeiro passaram a enxergar sua candidatura mais como problema.
Na semana passada, o Estadão já havia exposto o desconforto da Faria Lima diante das relações “fraternas e transacionais” entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro. Agora, no editorial intitulado “O mordomo da Casa Branca”, o jornalão amplia o ataque e transforma a tentativa de aproximação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em símbolo da fragilidade política do senador.
Segundo o Estadão, “fora os fanáticos seguidores de Jair Bolsonaro, ninguém consegue enxergar ali alguém que pretende ser chefe de Estado no Brasil”. Em seguida, o jornal resume sua avaliação na frase que dominou as redes sociais: “na pose de mordomo da Casa Branca, Flávio transpira subserviência a Trump”.
O editorial sugere uma rejeição mais profunda ao projeto político representado pelo bolsonarismo. Ao afirmar que Flávio “representa sua família” e que colocaria “o Brasil a serviço do trumpismo”, o jornal acusa o clã Bolsonaro de subordinar os interesses nacionais à própria sobrevivência política. É como se o Estadão dissesse, em bom economês: este homem é um risco, não um investimento.
O texto identifica três fatores de erosão que ajudam a explicar a crise da pré-candidatura. O primeiro é o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que já havia provocado desconforto em setores do mercado financeiro. O segundo é a dependência permanente da figura de Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar após a tentativa de golpe de Estado. O terceiro é a dificuldade de Flávio em construir imagem própria como liderança nacional.
Foi nesse ponto que a viagem aos Estados Unidos produziu efeito contrário ao esperado. A foto com Trump, apresentada pelo bolsonarismo como demonstração de prestígio internacional, acabou convertida em material de desgaste político. O Estadão ironiza a operação ao afirmar que o resultado teria sido o mesmo “se a campanha de Flávio tivesse produzido a imagem com inteligência artificial” ou usado “um Trump de papelão”.
Mais importante do que o sarcasmo é o significado político do movimento. O Estadão é um dos jornais historicamente mais ligados ao empresariado paulista, aos setores conservadores tradicionais e ao núcleo financeiro da Faria Lima. Quando um veículo com esse perfil publica editoriais sucessivos contra um pré-candidato da direita, o gesto funciona como mensagem política para seu próprio campo.
O jornal deixa implícita uma dúvida crescente dentro da direita tradicional: Flávio Bolsonaro tem condições reais de unificar o campo conservador e oferecer estabilidade política e econômica? A resposta sugerida pelo editorial parece negativa.
A crítica do Estadão não nasce de qualquer aproximação com o campo popular ou democrático. O jornal apoiou o golpe de 1964 e esteve alinhado à direita brasileira em quase todos os grandes conflitos políticos das últimas décadas. Justamente por isso, o peso do editorial é maior. Trata-se de um veículo historicamente identificado com o conservadorismo questionando a capacidade política do herdeiro do bolsonarismo.
O pano de fundo é a mudança de posição de parte do establishment econômico em relação à extrema direita. Em 2018, o bolsonarismo ainda oferecia ao mercado promessa de estabilidade, agenda liberal e capacidade de vitória eleitoral. Hoje, aparece como um campo fragmentado, cercado por crises judiciais e excessivamente dependente de mobilizações performáticas para manter sua base ativa.
A tentativa de transformar uma rápida sessão de fotos na Casa Branca em demonstração de força acabou produzindo o efeito oposto. Em vez de ampliar apoios, aprofundou dúvidas sobre a viabilidade da candidatura. O próprio Estadão resume o episódio de forma contundente: “A julgar pelo site da Casa Branca ou pelas redes sociais de Trump, que ignoraram o encontro, a coisa toda se resumiu mesmo à imagem embaraçosa de Flávio”.
Dois editoriais em sequência raramente são casuais. Vindos de um jornal como o Estadão, indicam que setores influentes da elite econômica e política começam a se distanciar do projeto liderado pela família Bolsonaro. Ao que tudo indica, essa distância tende a crescer.
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