
Nos cem anos do nascimento de Fidel Castro, lembro a sua amizade com Che Guevara. As linhas a seguir partem das declarações de Jon Lee Anderson à imprensa e da biografia que ele escreveu sobre Che.
Aqui, em uma entrevista publicada em Semana, da Colômbia:
“O Che morreu jovem, no auge das ideias utópicas dos anos 60, que, até certo ponto, morreram com ele. Embora tenha havido outras lutas guerrilheiras depois disso, pouquíssimas chegaram ao poder. Fidel, por outro lado, acabou se revelando o Quixote, aquele que envelhece diante dos olhos de todos, mas que, obstinadamente, permanece no comando de um país que consegue se consolidar como revolucionário e socialista, apesar de tudo.
Embora muitos tenham subestimado Fidel por ser idoso e ter ficado fora de cena nos últimos anos, é só agora que se pode reavaliar e reconhecer sua verdadeira importância. E sua importância histórica é enorme, pois foi ele mesmo quem inspirou o Che, convencendo-o, a se tornar um revolucionário.
O grande ciclo de vida de Fidel é algo quase sem precedentes; é um retrato detalhado de um homem enciclopédico no que diz respeito à sua trajetória e atuação no cenário político mundial das últimas seis ou sete décadas.
Che Guevara e Fidel Castro se conheceram em 1955 por intermédio do irmão Raúl, na Cidade do México, no momento em que Fidel foi anistiado pelo ditador Batista, após ter ficado preso por dois anos devido à tentativa de golpe no quartel de Moncada. Nesse período, Raúl e outros membros de seu movimento 26 de Julho haviam criado uma rede de solidariedade no exílio. O jovem Ernesto Guevara, estudante de medicina, leitor recente, mas ávido, de Marx, havia chegado ao México frustrado com sua experiência na Guatemala. Lá, assim como outros jovens de esquerda de todo o hemisfério, esperava ser absorvido pela primeira revolução socialista da América Latina, a de Jacobo Arbenz, mas tudo desmoronou. Um regime de extrema direita assumiu o poder e Ernesto fugiu para o México.
Eles se encontraram uma noite. Fidel convenceu o jovem Guevara da justiça de sua missão e o convidou a se juntar a ele como médico da expedição. A personalidade de Fidel o impressionou profundamente. Guevara já estava convencido de que na América Latina havia um grande mal, o capitalismo: injusto, desigual, feudal. E que as políticas capitalistas da época, que não eram nada bonitas, eram o veneno, a causa dos males endêmicos que transformavam os latino-americanos pobres daquela época em uma natureza de subespécie: desnutridos, baixinhos, com baixa expectativa de vida… Ele estava convencido de que a única solução era uma revolução radical. E procurava um homem forte. Pensava em ir para Paris. Se Fidel não tivesse aparecido, quem sabe, talvez tivesse acabado como mais um argentino passeando pela Europa e escrevendo poesia.
Fidel viu nele um jovem com um carisma especial. Ele não era extrovertido. Não era político, nem tático, nem diplomático. Era radical, mas com uma boa cabeça. Era visionário, ousado, temerário. Muito cedo, Fidel percebeu que Che não sentia medo. Ele percebia que aquele rapaz culto, muito versado, estaria disposto a se juntar a eles. Queria se dedicar a uma espécie de missão internacionalista. Fidel também. Antes de Moncada, em seu próprio país, ele havia se juntado a uma expedição frustrada contra Trujillo na República Dominicana. Havia uma mística e uma tradição de latino-americanismo na região. E eles, muito cultos, devoradores das biografias e feitos dos grandes, desde San Martín e Bolívar até Martí, queriam se ver recriando essas grandes gestas latino-americanas. É um desses encontros geniais — ou, para outros, diabólicos — que ocorrem uma vez na história.
Se o Che acabou se tornando, em termos mitológicos, o Ícaro do socialismo radical do século 20 — um símbolo de sacrifício, de austeridade, de voar em direção ao sol e queimar as asas em um feito épico e heroico —, Fidel acaba sendo o patriarca. O patriarca de todos esses feitos utópicos.
O patriarca de uma revolução que, embora hoje esteja em declínio, conseguiu se consolidar e se manter ao longo das décadas, já sob o comando de Raúl. E, embora tenha sofrido um revés econômico, é preciso reconhecer que Cuba é, entre os países do hemisfério ocidental, o mais seguro, com índices louváveis em saúde pública e educação. Coisas que, justamente, ainda estão fora do alcance da maioria das sociedades latino-americanas”.
Nas declarações de Jon Lee Anderson, resumidas acima, sentimos a visão de um repórter não socialista, que trabalha e sobrevive na mídia do grande capital, e por isso possui o limite de coletar dados, dados e mais dados, mas cuja conclusão é nada generosa. Essa é uma limitação que veremos também adiante no que transcrevo da sua biografia de Che Guevara. Jon Lee Anderson pesquisou, foi honesto na sua busca, mas na seleção que faz do pesquisado trai a o seu imenso trabalho. Se comparo mal, seria como um biógrafo de Kepler que não compreendesse o feito de gigante do cientista. Daí que vai ao cotidiano, aos lugares por onde andou o gênio, vai às leis descobertas pelo gênio, mas não alcança o espaço do que viu.
No livro Che Guevara: uma biografia, do original Che Guevara; A revolutionary life, podemos ver:
“No verão de 1955, Ernesto registrou um acontecimento em seu diário: ‘Um acontecimento político foi ter conhecido Fidel Castro, o revolucionário cubano, um jovem inteligente, muito seguro de si e de extraordinária ousadia; acho que há uma simpatia mútua entre nós’. (…)
A ilha passou por muitas mudanças em sua posição política durante o longo mandato de Fidel como ‘jefe máximo’. Logo após a morte do Che, as relações com a União Soviética entraram em um período de congelamento total. Indignado com o apoio implícito de Moscou à linha do Partido Comunista da Bolívia e devido a artigos duramente críticos sobre o Che e a ‘exportação’ da revolução publicados no Pravda, Fidel afastou-se do Kremlin. Como forma de demonstrar seu descontentamento, ele enviou seu modesto ministro da Saúde para participar das festividades anuais na Praça Vermelha, em novembro de 1967. O embaixador Alexandr Alexiev, considerado muito próximo de Fidel, foi destituído de seu cargo em 1968 e enviado para Madagascar. Fidel lançou um novo expurgo contra os ‘velhos comunistas’ pró-soviéticos, depois de supostamente ter descoberto uma facção dissidente envolvida em uma conspiração contra ele, com membros do corpo diplomático da embaixada soviética. Assim como o expurgo contra o ‘sectarismo’ em 1962, essa conspiração contou com a participação do temível Aníbal Escalante; desta vez, ele não foi enviado para Moscou, mas recebeu uma sentença de 15 anos de prisão. Entre os crimes de Escalante e de seus companheiros conspiradores, gravados em fita, estava a crítica ao Che.
A ‘hibernação’ oficialmente imposta a Che durou uma década e meia. Ele ressurgiu como referência revolucionária em Cuba somente depois que a própria União Soviética começou a mudar no final da década de 1980, sob o governo de Mikhail Gorbachev. Fidel se opôs às reformas liberais da glasnost e da perestroika com o que chamou de processo de ‘retificação’, e restabeleceu as ideias do Che como as corretas a serem seguidas pelos comunistas cubanos. Isso coincidiu com o colapso vertiginoso do bloco soviético e o fim do longo fluxo de subsídios de Moscou para Cuba. Forçado a permitir investimentos limitados de capital estrangeiro e outras ‘reformas de mercado’ para resgatar a economia cubana abalada, ao mesmo tempo em que instituía medidas de austeridade, Fidel conseguiu tirar Cuba da beira do desastre. Ao longo do difícil ‘Período Especial’ — como Fidel definiu a era pós-soviética —, ele incentivou a ressurreição do Che como um herói popular que melhor representava os ideais da Cuba revolucionária.
Quando os restos mortais de Guevara foram exumados, foram colocados em caixões e transportados de avião para Cuba, onde foram recebidos em uma cerimônia privada e emocionante, da qual participaram Fidel e Raúl Castro. Três meses depois, em 10 de outubro de 1997, no início de uma semana de luto oficial em Cuba, Fidel e Raúl prestaram suas homenagens formalmente. Os caixões do Che e de seus seis companheiros foram expostos no monumento a José Martí, um obelisco no centro da Praça da Revolução, em Havana. Nos dias seguintes, cerca de 250 mil pessoas esperaram na fila por horas para passar diante do caixão. Crianças deixaram cartas para o Che. Homens e mulheres em lágrimas recitaram poemas e cantaram canções revolucionárias. Em seguida, os caixões cobertos com bandeiras foram levados lentamente em uma comitiva até a cidade de Santa Clara, que o Che havia conquistado na batalha final e mais decisiva da guerra revolucionária de Cuba, quase 40 anos antes. Ele e seus companheiros foram sepultados ali, em um mausoléu que havia sido construído para homenagear o Heroico Guerrilheiro”.
Repito: sentimos a visão de um repórter não comunista, que trabalha e sobrevive na mídia do grande capital, e por isso possui o limite de coletar dados, dados e mais dados, mas cuja conclusão é nada generosa. Notem, os erros políticos do bloco soviético são mencionados para destacar a amizade de Fidel e Guevara. Não passa pela cabeça de Anderson, ou se lhe passa, ele não quer ver que a teoria do foco estava destinada ao fracasso, e que isso não foi um erro da União Soviética. Para a biografia, Lee Anderson pesquisou, foi honesto na sua busca, mas na seleção que faz do pesquisado há uma traição a seu imenso trabalho. Se comparo mal, seria como um biógrafo de Kepler que não compreendesse a totalidade do feito do cientista. Daí que vai ao cotidiano, aos lugares por onde andou o gênio, vai à citação das leis descobertas pelo gênio, mas não alcança o espaço onde circulou a sua grandeza.
Então, eu retomo ao fim, à pessoa de Fidel Castro no seu centenário. Sobre ele escreveu um dos gênios universais das Américas, de nome Gabriel García Márquez:
“Raras vezes Fidel cita frases alheias, nem em conversas nem na tribuna, a não ser as frases de José Martí, que é seu autor de cabeceira. Conhece a fundo os 28 volumes da sua obra.
Seu auxiliar supremo é a memória, e a usa até o abuso para apoiar discursos ou palestras íntimas com raciocínios invisíveis e operações aritméticas de uma rapidez incrível. Sua tarefa de acumulação informativa começa desde que acorda. Toma o café da manhã com não menos de 200 páginas de notícias do mundo inteiro.
Um homem de costumes austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal às antigas, de palavras cuidadosas e modos sutis, incapaz de conceber nenhuma ideia que não seja descomunal. Sonha que seus cientistas encontrem o remédio definitivo contra o câncer, e criou uma política exterior de potência mundial em uma ilha sem água doce, 84 vezes menor que o seu inimigo principal. É tal o pudor com que protege sua intimidade que sua vida privada terminou por ser o enigma mais hermético da sua lenda…
Eu tenho escutado Fidel em suas escassas horas de saudades quando ele recorda as manhãs do campo de sua infância rural, a namorada da juventude que se foi, as coisas que poderia ter feito de outra maneira para ganhar mais tempo para a vida”.
O mundo sabe que Fidel Castro é imortal antes, durante e depois dos seus cem anos. Mas o que é mesmo essa tal de imortalidade? Tentei esclarecer o fenômeno em página que escrevi no romance A mais longa duração da juventude:
“A vida é o que resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão breve, é tudo que resiste. Mas que paradoxo: se ela está no tempo que se dirige para o fim, se ela é naquilo que deixará de ser, como sobreviverá à Irresistível, que é mais conhecida pelo nome de morte? A resposta é que existe uma resistência na duração do instante, que ocorre na intensidade, luz, flor ou cintilação. É como o brilho da luz de uma estrela distante, que recebemos agora, ‘agora’, se fosse possível um agora simultâneo, mas que num paradoxo já não existe. O que vemos agora já não mais existe, tamanha foi a distância que a luz percorreu no espaço escuro até ferir a nossa percepção. Mas isso é no terreno físico, mecânico, do reino da velocidade da luz de 300 mil quilômetros por segundo. O que desejo dizer é mais fino. A resistência, que é vida, se processa na brevidade pelas ações e trabalhos dos que partiram e partem. Mas nós, os que ficamos, não estamos na estação à espera do nosso trem. Nós somos os agentes dessa duração, esse trem não chegará com um aviso no alto-falante, ‘atenção, senhor passageiro, chegou a sua hora, entre’. Até porque talvez chegue sem aviso, e não é bem um transporte. O trem é sempre de quem fica. E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência do fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos”.
Penso que é nessa forma, a da permanência do ser, a da vida que é resistência, que podemos ver a imortalidade de Fidel Castro. Ele se tornou imortal não só agora. Ele se tornou antes, desde a derrubada de Fulgencio Batista e da revolução na ilha que virou um continente. Fidel passa por este presente e resistirá com sua vida no tempo.
Fidel resiste.
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