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EUA não oferecem contrapartida equivalente à China na América Latina

O CEO da consultoria Arko Advice Internacional, Thiago de Aragão, afirmou em entrevista à CNN Brasil que os Estados Unidos são incapazes de apresentar uma contrapartida equivalente ao que a China oferece aos países da América Latina.

Segundo o analista, a diferença estrutural entre o planejamento centralizado chinês e a economia de mercado norte-americana explica o resultado desigual na disputa por influência na região.

Aragão destacou que Washington superestima o valor da sua “validação política”. O preço dessa validação seria abrir mão de vários níveis de relacionamento com a China.

Os Estados Unidos não conseguem obrigar as suas indústrias a investir em determinado país. Já a China, por meio do planejamento centralizado, que envolve empresas estatais e bancos de desenvolvimento, consegue direcionar investimentos mesmo quando isso implica perdas financeiras no curto prazo.

O analista citou o caso da Argentina: na mesma semana em que o presidente Javier Milei recebeu apoio financeiro do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, com uma linha de swap de até US$ 20 bilhões, o país registrou exportações-recorde de carne e trigo para a China.

A análise aponta a limitação da oferta norte-americana, mas a prática dos Estados Unidos na região vai além da validação política. Historicamente e no período recente, Washington recorre a pressões econômicas e políticas explícitas.

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Entre as práticas documentadas estão ameaças de tarifas punitivas contra produtos brasileiros e regionais como instrumento de barganha comercial. Há também o condicionamento de apoio financeiro a resultados eleitorais, como ocorreu na Argentina, quando declarações oficiais vincularam a continuidade do suporte à performance do governo Milei nas urnas.

Outro ponto é a classificação de organizações criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, como terroristas, medida interpretada por analistas como forma de pressão sobre o sistema financeiro e sobre a soberania regulatória do Brasil. Além disso, aplicam-se sanções e restrições comerciais a países que desafiam a orientação de Washington, como Venezuela, Cuba e Nicarágua, e pressões para bloquear a participação de empresas chinesas em redes 5G.

Essas práticas configuram um padrão de coerção que contrasta com a lógica chinesa de oferecer infraestrutura, crédito e mercados de compra de commodities sem as mesmas exigências de alinhamento político imediato.

A base de dados do Inter-American Dialogue e do Boston University Global Development Policy Center registra mais de US$ 120 bilhões em empréstimos dos bancos de desenvolvimento chineses, como o China Development Bank e o Ex-Im Bank, à América Latina e ao Caribe desde 2005.

O Monitor de Infraestrutura Chinesa na América Latina e Caribe (RED ALC-China) aponta 294 projetos até 2024, totalizando cerca de US$ 130 bilhões e a geração de mais de 950 mil empregos. Empresas estatais chinesas respondem pela esmagadora maioria desses valores.

Entre os projetos emblemáticos está o Porto de Chancay, no Peru. Com investimento total estimado entre US$ 3,5 e 3,6 bilhões, a estatal COSCO Shipping Ports detém 60% do empreendimento. Inaugurado em novembro de 2024, o terminal de águas profundas reduz significativamente o tempo de navegação entre a América do Sul e a Ásia.

No Brasil, a State Grid Corporation of China já opera milhares de quilômetros de linhas de transmissão, incluindo as de ultra-alta tensão de Belo Monte. A empresa venceu o maior leilão de transmissão da história do país, com uma linha de 1.468 km entre Maranhão e Goiás e investimento da ordem de R$ 18 bilhões, sob concessão de 30 anos.

No setor de minerais críticos, a presença chinesa no triângulo do lítio, na Argentina, Chile e Bolívia, é expressiva, com atuação de empresas como Ganfeng Lithium e Zijin Mining. Análises setoriais mostram ainda que, desde 2015, o financiamento estatal chinês ao setor energético brasileiro superou US$ 60 bilhões, enquanto o volume correspondente dos Estados Unidos ficou abaixo de US$ 500 milhões.

A avaliação de Aragão expõe que, enquanto os Estados Unidos combinam validação política com instrumentos de pressão econômica, a China entrega infraestrutura, crédito de longo prazo e mercados compradores.

Para muitos governos latino-americanos, a parceria com a China representa uma via de financiamento e modernização que Washington, pelas características do seu próprio sistema e pelo uso da coerção, não consegue replicar na mesma escala.

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