
Estudantes dos Institutos Federais, sob a liderança da Federação Nacional dos Estudantes em Ensino Técnico (Fenet) e de grêmios estudantis, realizaram manifestações e ocuparam reitorias em nove estados no último dia 28 de maio.
Ana Luiza | Coordenadora-Geral da FENET
JUVENTUDE – Bolsas insuficientes e estudantes passando o dia inteiro nas unidades de ensino sem alimentação adequada: essa é a realidade que milhares de estudantes enfrentam, diariamente, nos Institutos Federais. Entre o início e o final de cada curso, muitos são forçados a abandonar os estudos por não terem condições de arcar com os custos de alimentação e transporte.
Para reivindicar mais orçamento para a educação, a Federação Nacional dos Estudantes em Ensino Técnico (Fenet), em conjunto com os grêmios estudantis, organizou, no último dia 28 de maio, manifestações em nove estados. Os estudantes ocuparam os prédios das Reitorias nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Bahia. Com a pressão, o Ministério da Educação recebeu uma comissão de estudantes do Instituto Federal de Brasília.
Na reunião, o secretário de Educação Profissional responsabilizou o Congresso Nacional pela falta de orçamento para as instituições. Por um lado, a afirmação é verdadeira. A maioria do Congresso, composta por deputados da direita, vota contra o aumento do orçamento para serviços públicos. Dessa forma, podem se apropriar desse dinheiro público através do Orçamento Secreto e outros esquemas criminosos.
Por outro lado, a Fenet apontou ao representante do Governo Federal qual é sua parcela de culpa. “O Governo também tem responsabilidade, pois, no início de seu mandato, propôs a política do Arcabouço Fiscal, que mantém a lógica que guia hoje os gastos públicos: destinação da maior parte dos recursos públicos para manutenção dos privilégios dos grandes empresários capitalistas, banqueiros e latifundiários. Para as áreas sociais como saúde e educação, limites e cortes de investimento”, afirmou Ray, coordenador-geral da entidade.
Promessas não cumpridas
No dia 26 de novembro de 2025, Fenet e grêmios de mais de 30 unidades dos Institutos Federais organizaram uma greve, com a paralisação das aulas por um dia. A greve exigia a imediata construção e abertura dos restaurantes acadêmicos em todos campi dos institutos. Os estudantes saíram vitoriosos: o Ministério da Educação recebeu representantes da Federação e assinou um acordo em que prometia a construção de mais de 270 restaurantes acadêmicos em todo país. Em Brasília, todos os campi tiveram os restaurantes inaugurados, graças a essa luta.
Entretanto, o prazo para a abertura de grande parte dos restaurantes já se encerrou e, em muitos casos, foi descumprido. Em alguns Institutos o cenário é ainda pior: os estudantes estão sendo forçados a escolher entre as bolsas ou os restaurantes. Dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) apontam que mais de 70% dos estudantes da rede federal de ensino possui renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo – ou seja, são estudantes de baixa renda, que precisam do apoio necessário para seguir com seus cursos.
As políticas de assistência aos estudantes não são questões meramente individuais. Impulsionar o ensino de qualidade e a formação profissional são questões centrais para o desenvolvimento do país. Além disso, não haveria dificuldade para custear essas políticas caso o orçamento público não fosse sequestrado pela elite econômica do país.
No principal e maior esquema de desvio do dinheiro público, só em 2025, foram gastos mais de R$ 1 trilhão – destinados ao pagamento dos juros da dívida pública, um mecanismo que transfere para grandes bancos e especuladores financeiros o recurso arrecadado do povo através dos impostos. Os dados são da Auditoria Cidadã da Dívida. Com o valor que é pago em um único dia desse esquema, seria possível garantir a construção de todos os restaurantes acadêmicos prometidos.
Muito se fala sobre as políticas de assistência social e dos gastos que estas representam. Entretanto, uma análise mais minuciosa das contas do Estado brasileiro mostra que os maiores beneficiários não são o povo pobre e trabalhador, mas sim os grandes ricos, que contam com todo tipo de representantes no Governo e no Congresso Nacional e continuam sendo privilegiados.
Os estudantes prometem a continuidade da luta. “Vamos continuar mobilizados. No início do ano, a Reitoria do IFRJ prometeu um grande investimento para aumentar o número de bolsas. Mas o que estamos vendo são muitos estudantes que precisam desse auxílio não sendo contemplados. Não é justo que um estudante tenha que abandonar o curso por isso e nós não vamos aceitar mais essa realidade”, defende Isabella Samara, coordenadora-geral da Fenet.
Matéria publicada na edição impressa nº 335 do jornal A Verdade