
A 9ª mesa da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada na manhã deste domingo (29) no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, debateu “Antirracismo, Feminismo e Direitos Civis na Luta contra o Fascismo”. Mediada pela deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS), a mesa reuniu lideranças de quatro continentes para afirmar que as opressões de raça, gênero e classe não são questões secundárias, mas elementos estruturantes do projeto neofascista que deve ser combatido com unidade e radicalidade.
Danielle Costa: opressões são estruturantes, não identitárias

Em sua intervenção, Danielle Costa, cientista política e representante da SEPIR-Bahia (Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial), destacou que “não dá pra falar de fascismo sem falar de racismo” e “não dá pra falar de fascismo sem falar de misoginia”. Segundo ela, é fundamental superar na esquerda o entendimento de que essas pautas são “identitárias”: “Elas são estruturantes. Porque aqui, por exemplo, no Brasil, o racismo estruturou as relações de trabalho”.
Danielle lembrou que o processo de escravização no Brasil perdurou por mais de três séculos e que a abolição segue inacabada: “A população negra ainda está na base da pirâmide, é ela que mais morre nesse país. As mulheres negras são elas que mais morrem nesse país. Mais de 60% do feminicídio atinge as mulheres negras”.
Para a cientista política, a luta contra o fascismo exige incorporar profundamente o antirracismo e o feminismo na teoria e na prática: “Enquanto a extrema direita organiza nas comunidades digitais a misoginia — o redpill é uma ferramenta da extrema direita com a juventude —, nós precisamos combater isso com uma pauta que de fato represente o povo latino-americano”.
Danielle concluiu convocando à superação de “falsas polêmicas” no campo da esquerda: “Não permitiremos mais que racismo e a pauta feminista sejam consideradas pautas identitárias. Vamos entender que elas são pautas ao capitalismo. Que sejamos todas e todos antirracistas e feministas. Essa é uma construção rumo ao socialismo com a cara do povo da resistência”.
Mireille Fanon: colonialismo e racismo institucional
Mireille Fanon, da Fundação Frantz Fanon (França), denunciou a aceleração de eventos graves que desestruturam o direito internacional, citando o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, a política anti-imigrante de Trump e o genocídio na Palestina. Para ela, “o racismo institucional não usa mais máscara”: “É um projeto que exige lucro e purificação”.
Fanon alertou para o “tecnofascismo” e a substituição da “doutrina da descoberta” pela posse de terras raras, em nome da “white supremacy”. Defendeu que “não há racismo sem capitalismo, e não há capitalismo sem racismo”, convocando os movimentos sociais a politizar resistências que visem a autonomia das comunidades oprimidas.
Penélope Duggan: patriarcado e economia de guerra
Penélope Duggan, do NPA França e membro do Bureau da IV Internacional, destacou que a extrema direita europeia naturaliza o gênero como biológico para atacar direitos LGBTQIA+ e reverter conquistas feministas. “O patriarcado não é apenas machista, é uma ordem da economia em base de gênero”, afirmou.
Segundo ela, políticas neoliberais que cortam serviços públicos jogam o trabalho de cuidado para as mulheres, enquanto discursos antifeministas justificam essa exploração. “A luta das mulheres racializadas é chave porque enfrentam esse monstro em todas as suas vertentes: racismo, patriarcado e capitalismo”, sustentou.
Ideli Salvatti: fascismo é um pitbull com raiva
Ideli Salvatti, do Humaniza SC, usou dados para demonstrar a centralidade das opressões: “Mais da metade da população brasileira é preta, parda; mais da metade é mulher; e 99% estão explorados por 1% que detém 63% da riqueza”. Para ela, “fascismo nada mais é do que o extremo, a última cartada que eles têm para continuar controlando, tendo poder e explorando a maioria dos povos”.
Ideli rejeitou a metáfora brechtiana de que “o fascismo é uma cadela no cio”: “Eu prefiro dizer que o fascismo é um pitbull com raiva. Muita raiva”. Citou ataques recentes em Santa Catarina — projeto sobre identidade de gênero em escolas, militarização, feminicídios — para demonstrar a diversidade e intensidade da ofensiva fascista.
Luana Alves e Auricélia Arapiun: radicalidade e território
Luana Alves, vereadora em São Paulo, defendeu que a luta antifascista “ou é radical, ou está ao lado dos povos mais atacados por esse sistema”. Criticou medidas como a privatização de prisões, que podem gerar trabalho escravo, e alertou para a necessidade de organizar a esquerda com mais mulheres e pessoas negras em direção.
Auricélia Arapiun, liderança indígena do Baixo Tapajós (PA), trouxe a prática da resistência: “A luta do meu povo não começou com a ocupação da Cargill, começou há 191 anos com a Cabanagem”. Criticou o governo por ameaçar “a morte do meu rio” sem consulta prévia ao propor uma usina hidrelétrica no Tapajós e afirmou: “Nem Boulos, nem Sônia, nem Lula vão calar o meu povo. Vamos continuar lutando, resistindo, defendendo o território”.
Debates e encaminhamentos
Nas intervenções das debatedoras, Letícia Carolina Nascimento (UFPI/Andes) denunciou a ausência de pessoas trans na programação e alertou para os “pânicos morais” como estratégia central do fascismo: “Não haverá revolução sem a presença de corpos trans. A revolução será travesti ou não será”.
Laura Sito, deputada estadual do PT-RS, reforçou que “não há luta antifascista que não seja essencialmente antirracista” e que a expectativa de vida de uma pessoa trans negra no Brasil é de apenas 27 anos: “Não há uma luta antifascista no Brasil que não compreenda as lutas ambientais como uma luta central”.
A mesa encerrou com consenso sobre a necessidade de articular antirracismo, feminismo e luta de classe como eixos indissociáveis do projeto antifascista. Como sintetizou Fernanda Melchionna na abertura: “Um outro mundo é possível quando estamos juntos e juntas com nossas diferenças, mas também com nossa unidade antifascista e anti-imperialista”.

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