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Fiel à voz do dono: O Globo sempre ladra contra mais direitos para os trabalhadores

Para a surpresa de zero pessoas, o jornal O Globo publicou no último domingo um editorial em que qualifica a proposta de redução da escala de trabalho sem corte de salários – com o fim da escala 6×1 – como “oportunismo populista”.

Já vimos esse filme antes, repetidas vezes. Em abril de 1962, por exemplo, o jornal estampou a seguinte manchete: “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”. O texto argumentava que a conquista trabalhista, sancionada por João Goulart meses depois, sobrecarregaria as empresas e causaria inflação. Hoje, o 13º é direito sagrado.

O jornal da família Marinho nunca escondeu sua posição de classe: é fiel à voz do dono – a elite econômica brasileira e internacional – e late ferozmente contra qualquer avanço que beneficie a classe trabalhadora.

Apito de cachorro

O recente rosnado do Globo não foi isolado. Durante o final de semana, O Estadão e a Folha de S.Paulo também mostraram os dentes contra o fim da escala 6×1, sempre em defesa dos interesses patronais que representam.

Há algo trágico nesse latido ensaiado. Assim como um cão que corre atrás do próprio rabo, a lógica patronal gira em círculos – faz muito barulho, mas não sai do lugar – com argumentos vazios que não apontam alternativas.

Produtividade não nasce do cansaço

Os editoriais da imprensa corporativa alegam que a mudança vai gerar perda de produtividade e aumento do desemprego, mas a produtividade não nasce do esgotamento. Um trabalhador exausto após seis dias de labuta não produz mais – produz pior, erra mais, adoece mais. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem estudos que mostram que jornadas reduzidas tendem a aumentar a produtividade por hora trabalhada. Quem defende jornada longa não entende de economia, entende de exploração.

Chamar de “oportunismo” a luta por um direito básico como o descanso digno é uma crítica cínica. As PECs e projetos de lei em debate são frutos da luta histórica do movimento sindical pela redução da jornada – em resposta a tantas histórias reais de trabalhadores e trabalhadoras que adoecem, se afastam de suas famílias e morrem antes da aposentadoria. Debate técnico existe, sim. Só não chega ao Globo e aos demais jornalões porque os técnicos que eles consultam são contratados pelos patrões.

O argumento preferido deles é o dos eventuais prejuízos ao pequeno empresário, usado neste debate como escudo humano. A verdade é que a escala 6×1 também esmaga o pequeno comércio, que precisa competir com grandes redes que já operam com escalas mais flexíveis e automação. Reduzir a jornada nivela o jogo por cima. E tem mais: trabalhador descansado consome mais. O pequeno negócio não morre por causa de direitos – morre pela falta de clientes e de crédito.

Atrás do próprio rabo

Os articulistas do Globo dizem que deve haver aumento de produtividade antes da redução da jornada. É a mesma lógica do cão correndo atrás do próprio rabo: o patrão exige produtividade para reduzir a jornada, mas só consegue aumentar a produtividade desgastando o trabalhador. É um ciclo que nunca se completa – a não ser que se rompa com o status quo.

Foi assim com o 13º, com a jornada 8h, com a CLT. Sempre disseram “primeiro produza mais, depois descanse mais”, mas esse dia nunca chega por iniciativa do patrão. A história prova que qualquer avanço para os trabalhadores sempre veio pela luta organizada, não pela boa vontade de quem lucra com a exaustão.

Surdo à voz de quem trabalha, O Globo late porque é fiel à voz do dono. Só que o dono não carrega caixa, não atende cliente no sábado à noite, não chega em casa com dor nas costas no domingo. O dono dá a ordem – e o cão obedece, correndo atrás do próprio rabo, ladrando sempre as mesmas previsões catastróficas que nunca se confirmam.

No fim do dia, porém, o rabo que o sistema morde é o nosso. É o trabalhador que sangra. É a mãe que não vê o filho crescer. É o jovem que adoece antes dos 30. Quebrar esse ciclo exige uma mordida de verdade – não do cão contra si mesmo, mas da classe trabalhadora contra a coleira.

Enquanto os cães ladram, nossa caravana avança. O fim da escala 6×1 já se anuncia no horizonte.

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