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Flávio apaga ataques ao Bolsa Família e tenta esconder “bolsa-farelo”

Flávio Bolsonaro (PL) passou anos atacando programas de transferência de renda, desqualificando o Bolsa Família e acusando o PT de utilizar o combate à pobreza para comprar votos. Agora, a menos de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, o candidato apagou de suas redes sociais todas as publicações em que chamava o benefício de “bolsa-farelo”. O movimento ocorre justamente quando tenta convencer os brasileiros de que manterá o programa criado no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. As mensagens desapareceram, mas o histórico político do senador permanece.

A exclusão dos ataques foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo, que havia arquivado, em junho deste ano, o histórico de publicações de Flávio no X. O levantamento permitiu recuperar mensagens que não estão mais disponíveis na plataforma. Não foi possível identificar quando foram apagadas.

Em junho de 2013, Flávio acusou o PT de perpetuar a pobreza por meio do que classificava como “bolsa-farelo”, sustentando que a dependência econômica das famílias garantiria votos ao partido. Em abril de 2010, já havia associado o Bolsa Família à compra de votos. As publicações reproduziam uma crítica recorrente de setores da direita às políticas de transferência de renda onde a ideia de que programas voltados à população pobre seriam instrumentos de controle eleitoral.

Esse histórico nao se limita às redes sociais. Em novembro de 2011, quando ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio foi o único deputado a votar contra o programa Renda Melhor, aprovado por 54 votos a um. A iniciativa destinava recursos complementares a famílias em situação de pobreza e extrema pobreza que já recebiam o Bolsa Família.

Na ocasião, o parlamentar voltou a usar a expressão “bolsa-farelo” e apresentou emendas para limitar a dois anos o recebimento do benefício estadual. “Fiz emendas ao projeto […] para limitar em 2 anos.” As propostas foram rejeitadas. O registro da votação mostra que sua oposição à política de transferência de renda não ficou restrita às provocações nas redes sociais.

De “bolsa-farelo” a promessa de manutenção

O contraste entre o passado e o discurso atual ganhou ainda mais força nesta segunda-feira (19), quando Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, defendeu uma regra de transição de dois anos para beneficiários que conseguissem emprego formal ou passassem a empreender.

Em entrevista à Jovem Pan, Daniella utilizou a expressão “prisão assistencialista” ao tratar das políticas de assistência social. Após a repercussão, esclareceu que o prazo proposto seria aplicado à transição de famílias que aumentassem sua renda, e não ao recebimento geral do Bolsa Família.

Flávio também divulgou um vídeo garantindo a continuidade do programa e acusando adversários de divulgar informações falsas sobre suas propostas.

Mas as publicações recuperadas não foram inventadas pela oposição. São declarações do próprio candidato. O voto contra o Renda Melhor também está registrado na trajetória parlamentar de Flávio Bolsonaro.

Embora a proposta atual de transição não seja a mesma limitação defendida pelo senador em 2011, os episódios revelam a distância entre suas antigas posições e o discurso adotado na disputa presidencial. O candidato que antes tratava programas sociais como ferramentas de compra de votos agora precisa explicar por que passou a prometer sua preservação.

A tentativa de apresentar o Bolsa Família como uma armadilha assistencialista esbarra nos próprios resultados da política pública. Segundo dados divulgados pelo UOL, 5,9 milhões de famílias deixaram o programa por aumento de renda entre março de 2023 e setembro de 2026. Esse dado desafia a narrativa de que o programa coloca seus beneficiários como dependentes permanentes. Aliás, é o contrario: a proteção social é o fôlego que permite que famílias em situação de vulnerabilidade tenham condições mínimas de alimentação, sobrevivência e acesso a oportunidades.

O Bolsa Família, retomado pelo governo Lula em 2023, constitui um dos principais instrumentos de enfrentamento à fome e à desigualdade no Brasil. Reduzir essa política à expressão “bolsa-farelo”, como fez Flávio Bolsonaro, significa tratar de forma depreciativa um benefício destinado a milhões de famílias que enfrentam dificuldades econômicas.

Apagar publicações não apaga o passado

A ausência de esclarecimentos por parte do candidato amplia os questionamentos sobre o contraste entre as antigas declarações e a posição assumida na reta final da eleição. Flávio não apenas criticou o Bolsa Família em publicações nas redes sociais, como também votou contra um programa estadual de complementação de renda e ainda apresentou propostas para restringir sua duração.

Agora, diante de milhões de brasileiros que dependem das políticas de proteção social, o bolsonarista procura se apresentar como defensor da continuidade do benefício.

A exclusão das mensagens não apaga esse histórico. Ao contrário, recoloca no centro do debate eleitoral uma questão que o candidato precisa responder: o que mudou em sua posição sobre o Bolsa Família e por que as publicações com ataques ao programa foram retiradas justamente no período em que busca conquistar a Presidência da República?

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com agências

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