Os Estados Unidos utilizaram as negociações sobre o programa nuclear iraniano como uma “cortina de fumaça” para executar, neste sábado (28/02), a ofensiva militar conjunta com Israel contra o Irã, que vinha sendo articulada gradativamente para ser posta em prática. A avaliação é de Bruno Lima Rocha, jornalista da Hispan TV Brasil, cientista político e professor de Relações Internacionais.
Em entrevista a Opera Mundi, o analista explicou que o modelo de planejamento para atacar a nação iraniana vem sendo gestado desde 2009, mas foi o presidente norte-americano Donald Trump quem assumiu a responsabilidade de implementá-lo agora.
Lima Rocha chamou a atenção para o discurso do republicano logo após o início da agressão, dando ênfase ao trecho em que Trump afirma que seu objetivo é impedir Teerã de desenvolver seu programa nuclear — algo que as autoridades iranianas sempre reiteraram ter fins exclusivamente pacíficos, inclusive em declarações públicas nas últimas semanas.
“Trump revelou que a grande missão deste ataque é acabar com toda a capacidade de defesa de mísseis do Irã e com toda a sua Marinha. Portanto, quer deixar os céus do Irã à mercê de Israel e que a Marinha não possa defender suas águas territoriais no Golfo Pérsico, que equivalem a 20% do tráfego internacional de petróleo no mundo”, disse.
Segundo o professor, as negociações nunca estiveram de fato na mesa por parte dos Estados Unidos, já que “querem impor a sua vontade” — no caso, um impeditivo para o desenvolvimento de armas nucleares.
Entre os episódios mais graves registrados até agora está o bombardeio contra uma escola primária feminina, atribuído ao ataque inicial das forças norte-americanas e israelenses. Informações da imprensa local davam conta de pelo menos 85 meninas, entre idades de 7 e 12 anos, mortas na ofensiva. “Só sobraram as mochilas”, disse o docente.
Após a ofensiva de Washington e Tel Aviv, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) garantiu que sua retaliação continuaria ininterruptamente até a derrota do inimigo, lançando, assim, uma série de mísseis contra alvos militares e bases aéreas norte-americanas instaladas em países da região do Oriente Médio.
“Pode haver canal diplomático para intermediar e evitar que a resposta iraniana seja ainda maior, já que o país foi atacado e está sendo atacado? Pode haver. Mas enquanto o Irã for atacado, o Irã vai responder. Está no seu direito, tem a capacidade e vai exercê-la”, assegurou.
Para contextualizar o acontecimento deste sábado, Lima Rocha recordou a trajetória de hostilidades ocidentais contra o Irã nas últimas décadas.
O acordo nuclear assinado em 2015, durante o governo de Barack Obama, representou, segundo ele, o único entendimento formal entre as partes, mas foi unilateralmente rasgado por Trump em seu primeiro mandato. Desde então, sucederam-se tentativas de estrangulamento econômico, guerra por procuração por meio do Iraque, tentativas de desestabilização interna com as chamadas “revoluções coloridas” e, em junho do ano passado, uma guerra de 12 dias promovida pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com financiamento norte-americano.
Mesmo diante do histórico de agressões, o analista avaliou que o Irã está preparado para sustentar um conflito de médio e longo prazo, com condições de suprimento, abastecimento logístico e silos de mísseis para uma guerra de defesa prolongada. A dúvida, segundo ele, reside na possibilidade de uma invasão territorial por parte das forças inimigas.
“De Trump a gente pode esperar tudo. A gente está em uma era em que Trump e Netanyahu rodam as cartas e o imponderável prepondera”, destacou Lima Rocha sobre a imprevisibilidade da atual gestão norte-americana.

@WhiteHouse
Dimensão do conflito
A dimensão geopolítica do conflito, no entanto, transcende as fronteiras iranianas. “Essa questão de reconfigurar o Oriente Médio — que a gente prefere chamar de Ásia Ocidental — é um eufemismo para acabar com a capacidade de resistência e soberania dos povos da região e tentar submetê-los aos desígnios do Ocidente e das monarquias árabes aliadas e traídas”, avaliou o analista, lembrando que Israel se alinha ao Ocidente nesse projeto.
As consequências de uma eventual derrota iraniana seriam profundas para todo o equilíbrio regional. “Se o Irã for derrotado, se a República acabar, as chances da resistência palestina, que já são pequenas, diminuem muito. O Iraque perde a soberania. O Iêmen vai ser governado por ex-membros da Al-Qaeda, como já foi”, alertou. O professor acrescentou que haveria ainda um avanço considerável da presença de Israel e dos Emirados Árabes na África, reduzindo drasticamente as capacidades de conter o avanço do imperialismo ocidental e seus aliados locais.
Para além das fronteiras regionais, Lima Rocha destacou que o episódio deste sábado se insere em uma disputa mais ampla: frear a integração econômica asiática e euroasiática entre China, Rússia, Irã e seus aliados. Na visão do analista, isso representa um desafio direto do mundo não ocidental para conter o projeto imperialista.
“Um imperialismo que, embora decadente, ainda tem muita capacidade militar e, justamente por ser decadente, está muito agressivo”, finalizou.
O post EUA usaram negociações como ‘cortina de fumaça’ para atacar Irã, diz analista apareceu primeiro em Opera Mundi.