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Fidel fez do esporte um direito e transformou Cuba em potência olímpica

“O esporte é um direito do povo.” A ideia defendida por Fidel Castro nos primeiros anos da Revolução Cubana sintetiza uma transformação que, em poucas décadas, levou uma pequena ilha do Caribe ao topo do esporte mundial. 

O projeto revolucionário buscou levar a prática esportiva às escolas, bairros e comunidades, fazendo da massificação a base para uma das maiores potências olímpicas da segunda metade do século 20.

Quando a Revolução triunfou, em janeiro de 1959, Cuba já possuía tradição no beisebol e alguns nomes importantes em modalidades individuais, mas a prática organizada estava longe de alcançar toda a população. 

O objetivo do novo governo foi romper essa barreira e incorporar o esporte ao conjunto de direitos sociais que começavam a ser ampliados.

Ainda em 1959, Fidel antecipou a dimensão do projeto. “Quando cada jovem encontrar na cidade, no povoado, no bairro, um lugar apropriado para desenvolver suas condições físicas e dedicar-se inteiramente à prática do esporte de sua preferência, teremos satisfeito o desejo de todos os que fizemos esta Revolução”, afirmou.

A concepção ganhou estrutura em 23 de fevereiro de 1961, com a criação do Instituto Nacional de Deportes, Educación Física y Recreación (Inder). O organismo passou a coordenar uma rede que começava na educação física e na recreação, atravessava escolas e comunidades e chegava à formação de atletas de alto rendimento.

“O país necessita da Educação Física e necessita do esporte. A Revolução não podia se desentender dessa preocupação”, declarou Fidel naquele mesmo ano, ao defender a atividade física como parte da formação e da saúde da população.

“O esporte vai ser uma atividade que será popularizada e generalizada até uma dimensão que possivelmente agora muitos nem imaginam”, projetou o líder cubano em março de 1961.

As décadas seguintes mostrariam o alcance daquela previsão.

Da escola ao pódio

O sistema construído pela Revolução inverteu a lógica que concentrava o investimento em uma pequena elite de competidores. Educação física nas escolas, professores especializados, competições estudantis, instalações públicas e centros de formação passaram a alimentar uma estrutura que identificava talentos a partir de uma base muito mais ampla.

O princípio era resumido por Fidel em uma fórmula que atravessaria as décadas: “não o esporte para uma minoria, mas o esporte para todo o povo”.

Os resultados internacionais começaram a aparecer rapidamente. Em Tóquio-1964, Enrique Figuerola conquistou a prata nos 100 metros e tornou-se o primeiro medalhista olímpico da Cuba revolucionária. Quatro anos depois, na Cidade do México, a delegação conquistou quatro medalhas de prata.

Nos Jogos Pan-Americanos de Cáli, em 1971, veio o salto que consolidou a ilha como força continental: foram 105 medalhas, 31 delas de ouro.

O esporte cubano começava a demonstrar que a distância econômica para as grandes potências não precisava ser reproduzida automaticamente dentro das pistas, ginásios e ringues.

A massificação também passou a caminhar ao lado da ciência. Formação de treinadores, medicina esportiva, acompanhamento de atletas e escolas de iniciação permitiram que um país com recursos limitados criasse excelência em modalidades como boxe, atletismo, judô, luta, vôlei e beisebol.

Stevenson, Juantorena e os campeões da Revolução

Nenhum atleta representou tão claramente o espírito daquela primeira geração quanto Teófilo Stevenson.

O peso-pesado conquistou três ouros olímpicos consecutivos — Munique-1972, Montreal-1976 e Moscou-1980 — e se tornou um dos maiores boxeadores amadores da história. Em uma época em que propostas milionárias poderiam levá-lo ao boxe profissional nos Estados Unidos, Stevenson permaneceu em Cuba e tornou-se um dos grandes símbolos esportivos da Revolução.

Em Montreal-1976, outro cubano protagonizou uma façanha histórica. Alberto Juantorena venceu tanto os 400 quanto os 800 metros, combinação extraordinária entre velocidade e resistência que lhe rendeu dois ouros olímpicos.

Quatro anos depois, María Caridad Colón venceu o lançamento do dardo em Moscou e se tornou a primeira mulher latino-americana campeã olímpica.

Vieram depois outras gerações. Javier Sotomayor levou Cuba ao topo do salto em altura e estabeleceu em 1993 a marca de 2,45 metros, que permanece como recorde mundial. Félix Savón prolongou a hegemonia cubana no boxe. As seleções femininas de vôlei conquistaram três títulos olímpicos consecutivos entre 1992 e 2000.

Os campeões transformaram-se em heróis nacionais, mas o sentido político atribuído às suas vitórias era coletivo: antes do atleta estavam o professor, a escola, o treinador, o médico e uma estrutura financiada pelo Estado.

Fidel acompanhou de perto esse processo. Apaixonado pelo esporte, apareceu jogando beisebol e basquete, acompanhou competições e manteve relação próxima com várias gerações de atletas. Sua presença ajudou a converter o esporte também em expressão da soberania nacional.

Durante a Guerra Fria, cada vitória internacional de Cuba carregava um significado que ultrapassava o placar. Um país submetido ao bloqueio dos Estados Unidos e às tentativas de isolamento demonstrava capacidade de competir — e vencer — países incomparavelmente mais ricos.

Uma pequena ilha chega ao quinto lugar do mundo

O ponto máximo dessa trajetória veio nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.

Cuba conquistou 14 medalhas de ouro, seis de prata e 11 de bronze. Com 31 pódios, terminou em quinto lugar no quadro de medalhas, atrás apenas da equipe unificada formada por antigas repúblicas soviéticas, Estados Unidos, Alemanha e China.

A dimensão do feito aumenta quando observadas as condições em que ocorreu.

A União Soviética havia desaparecido no ano anterior e Cuba perdera abruptamente seu principal parceiro comercial. A ilha entrava no Período Especial, marcado pela queda da atividade econômica, escassez de combustível e severas dificuldades materiais.

Mas a geração que chegou a Barcelona era fruto de três décadas de construção esportiva. No momento em que Cuba enfrentava uma de suas maiores crises desde 1959, o sistema concebido sob Fidel alcançava seu maior resultado olímpico.

A ilha nunca mais repetiria aquela campanha, mas permaneceu durante anos entre as grandes forças mundiais. Foram 29 medalhas em Sydney-2000 e outras 27 em Atenas-2004.

O esporte cubano comprovava uma das apostas centrais da Revolução: um país pequeno, latino-americano e submetido a enormes limitações econômicas poderia disputar espaço com as maiores potências quando o acesso ao esporte, à educação e à formação deixasse de depender da renda individual.

Bloqueio, Período Especial e os novos desafios

A queda da União Soviética, porém, inaugurou uma etapa muito mais difícil.

A crise econômica atingiu instalações, equipamentos, preparação e participação em competições internacionais justamente quando o esporte mundial acelerava sua profissionalização e passava a exigir investimentos cada vez maiores.

O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos aprofundou essas limitações. Segundo balanço do Inder, somente em 2024 as restrições norte-americanas provocaram perdas de mais de US$ 3,4 milhões para o esporte cubano.

Outro desafio foi a saída de atletas, especialmente jogadores de beisebol atraídos pelos contratos milionários das ligas profissionais dos Estados Unidos. O fenômeno cresceu a partir dos anos 1990 e obrigou Cuba a adaptar um sistema concebido originalmente em oposição à mercantilização do esporte.

Desde 2013, o país flexibilizou as regras para permitir que atletas atuem profissionalmente no exterior. Mais recentemente, o Inder passou também a buscar aproximação com esportistas que trabalham fora de Cuba sem vínculo com as federações nacionais, mas desejam defender a ilha em competições internacionais.

As mudanças procuram responder a uma realidade internacional muito diferente daquela encontrada pela Revolução em 1959 sem abandonar a estrutura pública de formação.

Mijaín López mantém vivo o legado

Se Teófilo Stevenson simbolizou a primeira grande geração produzida pelo sistema revolucionário, Mijaín López tornou-se a maior expressão de sua longevidade.

Em Paris-2024, o lutador cubano conquistou seu quinto ouro olímpico consecutivo na luta greco-romana. Campeão desde Pequim-2008, repetiu o título em Londres-2012, Rio-2016, Tóquio-2020 e Paris antes de deixar os sapatos sobre o tapete e encerrar a carreira.

A despedida histórica de Mijaín ocorreu, porém, em uma Olimpíada que também expôs as dificuldades atuais do esporte cubano.

A delegação terminou Paris com dois ouros, uma prata e seis bronzes. O próprio Inder reconheceu posteriormente que o resultado ficou abaixo da meta de colocar Cuba entre as 20 primeiras nações do quadro de medalhas.

As limitações aparecem também na infraestrutura. Em balanço apresentado em 2025, dirigentes informaram que 1.325 instalações esportivas estavam classificadas em condições regulares ou ruins, apesar de outras 277 terem sido recuperadas.

A resposta proposta pelo país retoma justamente as bases do sistema construído seis décadas atrás: melhorar instalações, ampliar a formação dos treinadores, incorporar conhecimento científico e reforçar a preparação de crianças e adolescentes nas Escolas de Iniciação Esportiva (EIDE).

A massificação continua no centro da política. Na mesma reunião, a Federação Cubana de Beisebol informou que 120 dos 168 municípios do país já contavam com instalações para categorias menores e anunciou a ampliação das faixas etárias atendidas pelas Pequenas Ligas.

65 anos depois, o esporte continua sendo do povo

O Inder completou 65 anos em fevereiro de 2026 em uma Cuba muito diferente daquela em que foi criado.

A ilha enfrenta uma grave situação econômica e energética, o recrudescimento do cerco dos Estados Unidos e dificuldades materiais que alcançam também ginásios, piscinas, campos e centros de treinamento. A potência capaz de terminar em quinto lugar no mundo em Barcelona já não possui a mesma força no quadro de medalhas.

Mas a dimensão do projeto iniciado sob Fidel não pode ser medida apenas pelo número de ouros.

Ao celebrar o aniversário do Inder, a imprensa cubana voltou às comunidades para mostrar onde permanece a base daquela concepção: professores de educação física, treinadores, escolas, instalações municipais e atividades recreativas abertas à população.

É o caminho que vai do bairro ao campeão — e não o contrário.

Em 1959, quando Cuba ainda estava muito distante dos grandes pódios internacionais, Fidel havia definido o objetivo: fazer com que cada jovem encontrasse perto de casa um lugar onde pudesse praticar o esporte que desejasse.

Vieram depois Stevenson, Juantorena, María Caridad Colón, Sotomayor, Savón, as tricampeãs olímpicas do vôlei e Mijaín López. Vieram dezenas de títulos mundiais e olímpicos. E veio Barcelona-1992, quando uma ilha de cerca de 10 milhões de habitantes chegou ao quinto lugar entre todas as potências esportivas do planeta.

Ao transformar o esporte de privilégio em política pública e vinculá-lo à educação, à saúde e à formação social, a Revolução criou as condições para uma experiência esportiva sem paralelo na América Latina. Cem anos depois do nascimento de Fidel e 65 anos após a criação do Inder, é esse princípio que permanece no centro de seu legado: “não o esporte para uma minoria, mas o esporte para todo o povo”.

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