
O ex-primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama defendeu nesta terça-feira (28) que Japão e China trabalhem juntos contra a “arrogância dos EUA” e evitem o colapso da ordem mundial, em meio ao avanço da remilitarização japonesa e ao alinhamento do governo de Sanae Takaichi com Washington no Indo-Pacífico.
“Eu argumentaria que Japão e China deveriam enfrentar conjuntamente um Estados Unidos autocentrado e [evitar] o colapso da ordem mundial”, disse Hatoyama em um evento em Hong Kong. “Para isso, expandir coalizões com diversos países que pensem de forma semelhante, caso a caso, aumentará nosso poder de barganha.”
Hatoyama falava em um evento organizado pela nova Escola de Governança e Políticas da Universidade de Hong Kong. Ele afirmou que a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi fez da aproximação com Trump uma prioridade para garantir que “o Japão não se torne vítima do bullying dos EUA”, mas disse que essa abordagem não é sustentável.
O Japão é um aliado formal dos Estados Unidos por tratado e abriga uma das maiores presenças militares americanas no exterior.
Com Trump, a ordem global foi fragmentada por uma série de ações unilaterais, incluindo ataques ao Irã, o sequestro do líder venezuelano e a retirada de Washington de 66 organizações internacionais e acordos importantes, incluindo o Acordo de Paris sobre o clima.
As declarações de Hatoyama refletem suas posições políticas conhecidas de longa data. Ele liderou o centrista Partido Democrático do Japão, que esteve no poder de 2009 a 2012, mas atualmente não possui filiação partidária formal.
Como primeiro-ministro, ele defendeu relações mais próximas com a China e uma postura “pró-Ásia”, com o objetivo de equilibrar a dependência japonesa dos EUA com laços mais estreitos com seus vizinhos.
Os apelos de Hatoyama, no entanto, não serão facilmente adotados, dado o aprofundamento das tensões entre Tóquio e Pequim após declarações de Takaichi sobre Taiwan.
Em novembro, Takaichi afirmou que, se Pequim atacasse Taiwan, isso constituiria uma “situação que ameaça a sobrevivência” do Japão e justificaria intervenção militar — a primeira vez que um primeiro-ministro japonês em exercício fez tal declaração.
Pequim respondeu com uma campanha de pressão contra Tóquio que inclui proibição de exportação de produtos de uso dual ligados ao setor militar japonês, uma renovada proibição de importação de frutos do mar e alertas de viagem para chineses que visitam o Japão.
Hatoyama pediu ao governo japonês que repare as relações ao “reafirmar explicitamente” sua oposição à independência de Taiwan ao revisar o documento de estratégia de segurança nacional do país neste ano.
Pequim também demonstrou preocupação com a iniciativa de Takaichi de revisar a “cláusula pacifista” do pós-Segunda Guerra Mundial na Constituição japonesa. Pelo Artigo 9, o Japão renuncia ao uso da força e proíbe a manutenção de forças armadas com capacidade de guerra. Mas, no início deste mês, Takaichi afirmou que “chegou a hora” de uma revisão.
A primeira-ministra priorizou essa revisão constitucional como parte de seus esforços para fortalecer a defesa do Japão, incluindo a revisão da estratégia de segurança nacional e de defesa, o aumento dos gastos militares, a aquisição de capacidades de contra-ataque e a flexibilização da proibição de exportação de armas letais.
Hatoyama afirmou que ambos os governos precisam moderar sua retórica e que declarações duras de Pequim podem ser exploradas por forças de direita no Japão.
“O governo chinês deve calcular cuidadosamente sua comunicação com o Japão”, disse, acrescentando que as críticas públicas de Pequim à emenda constitucional japonesa são contraproducentes.
“Mesmo que a China pretenda criticar políticos e partidos japoneses de direita, o público japonês percebe isso como se a China fosse um país assustador que interfere nos assuntos internos de outras nações”, afirmou. “Políticos de direita exploram esses sentimentos públicos para promover uma política hostil em relação à China.”
Hatoyama também pediu que os dois lados mantenham intercâmbios, em uma aparente crítica aos alertas de viagem emitidos por Pequim.
“Se os intercâmbios entre os povos desaparecerem, a probabilidade de melhora das relações políticas no futuro certamente diminuirá”, disse.
Ele também pediu que o Japão demonstre moderação ao comentar sobre a China.
“No entanto, há algumas coisas a considerar”, afirmou. “Com muita frequência, o lado que supera o outro no equilíbrio de poder deixa de reconhecer a ansiedade do lado que foi superado.”
Nos últimos anos, Tóquio classificou as atividades militares da China como o “maior e sem precedentes desafio estratégico” para o Japão e destacou a “coerção” militar e econômica chinesa.
Ao se reunir com um painel de especialistas na segunda-feira para discutir revisões dos três documentos de segurança nacional do Japão, Takaichi afirmou que Tóquio deve se adaptar a novas formas de guerra e se preparar para um possível conflito prolongado, citando a guerra da Rússia na Ucrânia e o conflito EUA-Israel contra o Irã.
“Para proteger plenamente a paz e a independência de nossa nação, devemos buscar de forma proativa um fortalecimento fundamental de nossas capacidades de defesa”, disse Takaichi.
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