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Flávio Bolsonaro e a farsa da “moderação” para 2026

Com a aproximação do início da corrida presidencial de 2026, o clã Bolsonaro tenta ensaiar um movimento de “pivotagem”. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o “filho 01” e pré-candidato à Presidência, busca vender ao “mercado” e a setores da direita tradicional uma imagem de articulador político capaz de dialogar com o centro. Contudo, os dados e a frieza dos fatos colhidos na tribuna do Senado Federal revelam que essa pretensa moderação não passa de uma peça de marketing cínica.

A anatomia do discurso, analisada ao longo do mandato, mostra que Flávio não é um legislador, mas um agitador de extrema-direita que transforma o Senado em um palanque de guerra cultural permanente. Para manter a base bolsonarista mobilizada, ele não oferece projetos; ele oferece o inimigo.

Os números de um mandato inócuo que apela à guerra

Entre 1º de fevereiro de 2019 e 9 de abril de 2026, Flávio Bolsonaro proferiu 197 pronunciamentos como autor principal, segundo o Portal do Senado Federal. O volume totaliza uma estimativa conservadora de 37 a 47 horas de fala na tribuna (cerca de 2.500 minutos). Diferentemente do irmão, Eduardo Bolsonaro, o 01 demonstra assiduidade, comparecendo regularmente às sessões e participando ativamente das votações, sem registros de faltas graves. 

No entanto, o conteúdo revela um vazio legislativo estarrecedor. Uma classificação temática completa dos 197 discursos mostra o seguinte padrão:

  • 42% (83 discursos): Dedicados ao confronto institucional (ataques ao STF, Alexandre de Moraes, “ditadura do Judiciário”, lawfare e censura);
  • 28% (55 discursos): Críticas diretas ao governo Lula, à esquerda e ao PT;
  • 15% (30 discursos): Defesa do clã Bolsonaro e na narrativa de vitimização familiar;
  • 8% (16 discursos): Alinhamento com Trump/Israel e críticas à política externa de Lula;
  • Apenas 7% (13 discursos): Defesa de interesse público ou proposições legislativas de caráter geral.

Em tempo de tribuna, o desequilíbrio é ainda mais claro: 68–72% do tempo foi usado em ataques à esquerda, ao governo Lula e às instituições; 18–20% na defesa do clã; e apenas 8–10% em pautas de interesse público não-personalista. Ou seja, 85–88% do tempo na tribuna foi dedicado ao confronto, à política do ódio ou à manutenção da narrativa familiar.

A inversão do “lawfare” e a retórica do ódio

Um dos pontos centrais da estratégia de Flávio é o uso oportunista do termo lawfare — originalmente usado pela defesa de Lula para denunciar a perseguição judicial durante a Lava Jato. Ele inverteu completamente o conceito para acusar o STF e Alexandre de Moraes de perseguir a família Bolsonaro.

Em pronunciamento de 14 de agosto de 2024, quando o pai, Jair Bolsonaro, ainda aguardava a condenação por tentativa de golpe de Estado, Flávio Bolsonaro recorreu ao vitimismo para tentar blindar o clã, declarando: “Hoje, nós, de centro e direita, nos sentimos perseguidos pelo Alexandre de Moraes. […] É a Inquisição! E, o que é pior, à semelhança da Inquisição, um chefe que escolhe, tipifica o crime, condena e é irrecorrível. Isso é a Inquisição!”

O extremismo, contudo, atinge seu ápice em declarações eivadas de falsidades que buscam apenas manter a base radical mobilizada. No discurso de 17 de julho de 2024, ao instrumentalizar o atentado a Donald Trump, ele demoniza a esquerda: “A esquerda é boa de matar: a esquerda é boa de matar feto, a esquerda é boa de matar de fome, a esquerda é boa de matar o povo de tanto pagar imposto”.

Mas, diferentemente da farsa propagada pelo senador, a realidade dos fatos é implacável: o atirador identificado, Thomas Crooks (morto no local), era um republicano registrado. O FBI confirmou que o jovem não possuía vínculos ou motivações ideológicas de esquerda. Ao contrário, as investigações revelaram rastros digitais com ideias anti-imigrantes e antissemitas, espelhando justamente a retórica de ódio e exclusão que a extrema-direita, da qual Flávio é herdeiro e porta-voz, tenta normalizar.

O vazio no Senado

Em sete anos, Flávio apresentou 57 projetos de lei. Apenas um foi aprovado integralmente no Congresso (PL 3.190/2023, sobre microcrédito produtivo, com vetos parciais de Lula). Outros três passaram no Senado e ainda tramitam na Câmara.

Nas principais votações que mobilizaram a opinião pública, votou contra a reforma tributária (2023) e a favor do PL da dosimetria (redução de penas para condenados pelos atos de 8 de janeiro). É coautor da PEC da Anistia (PEC 70/2023), que busca perdoar os envolvidos no 8 de janeiro, mas a proposta nunca foi levada a votação no Plenário. Também apresentou requerimentos para sustar decretos sobre uso da força por agentes de segurança e restrições ao porte de armas.

O esforço para parecer “palatável” ao centro esbarra na própria natureza política. Para Flávio Bolsonaro, a política não é a arte do consenso, mas o campo da aniquilação. O centro democrático e a direita moderada que se deixarem seduzir por essa “ginástica de cinismo” estarão, na verdade, assinando um cheque em branco para a continuidade do caos institucional que o país tanto lutou para superar.

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