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Estádio do Chile: memória, resistência e a luta permanente contra o esquecimento

Viemos ao Chile para a cobertura da Fiesta de los Abrazos, um dos mais importantes eventos políticos e culturais da esquerda chilena. A agenda, no entanto, não estaria completa sem uma visita a um dos principais símbolos da repressão durante a ditadura de Augusto Pinochet, o Estádio Nacional, em Santiago. Mais do que um palco esportivo, o local foi transformado, após o golpe de 11 de setembro de 1973, em um campo de concentração a céu aberto, por onde passaram milhares de homens, mulheres e crianças.

A visita foi conduzida por Patrício Sandoval Droguett, secretário da Corporação Nacional de Memória do Estádio Nacional para Ex-Presos Políticos, ex-preso político e referência na preservação da memória do Estádio Nacional, e contou com o acompanhamento de Romina Cabrera, gerente de administração da Corporação. A recepção foi marcada pelo cuidado, pela generosidade e pelo compromisso político com a verdade histórica.

Inaugurado em 1938, durante o governo de Arturo Alessandri Palma, o Estádio Nacional foi concebido como um espaço voltado ao esporte, à cultura e à convivência popular. Essa vocação foi violentamente interrompida após o golpe civil-militar, quando o estádio passou a funcionar como centro de detenção, interrogatório, tortura e execução. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham sido mantidas presas ali, em condições desumanas, sob vigilância armada permanente.

Durante o percurso, Patrício relatou como as arquibancadas, hoje associadas a partidas de futebol e grandes shows, foram utilizadas para manter prisioneiros por longos períodos, expostos ao frio, à fome e ao medo constante. Nesse mesmo espaço, ele mencionou episódios que revelam a complexidade e a brutalidade da repressão, incluindo casos de traição entre antigos militantes, estimulados e explorados pelo próprio aparato da ditadura. Um dos exemplos citados foi o de Juan Muñoz Alarcón, “O encapuzado”, ex-militante que colaborou com os órgãos repressivos e acabou posteriormente assassinado, evidenciando a lógica perversa de um regime que destruía inclusive aqueles que instrumentalizava.

Outro espaço de forte impacto é o vestiário feminino, onde estiveram presas mulheres chilenas e estrangeiras de diferentes idades, origens e trajetórias políticas. Atualmente, o local abriga poemas escritos por ex-prisioneiras e placas de cobre com os nomes das mulheres que foram ali detidas e identificadas. Há registros de mulheres de diversos países, inclusive do Brasil. O espaço, antes marcado pela violência, tornou-se um lugar de homenagem, reconhecimento e resistência.

Ao longo da visita, Patrício destacou também episódios que revelam a capacidade humana de construir solidariedade mesmo nas condições mais extremas. Entre eles, o relato de um casamento celebrado dentro do estádio e a comemoração improvisada de um aniversário entre os presos. Gestos simples, mas profundamente políticos, que expressavam fraternidade, companheirismo e afirmação da vida diante da barbárie.

O percurso incluiu ainda a Galeria Permanente Andes Norte, exposição que apresenta o contexto da Unidade Popular, o golpe de Estado, as experiências dos prisioneiros no Estádio Nacional e sua posterior evacuação. O espaço articula documentos, imagens e relatos que ajudam a compreender o estádio como um território de memória, onde esporte, cultura e política se cruzam de forma indissociável.

Patrício ressaltou a importância do trabalho educativo desenvolvido pela Corporação, especialmente com estudantes, jovens e movimentos sociais. Para ele, preservar a memória não é permanecer no passado, mas enfrentar o presente, combater o negacionismo e afirmar a centralidade dos direitos humanos como fundamento da democracia.

Ao final da visita, nos despedimos em um abraço fraterno, carregado de respeito e emoção. A passagem pelo Estádio Nacional foi mais do que um registro jornalístico, foi um encontro direto com a história viva da luta popular chilena. Em um contexto marcado por tentativas de relativizar os crimes das ditaduras e reescrever o passado, o trabalho desenvolvido no Estádio Nacional reafirma que não há futuro democrático possível sem verdade, memória e justiça. Preservar esses espaços é um compromisso político com as vítimas da repressão e com as novas gerações que seguem lutando para que a barbárie não se repita.

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