
Mulheres e homens que chegam às câmaras municipais demonstram praticamente a mesma disposição para disputar cargos do Executivo, mas não percorrem a política pelo mesmo caminho. Entre os vereadores eleitos em 2008, 17,6% das mulheres e 17,9% dos homens disputaram prefeito ou vice-prefeito nos ciclos seguintes. A diferença aparece depois: elas estão mais presentes entre os que deixam de disputar eleições ou não conseguem conquistar um novo mandato, enquanto os homens aparecem em maior proporção nas trajetórias de continuidade e avanço eleitoral.
É o que mostra o estudo “Where Do City Councilors Go? Gender and Political Career Trajectories in Municipal Politics”, de Lucas Gelape, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Débora Thomé, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). A partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os pesquisadores acompanharam 51.478 vereadores eleitos em 2008 e reconstruíram suas trajetórias ao longo de cinco eleições municipais.
A escolha de acompanhar essas carreiras por mais de um ciclo muda a própria leitura sobre o que significa abandonar a política. Entre os eleitos em 2008, 38% não disputaram uma nova eleição em 2012. Quando os pesquisadores acompanham essas mesmas pessoas por mais tempo, porém, apenas 20,9% entram na categoria dos que não voltaram a disputar qualquer cargo. Parte daqueles que pareciam ter deixado a política simplesmente retornou à disputa em eleições posteriores.
É uma diferença que, para os autores, não pode ser ignorada quando se fala em carreira política. “Quando falamos em trajetórias de carreira, é importante considerar uma sequência de decisões políticas, em vez de focar em um único ponto no tempo”, escrevem Gelape e Thomé.
O que acontece depois do primeiro mandato
É nesse percurso mais longo que a desigualdade entre homens e mulheres fica mais evidente. Entre os vereadores eleitos em 2008, 23,8% das mulheres seguiram a trajetória daqueles que não voltaram a disputar eleições, contra 20,5% dos homens. Também foi maior entre elas a parcela que continuou tentando uma vaga na Câmara, mas não conseguiu novo mandato: 27,1%, ante 23,5% entre eles.
Nos caminhos de maior continuidade, a relação se inverte. Os homens representam 38,1% dos chamados “veteranos”, aqueles que voltaram a disputar uma vaga na Câmara e conseguiram pelo menos uma nova vitória, contra 31,5% das mulheres. Entre os que disputaram prefeito ou vice-prefeito e foram eleitos, estavam 8,2% dos homens e 7,2% das mulheres.
A diferença, portanto, não está simplesmente na decisão de permanecer ou abandonar a política. Ela aparece no que acontece depois que o primeiro mandato termina. As mulheres estão proporcionalmente mais concentradas nas trajetórias de saída ou de tentativa sem nova vitória, enquanto os homens aparecem mais nos caminhos de reeleição e avanço para o Executivo.
A disputa pelo Executivo conta outra história
Os próprios números sobre a disputa por cargos majoritários afastam uma explicação baseada em falta de ambição. Mulheres e homens que chegaram às câmaras em 2008 buscaram prefeito ou vice-prefeito em proporções praticamente idênticas: 17,6% entre elas e 17,9% entre eles.
Ou seja, elas não estão ficando para trás porque demonstram menor disposição para disputar cargos de maior poder. A diferença aparece no percurso que se constrói a partir dessa disputa. Entre aqueles que tentaram chegar ao Executivo, os homens também tiveram maior proporção de sucesso: 8,2% foram eleitos, contra 7,2% das mulheres.
A trajetória anterior ajuda a compor esse quadro. Vereadores que já haviam exercido mandato antes de 2008 apresentaram maior probabilidade de seguir caminhos de continuidade na Câmara. Da mesma forma, experiências anteriores em disputas para o Executivo aparecem associadas às trajetórias posteriores de tentativa e conquista desses cargos. A carreira, portanto, não começa no momento em que o candidato conquista uma cadeira: parte das condições para permanecer e avançar já foi construída antes.
Esse ponto é importante porque impede que a diferença encontrada seja lida como uma simples questão de desempenho individual. O mandato inaugura uma nova etapa da carreira, mas não apaga as condições políticas acumuladas até ali.
O município também pesa
O contexto em que o mandato é exercido interfere nos caminhos posteriores. Nos municípios menores, é maior a proporção de vereadores que deixam de disputar eleições. Conforme cresce o tamanho do eleitorado, aumentam as trajetórias de continuidade na Câmara, enquanto os percursos até o Executivo também variam de acordo com o porte do município.
Isso ajuda a entender por que o mandato de vereador não pode ser tratado apenas como uma passagem para cargos mais altos. Para uma parcela expressiva dos políticos, a Câmara é o próprio espaço de construção de uma carreira. Quase 40% dos eleitos em 2008 conquistaram pelo menos dois mandatos como vereadores até 2020, enquanto quase 20% chegaram a disputar prefeito ou vice-prefeito.
Quando esse percurso é observado ao longo de vários ciclos, a diferença entre homens e mulheres deixa de ser apenas uma questão de quem foi eleito e passa a envolver quem consegue transformar o primeiro mandato em continuidade política.
Onde entram os partidos
É nesse ponto que o estudo dialoga com uma discussão mais ampla sobre as condições que sustentam uma carreira política. Os autores recorrem a pesquisas anteriores que apontam a importância do apoio partidário, das redes de suporte, dos recursos financeiros e das experiências de violência política para a permanência das mulheres na disputa eleitoral. Uma pesquisa qualitativa citada no artigo, por exemplo, encontrou maior permanência entre mulheres que contavam com apoio partidário e redes de suporte e não relatavam experiências de violência política.
Os próprios Gelape e Thomé chamam atenção para o papel das estruturas partidárias. “As escolhas de carreira no nível local não são apenas decisões individuais, mas também são condicionadas pelos partidos”, afirmam os pesquisadores.
A observação é importante porque a trajetória eleitoral não depende apenas da disposição de um candidato para disputar uma nova eleição. Partidos organizam candidaturas, distribuem recursos e estruturam parte das oportunidades de competição. Para as mulheres, a literatura mobilizada pelo estudo aponta que essas condições podem pesar especialmente na decisão de permanecer na disputa.
Mas os autores não transformam esses fatores em uma explicação causal para os resultados encontrados. O estudo identifica uma associação entre gênero e diferentes trajetórias eleitorais, mas não demonstra que violência política, falta de apoio partidário ou acesso desigual a recursos sejam, isoladamente, responsáveis por fazer mulheres abandonarem a política.
Entrar é apenas uma parte da disputa
A presença feminina nas câmaras municipais cresceu nas últimas décadas. Entre 2000 e 2020, passou de 11,5% para 16%. O avanço ampliou a presença das mulheres no Legislativo municipal, mas não eliminou as diferenças que aparecem depois da conquista do mandato.
É justamente aí que a pesquisa acrescenta uma camada importante ao debate sobre representação. O problema não se resume a quantas mulheres conseguem chegar às câmaras, mas também ao que acontece com suas carreiras depois que chegam.
Os dados não sustentam uma leitura de que mulheres sejam menos preparadas ou menos ambiciosas. Elas disputam cargos do Executivo em proporção praticamente igual à dos homens e chegam a ocupar os mesmos espaços institucionais. O que a pesquisa encontra é uma distribuição diferente entre as trajetórias posteriores: mulheres aparecem mais nos caminhos de saída da disputa ou de ausência de nova vitória, enquanto homens têm maior presença entre os que conseguem renovar o mandato ou avançar para o Executivo.
A diferença, portanto, não está em uma suposta incapacidade feminina de fazer política. Ela aparece nas condições e nos resultados da continuidade de uma carreira que já começou. E, como os próprios pesquisadores ressaltam, compreender por que essas trajetórias se distanciam exige olhar para além das decisões individuais e considerar também as estruturas políticas em que elas são construídas.
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