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Fifa e a geopolítica colonialista do futebol

Donald Trump ao lado de Gianni Infantino, presidente da FIFA, recebendo o Prêmio da Paz, recém-criado pela entidade. Imagem: Reprodução/Getty Images

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A Copa do Mundo FIFA 2026 consolidará os Estados Unidos como epicentro político, econômico e simbólico do futebol global. Embora o torneio seja formalmente dividido entre EUA, Canadá e México, os norte-americanos concentrarão o coração da competição: seis dos oito jogos das oitavas de final serão disputados em território estadunidense e, a partir das quartas de final, todas as partidas (incluindo semifinal e final) ocorrerão exclusivamente nos EUA. Ou seja, o país não apenas escapou de qualquer tipo de sanção internacional apesar de seu histórico recente de guerras, assassinatos seletivos, bloqueios econômicos e ataques contra outros Estados soberanos, como foi premiado com o protagonismo absoluto do maior evento esportivo do planeta. A contradição torna-se ainda mais evidente quando comparada à velocidade com que a Rússia foi suspensa pela FIFA e pela UEFA em 2022, sendo excluída das Eliminatórias e do sistema internacional do futebol em tempo recorde.

Enquanto Moscou foi transformada em pária esportivo, EUA e também Israel seguem sem qualquer punição relevante, mesmo diante das acusações de genocídio contra o povo palestino e das sucessivas denúncias de crimes de guerra. A dualidade de critérios revela que a chamada “neutralidade” do futebol mundial não é neutra: ela opera de acordo com as hierarquias do poder global, da hegemonia política e dos interesses do imperialismo contemporâneo.

A suspensão da Rússia pela FIFA e pela UEFA em 2022 foi tratada pelo establishment esportivo ocidental como uma resposta moral inevitável diante da guerra na Ucrânia. Em questão de dias, clubes russos foram excluídos de competições internacionais, a seleção nacional ficou fora das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 e, posteriormente, também da disputa por vagas para a Copa do Mundo FIFA 2026. No dia seguinte à decisão da FIFA, em entrevista à Rádio BandNews FM do Brasil, afirmei que a medida era histórica justamente por não possuir precedentes no futebol mundial contemporâneo e que, naquele momento, já me parecia improvável que uma sanção de tamanha magnitude viesse a ser aplicada contra países alinhados à hegemonia ocidental. O desenvolvimento dos acontecimentos internacionais desde então, especialmente a ausência de qualquer punição a Israel e o protagonismo dos Estados Unidos como sede da Copa de 2026, apenas reforçou essa percepção inicial.

Entretanto, a rapidez da punição à Rússia levanta uma questão incontornável: por que o mesmo rigor não se aplica aos Estados Unidos e a Israel? Como explicar que os EUA, sob a liderança de Donald Trump, responsáveis por ataques militares contra o Irã e pelo assassinato de lideranças iranianas, sejam um dos anfitriões da Copa do Mundo FIFA 2026? E por que Israel permanece plenamente integrado ao sistema internacional do futebol, sem qualquer sanção relevante, mesmo diante do genocídio em curso contra o povo palestino e das sucessivas denúncias de crimes de guerra?

A resposta não está em princípios universais, moralidade esportiva ou neutralidade institucional. A resposta está no poder.

O futebol mundial não existe fora das relações internacionais. Pelo contrário: ele é uma de suas expressões mais sofisticadas. A FIFA não é uma entidade neutra pairando acima da política global; ela opera dentro da estrutura de poder do sistema internacional e, portanto, reproduz suas hierarquias, interesses e hegemonias.

Joseph Nye formulou o conceito de “soft power” para explicar como os Estados exercem influência não apenas pela coerção militar ou econômica, mas também pela atração cultural, pela construção de legitimidade e pela capacidade de moldar preferências e consensos. Há mais de uma década venho trabalhando academicamente com o conceito de soft power aplicado à diplomacia do esporte, inclusive desenvolvendo uma análise crítica sobre os pressupostos ideológicos e hegemônicos presentes nessa formulação teórica, especialmente no que se refere à naturalização dos valores e interesses das potências ocidentais como supostamente universais. O esporte, especialmente o futebol, tornou-se um dos instrumentos centrais dessa disputa simbólica global. Megaeventos esportivos, Copas do Mundo e Olimpíadas funcionam como vitrines de prestígio internacional, mecanismos de construção de reputação e aparatos de legitimação geopolítica.

No entanto, como demonstram as tradições marxistas, incluindo suas formulações clássicas e as contribuições teóricas de Antonio Gramsci e dos autores gramscianos no campo da hegemonia e do imperialismo, o chamado “soft power” nunca está dissociado do “hard power”. Em minha tese de doutorado, posteriormente adaptada para o livro China, Football and Development: socialismo and soft power” (publicado pela Routledge), desenvolvo uma crítica marxista ao conceito de soft power, especialmente a partir da análise gramsciana sobre hegemonia, consenso, ideologia e disputa de poder no sistema internacional. O consenso não existe sem coerção latente, assim como a dominação não se sustenta apenas por força material, mas também por mecanismos culturais, ideológicos e simbólicos que organizam a produção do consentimento. A hegemonia, nesse sentido, não se reduz às dimensões econômica ou militar, mas se expressa de forma articulada nessas múltiplas esferas. É precisamente nesse ponto que o futebol revela sua dimensão política mais profunda.

A exclusão da Rússia não pode ser compreendida apenas como uma decisão ética. Ela deve ser entendida dentro do contexto mais amplo da disputa geopolítica entre o Ocidente liderado pelos EUA e seus adversários estratégicos. A Rússia tornou-se alvo de um processo de isolamento internacional que extrapola sanções econômicas e militares, alcançando cultura, esporte e entretenimento. O futebol foi mobilizado como parte desse esforço de deslegitimação global.

Por outro lado, os Estados Unidos ocupam posição distinta dentro da ordem internacional. Como argumenta Antonio Gramsci, a hegemonia se sustenta não apenas pela força, mas pela capacidade de produzir consenso e apresentar seus interesses particulares como universais. O poder hegemônico consegue definir quais guerras são “defensivas”, quais intervenções são “humanitárias” e quais violências merecem condenação internacional.

Nesse sentido, os EUA não são tratados como um ator comum do sistema internacional. São o centro da ordem hegemônica construída após a Segunda Guerra Mundial. A própria ideia de uma “ordem internacional baseada em regras” frequentemente opera como linguagem ideológica que legitima os interesses do poder dominante. Quando Washington invade países, promove assassinatos seletivos ou impõe bloqueios econômicos devastadores, esses atos raramente produzem exclusão esportiva. Ao contrário: os EUA seguem sendo apresentados como guardiões da democracia liberal e do “mundo livre”.

A contradição torna-se ainda mais evidente no caso do Irã. Durante os últimos meses, esteve em dúvida a participação da seleção iraniana na Copa do Mundo de 2026. Não por desempenho esportivo, corrupção ou violação das regras da FIFA, mas porque seus jogadores poderiam simplesmente não receber vistos para entrar nos Estados Unidos. A lógica esportiva foi completamente invertida: o país anfitrião passou a influenciar o poder de decidir, politicamente, quem poderia ou não competir.

A Federação Iraniana exigiu garantias explícitas de segurança e livre entrada para todos os jogadores e membros da comissão técnica, especialmente aqueles que cumpriram serviço militar obrigatório junto à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), caso de atletas como Mehdi Taremi e Ehsan Hajsafi. A preocupação iraniana surgiu após integrantes da delegação enfrentarem problemas de visto em eventos ligados à FIFA e diante do fato de que todos os jogos da fase de grupos da seleção ocorrerão em território estadunidense.

O mais impressionante é que essa situação foi tratada quase com naturalidade por parte da mídia ocidental e das instituições esportivas. Imagine-se o contrário: uma Copa sediada por Rússia, China ou Irã ameaçando impedir a entrada de jogadores de determinadas seleções por razões político-ideológicas. O escândalo seria imediato. Mas quando o poder hegemônico impõe restrições, elas são enquadradas como “questões de segurança nacional”.

Além disso, cresce o temor em torno das ações autoritárias do U.S. Immigration and Customs Enforcement, mais conhecido e temido pela sua sigla, ICE. O endurecimento das políticas migratórias nos EUA, marcado por detenções arbitrárias, deportações e perseguições contra estrangeiros, projeta uma sombra sobre a própria realização do Mundial. Torcedores estrangeiros, trabalhadores migrantes e membros de delegações convivem com o medo constante de abordagens discriminatórias, dificuldades migratórias e repressão estatal. Uma Copa do Mundo, que deveria simbolizar circulação global, integração cultural e encontro entre povos, corre o risco de ocorrer sob um ambiente de vigilância, intimidação e securitização permanente.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos intensificam políticas agressivas de caráter imperial. A guerra tarifária contra diversos países do mundo, a tentativa de reorganizar coercitivamente cadeias globais de produção, as ameaças abertas de anexação da Groenlândia e as reiteradas ingerências contra governos considerados “hostis” demonstram que a lógica imperial permanece viva. A política externa estadunidense segue operando sob a ideia de que Washington possui legitimidade para disciplinar o sistema internacional e impor unilateralmente seus interesses estratégicos.

Um caso particularmente ilustrativo é o da Venezuela, cuja história recente evidencia ainda mais a seletividade das normas internacionais contemporâneas. Em 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar que resultou na captura e remoção do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, transferindo-os para custódia norte-americana e, posteriormente, para Nova York, onde passaram a responder a acusações criminais. Essa ação constituiu uma clara violação da soberania nacional venezuelana e uma ruptura direta do direito internacional, na medida em que envolveu o uso unilateral da força em território de um Estado soberano, sem autorização das Nações Unidas ou qualquer mandato jurídico internacionalmente reconhecido. Esse episódio foi acompanhado por debates mais amplos sobre a legalidade da operação e suas implicações para o direito internacional, com parcelas significativas da comunidade internacional questionando sua compatibilidade com os princípios fundamentais da Carta da ONU e com a soberania da Venezuela. Nesse contexto, até mesmo a discussão pública nos Estados Unidos sobre a possibilidade de capturar e remover à força Maduro do poder já sinalizava a normalização de práticas fundamentalmente incompatíveis com os princípios de soberania estatal quando aplicadas a países alvos da política externa estadunidense.

O caso de Israel é igualmente revelador da seletividade moral do futebol global. Ao longo dos últimos anos, acumulam-se denúncias de limpeza étnica, apartheid, massacres contra civis palestinos, destruição sistemática de infraestrutura e assassinatos em massa em Gaza. Ainda assim, não há qualquer movimento efetivo da FIFA para suspender Israel de competições internacionais.

A contradição torna-se evidente quando se compara a velocidade da punição à Rússia com a complacência diante da violência israelense. Isso demonstra que os critérios da FIFA não são universais, mas profundamente políticos. Alguns Estados podem ser convertidos em párias internacionais; outros permanecem protegidos pela estrutura de alianças e interesses da hegemonia ocidental.

O futebol, nesse cenário, funciona como aparelho ideológico da ordem internacional. A narrativa da “neutralidade esportiva” é utilizada seletivamente. Quando interessa ao bloco hegemônico, esporte e política se misturam rapidamente. Quando não interessa, invoca-se a autonomia esportiva para evitar punições e preservar aliados estratégicos.

A própria Copa do Mundo FIFA 2026 simboliza essa contradição histórica. O torneio será sediado pelos Estados Unidos, Canadá e México, mas inevitavelmente terá os EUA como centro político e simbólico do evento. A competição ocorrerá justamente num contexto de crise da hegemonia estadunidense, ascensão chinesa, aprofundamento das disputas multipolares e crescente contestação do poder ocidental no Sul Global.

Em termos gramscianos, vive-se um momento de crise hegemônica: “o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”. O endurecimento das sanções, das guerras híbridas, das disputas narrativas e da instrumentalização do esporte revela exatamente esse processo. O poder dominante percebe o enfraquecimento relativo de sua capacidade de convencimento e, por isso, intensifica simultaneamente coerção e propaganda.

A FIFA, longe de escapar dessa lógica, integra-a. O futebol globalizado tornou-se parte da engrenagem do capitalismo internacional e das estruturas de poder do imperialismo contemporâneo. Sua governança reflete as assimetrias do sistema mundial.

Isso não significa defender guerras ou relativizar tragédias humanas. Significa questionar por que algumas vítimas mobilizam indignação universal imediata, enquanto outras permanecem invisibilizadas. Significa perguntar por que determinados Estados são punidos exemplarmente e outros seguem legitimados, premiados e celebrados.

A suspensão da Rússia demonstrou que a FIFA é plenamente capaz de agir politicamente quando deseja. Como já apontado publicamente por mim em 2022, desde o primeiro momento daquela decisão, tratava-se de uma medida excepcional, sem precedentes no futebol internacional, dificilmente aplicável a países alinhados à hegemonia ocidental. O desenrolar dos acontecimentos apenas reforçou essa percepção. O silêncio diante de Israel, a naturalização do protagonismo dos EUA na Copa de 2026 e a própria possibilidade de uma seleção classificada ser impedida de competir por restrições migratórias do país anfitrião demonstram que o problema nunca foi a politização do esporte. O problema é quem possui poder suficiente para definir quais violências importam e quais podem continuar sendo tratadas como normais.

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